Oratório São José

IV dia da Oitava da Epifania

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

0:00

9 DE JANEIRO

QUARTO DIA DA OITAVA DA EPIFANIA

Vocação e dignidade dos Magos

Aparecida no Oriente a estrela anunciada por Balaão, os três Magos, cujos corações permaneciam abertos à esperança do Messias Libertador, sentiram repentinamente o aguilhão do amor que os impelia. Diferentemente dos pastores de Belém, aos quais a voz de um Anjo convidou a ir ao presépio, eles receberam a notícia da jubilosa chegada do Rei dos judeus de maneira mística e silenciosa. Mas, em seus corações, a linguagem muda da estrela recebia uma explicação por obra do próprio Pai celestial, que lhes revelava seu Filho. Nisto, sua vocação superou em dignidade a dos pastores, os quais nada souberam senão pelo ministério dos Anjos, conforme a divina disposição da antiga Lei.

Mas, se é certo que a graça de Deus se dirigiu diretamente a seus corações, também se pode dizer que os encontrou fiéis. Os pastores acorreram pressurosos a Belém, diz-nos São Lucas. Os Magos, falando com Herodes, exprimem com não menor contentamento a simplicidade de sua prontidão: “Vimos — dizem eles — sua estrela, e viemos adorá-lo”.

Abraão mereceu tornar-se pai dos crentes graças à sua fidelidade em seguir a ordem que Deus lhe dava de sair da Caldeia, terra de seus antepassados, e transferir-se para uma região desconhecida para ele; os Magos, pela docilidade de sua fé, não menos admirável, mereceram ser os precursores da Igreja dos gentios.

Também eles saíram da Caldeia, segundo referem São Justino e Tertuliano; ao menos era a pátria de alguns. Esses mesmos autores, cujo testemunho outros Padres confirmam, indicam a Arábia como lugar natal de algum dos outros piedosos viajantes. Uma tradição popular, admitida séculos mais tarde na iconografia cristã, faz do terceiro deles natural da Etiópia. De todo modo, não se pode negar que Davi e os profetas já assinalaram os negros habitantes da África como alguns dos primeiros que deveriam ser objeto da predileção divina.

Pela condição de Magos devemos entender a profissão desses homens, que não era outra senão o estudo do curso dos astros no céu, no qual espiavam o próximo aparecimento da estrela profética pela qual suspiravam; porque eram, sem dúvida, daqueles gentios tementes a Deus, como o centurião Cornélio, e não se haviam manchado com o contato idolátrico, conservando, em meio a tantas trevas, as puras tradições de Abraão e dos Patriarcas.

O Evangelho não diz que fossem reis; mas não sem motivo a Igreja lhes aplica os versículos em que Davi fala dos reis da Arábia e de Sabá, que chegam aos pés do Messias com suas ofertas de ouro. Esta tradição apoia-se no testemunho de Santo Hilário de Poitiers, de São Jerônimo, do poeta Juvenco, de São Leão e de muitos outros. Indubitavelmente, não devemos imaginar os Magos como grandes potentados, cujo império pudesse comparar-se em extensão e importância ao poderio romano; mas já sabemos que a Sagrada Escritura atribui com frequência o nome de reis a pequenos príncipes, a simples governadores de província.

Basta, pois, que os Magos exercessem alguma autoridade sobre os povos; ademais, as considerações que Herodes se crê obrigado a ter para com estrangeiros que chegam até seu palácio para anunciar o nascimento de um Rei dos judeus, ao qual procuram render homenagem com tanto zelo, demonstram suficientemente a importância desses personagens; assim como o movimento que sua chegada desperta na cidade de Jerusalém indica claramente que sua presença vinha acompanhada de uma aparência majestosa.

Esses dóceis reis deixam repentinamente sua pátria, suas riquezas e sua tranquilidade para seguir a estrela; o poder de Deus que os havia chamado reúne-os numa mesma viagem e numa mesma fé. Nem os perigos e trabalhos do caminho, cujo fim ignoram, nem o temor de despertar contra si as suspeitas do Império Romano conseguem detê-los.

Seu primeiro descanso é Jerusalém. Chegam esses gentios à cidade santa, que em breve será maldita, para anunciar Jesus Cristo e manifestar sua vinda. Com todo o aprumo e a tranquilidade dos Apóstolos e dos Mártires, declaram sua firme intenção de ir adorá-lo. Obrigam Israel, depositária das divinas profecias, a confessar um dos principais dados do Messias: seu nascimento em Belém. O sacerdócio judaico cumpre, sem o perceber, seu sagrado ministério; Herodes se revolve em seu leito e já planeja seus projetos assassinos.

Mas já é hora de os Magos abandonarem a cidade infiel, que recebeu com sua presença o anúncio de sua reprovação. Volta a aparecer a estrela no céu, animando-os a continuar sua marcha; mais alguns passos e estarão em Belém, aos pés do Rei que vinham procurando.

Também nós, ó Emanuel!, seguimos-vos e caminhamos à vossa luz, porque Vós dissestes na profecia de vosso discípulo amado: “Eu sou a estrela brilhante da manhã” (Apoc., XXII, 16). O astro que conduz os Magos é simplesmente um símbolo dessa estrela imortal. Vós sois o luzeiro matutino, porque vosso nascimento anuncia o fim das trevas, do erro e do pecado. Vós sois o luzeiro matutino, porque, depois de haver sofrido a prova da morte e do sepulcro, saís repentinamente das sombras para a luz matinal no dia de vossa gloriosa Ressurreição. Vós sois o luzeiro matutino, porque, com vosso Nascimento e os mistérios que hão de segui-lo, nos anunciais o dia sem nuvens da eternidade.

Oh! Que vossa luz nos acompanhe constantemente, e sejamos sempre dóceis para abandonar tudo a fim de segui-la como os Magos. Quão espessas eram as trevas que nos rodeavam quando nos chamastes à vossa graça! Nós amávamos essas trevas e, apesar disso, fizestes-nos amar a luz! Ó Cristo!, conservai em nós esse amor. Que o pecado, que nada mais é senão trevas, não se aproxime de nós. Que os pérfidos miragens da falsa consciência não nos seduzam. Afastai de nós a cegueira de Jerusalém e de seu rei, para os quais a estrela não brilha; que ela nos guie em todo momento e nos conduza a Vós, nosso Rei, nossa paz e nosso amor.

Também a vós saudamos, ó Maria!, estrela dos mares, que brilhais sobre as ondas deste mundo para acalmá-las e para proteger os que clamam a vós na tempestade. Vós favorecestes os Magos através do deserto; guiai também os nossos passos e dirigi-nos até Aquele que repousa em vossos braços e vos ilumina com sua luz eterna.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *