Terça-Feira da Septuagésima
TERÇA-FEIRA DA SEPTUAGÉSIMA
A QUEDA. — Bastaram as promessas da serpente para sufocar no coração da mulher todo sentimento de amor para com Aquele que a havia criado e cumulado de benefícios. Ela já sonhava em igualar-se a Ele. A fé, do mesmo modo, havia-se obscurecido nela. Obstinava-se em pensar que Deus podia tê-la enganado ao ameaçá-la com a morte, caso tivesse a desgraça de quebrantar o seu preceito.
Vencida pelo orgulho, levanta os olhos para o fruto proibido; parece-lhe “bom para comer, belo e agradável à vista”. Seus sentidos e sua alma conspiram para desobedecer a Deus e perdê-la. A prevaricação já está cometida em seu coração; resta apenas consumá-la por um ato formal. Embriagada de si mesma, como se Deus já não existisse, estende a mão, arranca o fruto e o leva à boca.
Deus havia predito a morte ao infiel que violasse seu mandamento. Eva pecou e, contudo, sente que ainda vive. Triunfa o seu orgulho e, julgando-se mais forte que Deus, quer associar Adão à sua culpável vitória. Com gesto firme, apresenta-lhe o fruto que crê ter comido impunemente. E, quer porque se sentisse seguro pela impunidade do crime de sua esposa, quer por um sentimento de amor cego, quis compartilhar a sorte daquela que era carne de sua carne e osso de seus ossos. Nosso primeiro pai esquece, por sua vez, o que deve ao seu Criador e sacrifica a amizade de Deus. Por covarde complacência com sua mulher, come o fruto e, perdendo-se, perde consigo toda a sua descendência.
Mas, apenas um e outro romperam o laço que os unia a Deus, caem em si mesmos. Habitando Deus na criatura que elevou ao estado sobrenatural, dá-lhe um ser completo; se a criatura o expulsa de si pelo pecado, encontra-se em estado pior que o nada: encontra-se no mal. Essa alma, antes tão bela, tão pura, já não é senão ruína e feio montão de escombros. Reduzidos já a si mesmos, nossos primeiros pais experimentam grandíssima vergonha. Quiseram ser deuses, elevar-se até o Ser infinito, e vede-os agora enredados no combate da carne contra o espírito. Sua nudez, até então inocente, os espanta. Buscam meios de cobri-la para não se envergonharem de si mesmos, eles que pouco antes se viam cheios de nobilíssima tranquilidade no meio de um mundo submetido ao seu império.
O amor sedutor de si mesmos apagou neles a lembrança da grandeza e majestade de Deus, bem como a lembrança de seus benefícios, e pisotearam o seu preceito. Essa mesma cegueira lhes tira até a ideia de confessar o seu pecado e implorar a compaixão de seu Senhor, a quem ofenderam. Cheios de espanto, só sabem fugir e esconder-se.


