Oratório São José

Prática do Advento

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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PRÁTICA DO ADVENTO

VIGILÂNCIA

Se nossa Mãe, a Santa Igreja, passa o tempo do Advento ocupada nesta solene preparação para o tríplice Advento de Jesus Cristo; se, como as virgens prudentes, permanece com a lâmpada acesa para a chegada do Esposo, nós, que somos seus membros e filhos, devemos participar dos sentimentos que a animam e fazer nossa esta advertência do Salvador: “Estejam cingidos os vossos rins como os dos peregrinos; brilhem em vossas mãos tochas acesas; e sede semelhantes aos servos que esperam o seu senhor”1.

Com efeito, a sorte da Igreja é também a nossa; cada uma de nossas almas é objeto, da parte de Deus, de uma misericórdia e de uma providência semelhantes às que Ele emprega para com a própria Igreja. Se ela é o templo de Deus, é porque se compõe de pedras vivas; se é a Esposa, é porque é formada por todas as almas convidadas à união eterna com Ele. Se é certo que está escrito que o Salvador conquistou a Igreja com seu sangue2, cada um de nós, falando de si mesmo, pode dizer como São Paulo: Cristo me amou e se entregou por mim3. Sendo, pois, idêntica a nossa sorte, devemos esforçar-nos, durante o Advento, por assimilar os sentimentos de preparação que vemos ocupar a Igreja.

ORAÇÃO

Em primeiro lugar, é nosso dever unir-nos aos Santos do Antigo Testamento para pedir a vinda do Messias e pagar assim a dívida que toda a humanidade contraiu para com a misericórdia divina. Para nos animarmos a cumprir este dever, transportemo-nos pelo pensamento ao curso desses milhares de anos, representados pelas quatro semanas do Advento, e pensemos naquelas trevas, naqueles crimes de toda espécie em meio aos quais se movia o mundo antigo.

Nosso coração deve sentir com a maior viveza a gratidão que deve Àquele que salvou sua criatura da morte e que desceu até nós para ver mais de perto e compartilhar todas as nossas misérias, exceto o pecado. Deve clamar, com acentos de angústia e de confiança, Àquele que se dignou salvar a obra de suas mãos, mas que quer também que o homem peça e implore por sua salvação. Que nossos desejos e nossa esperança se dilatem, pois, com estas ardentes súplicas dos antigos Profetas que a Igreja põe em nossos lábios nestes dias de espera; abramos nossos corações, até os seus últimos recantos, aos sentimentos que eles exprimem.

CONVERSÃO

Cumprido este primeiro dever, pensaremos no Advento que o Salvador quer realizar em nosso coração: Advento, como vimos, cheio de doçura e de mistério, e que é consequência do primeiro, pois o Bom Pastor não vem somente visitar o seu rebanho em geral, mas estende seus cuidados a cada uma de suas ovelhas, até mesmo à centésima que se havia extraviado.

Ora, para compreender todo este inefável mistério, é necessário ter presente que, assim como não podemos ser agradáveis ao nosso Pai celestial senão na medida em que Ele vê em nós Jesus Cristo, seu Filho, este divino Salvador, tão bondoso, digna-se vir a cada um de nós para nos transformar n’Ele, se o consentirmos, de sorte que já não vivamos a nossa vida, mas a sua. Este é o objetivo do Cristianismo: a divinização do homem por Jesus Cristo. Tal é a tarefa sublime imposta à Igreja. Com São Paulo, diz Ela aos fiéis: “Vós sois meus filhinhos; pois vos dou um novo nascimento para que Jesus Cristo se forme em vós”4.

Mas, assim como, ao aparecer neste mundo, o divino Salvador se mostrou primeiramente sob a forma de uma frágil criança, antes de chegar à plenitude da idade perfeita necessária para que nada faltasse ao seu sacrifício, do mesmo modo procurará desenvolver-se em nós. Ora, é precisamente na festa do Natal que Ele quer nascer nas almas e derrama sobre sua Igreja uma graça de Nascimento, à qual certamente nem todos são fiéis.

Pois vede a situação das almas à chegada desta inefável festa. Umas, em número mais reduzido, vivem plenamente da vida de Jesus Cristo que está nelas e aspiram continuamente a crescer nesta vida. Outras, em maior número, estão certamente vivas pela presença de Cristo, mas enfermas e débeis por não desejarem o aumento desta vida divina, porque seu amor esfriou5. Os demais homens não gozam desta vida: estão mortos, porque Cristo disse: Eu sou a vida6.

Ora, durante os dias do Advento, Ele passa chamando à porta de todas essas almas, seja de maneira sensível, seja de maneira velada. Pergunta-lhes se têm lugar para Ele, para que possa nascer nelas. E, embora a hospedaria que reclama seja sua, porque Ele a construiu e a conserva, queixa-se de que os seus não o quiseram receber7, ao menos a maioria deles.

“Quanto àqueles que o receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus, e não filhos da carne ou do sangue”8.

Preparai-vos, portanto, vós, almas fiéis, que o guardais dentro de vós como um precioso tesouro e que, há muito tempo, não tendes outra vida senão a sua vida, outro coração senão o seu coração, outras obras senão as suas obras; preparai-vos para vê-lo nascer em vós mais belo, mais radiante e mais poderoso do que até agora o havíeis conhecido. Procurai descobrir nas frases da santa Liturgia essas palavras misteriosas que falam ao vosso coração e encantam o do Esposo.

Alargai vossas portas para recebê-lo novamente, vós que já o tendes dentro de vós, mas sem conhecê-lo; que o possuís, mas sem gozá-lo. Agora Ele volta a vir com renovada ternura; esqueceu vossos desprezos; quer renovar tudo9. Dai lugar ao divino Infante, porque Ele desejará crescer em vós. Aproxima-se o momento: desperte, pois, o vosso coração; cantai e estai alerta, para que Ele não vos encontre adormecidas à sua passagem. As palavras da Liturgia são também para vós: falam de trevas que só Deus pode desfazer, de feridas que só sua bondade pode curar, de enfermidades que unicamente podem sarar por sua virtude.

E vós, cristãos, para quem a boa nova é como se não existisse, porque vossos corações estão mortos pelo pecado, quer se trate de uma morte que vos prende em suas cadeias há muito tempo, quer de feridas recentes: eis que se aproxima Aquele que é a vida. “Por que haveríeis de preferir a morte? Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva”10. A grande festa de seu Nascimento será um dia de misericórdia universal para todos os que quiserem recebê-lo. Estes voltarão com Ele à vida; desaparecerá toda a sua vida anterior, e a graça superabundará ali onde a iniquidade havia abundado11.

E se a ternura e a suavidade deste misterioso Advento não te seduzem, porque teu coração sobrecarregado ainda não é capaz de experimentar confiança; porque, depois de teres sorvido a iniquidade como água, não sabes o que é aspirar, por amor, às carícias de um Pai cujos chamados desprezaste, então deves pensar naquele outro Advento terrível que há de seguir-se ao que se realiza silenciosamente nas almas.

Escuta os estrondos do Universo diante da proximidade do Juiz terrível; contempla os céus fugindo diante de teus olhos, desenrolando-se como um livro12; suporta, se puderes, o seu aspecto, o seu olhar deslumbrante; olha sem estremecer para a espada de dois gumes que sai de sua boca13; escuta, enfim, esses gritos lastimosos: “Ó montes, caí sobre nós; ó rochedos, cobri-nos, afastai-nos de sua vista ameaçadora!”14. Esses gritos são os que lançarão em vão aquelas almas desgraçadas que não quiseram conhecer o tempo de sua visita15. Por terem fechado o coração ao Homem-Deus que chorou sobre elas — tanto as amava! — descerão agora vivas ao fogo eterno, cujas chamas são tão ardentes que devoram os frutos da terra e os fundamentos mais ocultos das montanhas16.

Ali é que rói o verme eterno de um pesar que nunca morre17.

Aqueles, pois, que não se comovem diante da doce notícia da próxima vinda do celestial Médico, do Pastor que generosamente dá a vida por suas ovelhas, meditem durante o Advento no tremendo, mas inegável, mistério da Redenção humana, inutilizada pela recusa que dela frequentemente faz o homem. Calculem suas forças e, se desprezam o Infante que vai nascer18, considerem se serão capazes de lutar com o Deus forte no dia em que vier, não para salvar, mas para julgar. E, para conhecer melhor este Juiz, diante de cuja presença tremerá o mundo inteiro, perguntem à Santa Liturgia: ali aprenderão a temê-lo.

Além disso, este temor não é próprio somente dos pecadores; é um sentimento que todo cristão deve experimentar. O temor, se vai sozinho, faz escravos; se o amor o acompanha, convém bem ao filho culpado que busca o perdão de seu pai irritado; ainda que o amor o lance fora19, às vezes ele reaparece como um raio passageiro, para abalar felizmente o coração da alma fiel até os seus fundamentos mais íntimos. Então ela sente reviver em si a lembrança de sua miséria e da gratuita misericórdia do Esposo. Ninguém, portanto, deve dispensar-se, neste santo tempo do Advento, de associar-se a estes santos temores da Igreja, a qual, por mais amada que seja, exclama frequentemente em sua Liturgia: “Atravessai, Senhor, minha carne com o aguilhão do vosso temor!”. Mas, sobretudo, será útil esta parte da Liturgia àqueles que começam a entregar-se ao serviço divino.

De tudo isso se pode concluir, por consequência, que o Advento é um tempo dedicado principalmente aos exercícios da via purgativa. Isto exprime bem aquela frase de São João Batista, que a Igreja repete com tanta frequência durante este santo tempo: “Preparai os caminhos do Senhor!”. Que cada um de nós trabalhe, pois, seriamente em aplainar o caminho por onde Cristo há de entrar em sua alma. Os justos, seguindo a doutrina do Apóstolo, esqueçam o que fizeram no passado20 e trabalhem com novo ânimo. Apressem-se os pecadores a romper os laços que os cativam, os costumes que os dominam; mortifiquem a carne, começando o duro trabalho de sujeição ao espírito; orem, sobretudo, com a Igreja. Desta maneira, quando vier o Senhor, terão direito a esperar que Ele não passe ao largo de sua porta, mas entre, pois disse, dirigindo-se a todos: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e me abrir, entrarei em sua casa”21.


 

1. Lc. 12, 35.

2. At. 20, 28.

3. Gl. 2, 20.

4. Gl. 4, 19.

5. Ap. 2, 4.

6. Jo. 14, 6.

7. Jo. 1, 11.

8. Ibid. 12-13.

9. Ap. 21, 5.

10. Eceq. 18, 31, 32.

11. Rm. 5, 20.

12. Ap. 6, 14.

13. Ibid. 1, 16.

14. Lc. 23, 30.

15. Ibid. 19, 44.

16. Dt. 32, 22.

17. Mc. 9, 43.

18. Is. 9, 6.

19. I Jo. 4, 18.

20. Fl. 3, 13.

21. Ap. 3, 20.

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