II dia da Oitava da Epifania
7 DE JANEIRO
SEGUNDO DIA DA OITAVA DA EPIFANIA
OS MAGOS
Uma festa tão importante como a da Epifania não podia carecer de uma Oitava. Esta Oitava só é inferior em dignidade à da Páscoa e à de Pentecostes; e é mais privilegiada que a do Natal, a qual admite festas de rito duplo e semiduplo, enquanto a Oitava da Epifania só cede diante de uma festa patronal de primeira classe. Dos antigos Sacramentários se depreende também que, na antiguidade, os dois dias posteriores à Epifania eram festas de preceito, assim como os dois dias seguintes às festas da Páscoa e de Pentecostes. Ainda são conhecidas as igrejas estacionais onde clero e fiéis se reuniam nesses dois dias.
A fim de entrar mais plenamente no espírito da Igreja durante esta gloriosa Oitava, contemplaremos diariamente o Mistério da Vocação dos Magos, acorrendo com eles ao sagrado retiro de Belém para ali oferecer os nossos dons ao divino Menino, ao qual fomos conduzidos pela estrela.
E quem são estes Magos, senão os precursores da conversão de todos os povos ao Senhor seu Deus, os pais das nações na fé do Redentor vindo, os patriarcas do gênero humano renovado? Subitamente aparecem em Belém, em número de três, segundo a tradição da Igreja, conservada por São Leão, São Máximo de Turim, São Cesário de Arles e pelas pinturas cristãs que, desde a era das perseguições, adornam as catacumbas da cidade santa.
Deste modo, continua-se neles o Mistério já assinalado desde os primeiros dias do mundo por três homens justos: Abel, sacrificado como figura de Cristo; Set, pai dos filhos de Deus, separados da raça de Caim; Henoc, que teve a honra de regulamentar o culto do Senhor.
E também aquele segundo Mistério de outros três antepassados do gênero humano, dos quais saíram todas as raças depois do dilúvio: Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé.
Finalmente, o terceiro Mistério dos três avós do povo escolhido: Abraão, pai dos crentes; Isaac, nova figura de Cristo imolado; Jacó, forte em sua luta com Deus e pai dos doze Patriarcas de Israel.
Mas todos esses homens sobre os quais se cifrava a esperança do gênero humano, tanto na ordem da natureza como na da graça, foram simples depositários da promessa; e só de longe, como diz o Apóstolo, saudaram a sua feliz realização (Hebr., XI, 13). Os povos não marcharam para Deus seguindo-os; quanto mais luminosa brilhava a luz sobre Israel, tanto mais profunda se fazia a cegueira das nações. Muito ao contrário, os Magos não chegam a Belém senão como núncios e precursores das gerações vindouras. Neles, a figura passa à mais completa realidade pela misericórdia do Senhor, que, tendo vindo buscar o que estava perdido, dignou-se estender os braços a todo o gênero humano, porque todo ele havia perecido.
Contemplemos também esses felizes Magos figurados por aqueles três reis fiéis, glória do trono de Judá, mantenedores no povo escolhido das tradições relativas à espera do Libertador e inimigos da idolatria: Davi, tipo sublime do Messias; Ezequias, cujo braço valoroso afasta os falsos deuses; Josias, restaurador da lei do Senhor, esquecida por seu povo.
Os livros sagrados nos apresentam ainda outro tipo desses piedosos viajantes que, desde a remota Gentilidade, acorrem para saudar o Rei pacífico e oferecer-lhe seus presentes: é a rainha de Sabá, figura da Gentilidade, que, atraída pela fama da profunda sabedoria de Salomão, chamado o Pacífico, chega a Jerusalém com seus camelos carregados de ouro, aromas e pedras preciosas, e venera a realeza do Messias em um de seus mais significativos protótipos.
Deste modo, ó Cristo, é que, nessa tenebrosa noite que, permitindo-o a justiça de vosso Pai, se havia espalhado por todo o mundo pecador, alguns raios de graça iluminam o céu, prometendo dias mais serenos, quando o Sol da vossa justiça aparecer enfim sobre as trevas da morte. Para nós, já passou o tempo dessas funestas trevas; já não temos que Vos contemplar sob as pálidas figuras de luzes vacilantes. Possuímo-Vos a Vós mesmo e para sempre, ó Emanuel!
É certo que sobre a nossa fronte não brilha a diadema da rainha de Sabá; mas nem por isso somos pior recebidos diante do vosso berço. Convidastes alguns pastores a receber as primeiras lições da vossa doutrina: todos os filhos dos homens são chamados a fazer parte da vossa corte; fazendo-Vos Menino, pusestes ao alcance de todos os tesouros da vossa sabedoria infinita.
Quão grande deve ser a nossa gratidão por este benefício da luz da Fé, sem a qual ignoraríamos tudo, mesmo julgando tudo saber! Quão mesquinha, incerta e falaz é a ciência humana comparada com a vossa, cuja fonte temos ao nosso lado! Guardai-nos sempre, ó Cristo! Não permitais que desprezemos jamais essa luz que fazeis brilhar diante de nossos olhos, filtrando-a com o véu da vossa humilde infância. Livrai-nos do orgulho que tudo obscurece, endurecendo o coração; confiai-nos aos cuidados de vossa Mãe, Maria, para que o nosso amor nos mantenha sempre junto de Vós, sob o seu olhar maternal.


