Sexta-Feira da Septuagésima
SEXTA-FEIRA DA SEPTUAGÉSIMA
EXPIAÇÃO DO HOMEM
A maldição que daí em diante pesará sobre todo homem foi significada a Eva; a que diz respeito à própria terra é dirigida contra Adão: “Porque escutaste a voz de tua esposa e comeste o fruto proibido, a terra será maldita por causa do que fizeste”.
O Senhor não aceita a desculpa de nosso primeiro pai; digna-se, porém, levar em conta sua fraqueza e considerar que o homem pecou menos por amor de si mesmo do que por cega ternura para com a frágil criatura que dele havia saído. Não é ele a causa primeira de sua desobediência. Deus decretou contra ele um castigo especial, que consiste na humilhação pessoal e no trabalho.
Fora do jardim de delícias estende-se o imenso deserto da terra, o vale de lágrimas, triste desterro para aquele que, durante longos anos, guardará no fundo de sua alma desolada a lembrança das horas tão velozes do paraíso. Este deserto é estéril, e é necessário que o homem o fecunde e o faça produzir, à força de suores, sua mísera subsistência e a de sua família.
Com o correr dos séculos, vários filhos de Adão parecerão subtrair-se à lei do trabalho; mas essa exceção virá confirmar a verdade da sentença geral promulgada pelo Senhor. Alguns descansarão durante alguns dias porque outros trabalharam muito tempo por eles; seu descanso não será legítimo senão enquanto se impuserem a obrigação de animar, com exemplos de virtude e benefícios, a imensa multidão de seus irmãos sobre os quais se cumpre literalmente a sentença acima mencionada. Se o trabalho se interrompe na terra, sarças e espinhos a cobrem; e tão importante é esta lei a que está submetido o homem decaído que a ociosidade enerva as forças de seu corpo e deprava seu coração.
Antes, as árvores do paraíso inclinavam seus ramos para que o homem se sustentasse de seus frutos saborosos. Agora terá de arrancar com trabalho, do seio da terra, a planta cujo grão há de alimentá-lo. Nada poderia representar mais vivamente as relações que desde então existem entre o homem e a terra — sua origem e seu túmulo — do que a necessidade em que ele se encontra de arrancar dela, à viva força, o sustento necessário para prolongar sua vida.
E, no entanto, aparecerá aqui a divina bondade a seu tempo, quando, Deus apaziguado, será concedido ao homem unir-se a seu Criador comendo o Pão da vida descido do céu. Sua virtude será mais eficaz para alimentar nossas almas do que fora o fruto da árvore da vida para sustentar nossos corpos.


