I Domingo do Advento
I DOMINGO DO ADVENTO
Este domingo, primeiro do Ano eclesiástico, recebe nos documentos e crônicas da Idade Média o nome de Dominica Ad te levavi, pelas primeiras palavras do Introito, ou também o de Domingo Aspiciens a longe, pelas primeiras palavras de um dos Responsórios do Ofício de Matinas.
A Estação1 celebra-se em Santa Maria Maior; a Igreja quer começar anualmente o ciclo do Ano litúrgico sob o amparo de Maria, na augusta Basílica que venera a gruta de Belém, e que por esta razão se chama, nos antigos monumentos, Santa Maria ad Praesepe. Impossível escolher lugar mais apropriado para saudar desde já o próximo e divino parto que há de alegrar o céu e a terra, mostrando o sublime prodígio da fecundidade de uma Virgem.
Transportemo-nos, pelo pensamento, a esse sagrado templo e unamo-nos às orações que ali se ouvem; são as mesmas que vamos expor aqui.
No Ofício noturno, a Igreja começa hoje a leitura do Profeta Isaías, século VIII antes de J. C., aquele que com maior clareza predisse as características do Messias; continuando essa leitura até o dia de Natal inclusive. Procuremos saborear os ensinamentos do santo Profeta, e que o olhar da nossa fé consiga descobrir amorosamente o Salvador prometido, sob os traços, ora graciosos, ora terríveis, com que Isaías no-lo pinta.
As primeiras palavras da Igreja no meio da noite são estas:
Ao Rei que há de vir, vinde, adoremo-lo.
Depois de cumprir este supremo dever de adoração, escutemos o oráculo de Isaías, transmitido pela Igreja.
Começa o livro do Profeta Isaías.
Visão de Isaías, filho de Amós, que teve sobre as coisas de Judá e Jerusalém no tempo de Ozias, Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá.
Ouvi, ó céus, e tu, ó terra, escuta, porque o Senhor fala: Criei filhos e os engrandeci; mas eles me desprezaram. O boi conheceu o seu dono e o jumento o presépio do seu senhor2; mas Israel não me reconheceu e o meu povo não me entendeu.
Ai da nação pecadora, do povo carregado de pecados, raça maligna, filhos perversos! Abandonaram o Senhor, blasfemaram contra o Santo de Israel, voltaram-lhe as costas.
Para que vos ferirei de novo, a vós que acrescentais pecados a pecados? Toda cabeça está enferma e todo coração triste. Desde a planta do pé até o alto da cabeça, não há nele parte sã3. Nem a ferida, nem os vergões, nem a chaga infeccionada foram vendados nem suavizados com óleo. (Is., I, 1-6.)
Estas palavras do santo Profeta, ou melhor, de Deus, que fala por sua boca, devem impressionar vivamente os filhos da Igreja, à entrada do santo tempo do Advento. Quem não tremeria ouvindo este grito do Senhor desprezado, no próprio dia de sua visita ao seu povo? Por temor de assustar os homens, despojou-se do seu esplendor; e longe de sentirem a potência divina d’Aquele que assim se aniquila por amor, não o reconheceram; e a gruta que escolheu para repousar depois do seu nascimento não foi visitada senão por dois animais brutos. Compreendeis, cristãos, quão amargas são as queixas do vosso Deus? Quanto sofre, com a vossa indiferença, o seu amor menosprezado?
Põe por testemunhas o céu e a terra, lança o anátema contra a nação perversa, contra os filhos ingratos. Reconheçamos sinceramente que, até agora, não soubemos apreciar em todo o seu valor a visita do Senhor; que imitamos demais a insensibilidade dos judeus, os quais não se comoveram quando Ele apareceu no meio de suas trevas. Em vão cantaram os Anjos à meia-noite, e o adoraram e reconheceram os pastores; em vão vieram os Magos do Oriente, perguntando onde estava o seu berço. É verdade que Jerusalém se turbou durante um momento com a notícia de um Rei nascido; mas voltou a cair na inconsciência e não se preocupou mais com a grande notícia.
É assim que nos visitais, ó Salvador, nas trevas, e as trevas não vos compreendem. Fazei que as trevas compreendam a luz e a desejem. Um dia virá em que havereis de rasgar essas trevas insensíveis e voluntárias com o raio deslumbrante da vossa justiça. Glória a Vós nesse dia, ó soberano Juiz!, mas livrai-nos da vossa ira nos dias desta vida mortal. — Onde ainda vos ferirei?, dizeis. Meu povo já não é senão uma chaga. — Sede, pois, Salvador, ó Jesus, nesta vinda que esperamos. A cabeça está muito enferma e o coração desfalecido: vinde levantar estas frontes que a humilhação e, às vezes, vis apegos inclinam para a terra. Vinde consolar e aliviar estes corações tímidos e abatidos. E se nossas feridas são graves e antigas, vinde, Vós que sois o bom Samaritano, e derramai sobre elas o bálsamo que afugenta a dor e traz a saúde. O mundo inteiro vos aguarda, ó Redentor! Revelai-vos a ele, salvando-o. A Igreja, vossa Esposa, começa agora um novo ano; seu primeiro clamor é um grito de angústia dirigido a Vós; sua primeira palavra é esta: Vinde! Nossas almas, ó Jesus, não querem continuar caminhando sem Vós pelo deserto desta vida. Estamos no entardecer: o dia vai declinando e as sombras se aproximam: levantai-vos, ó Sol divino!, vinde guiar nossos passos e salvar-nos da morte.
MISSA
Ao aproximar-se o Sacerdote do altar para celebrar o santo sacrifício, a Igreja entoa um cântico que revela bem sua confiança de Esposa; repitamo-lo com ela, do mais íntimo do nosso coração: porque, sem dúvida, o Salvador virá a nós na medida em que o tivermos desejado e esperado fielmente.
INTROITO4 – A Vós elevo a minha alma: em Vós confio, meu Deus: não seja eu confundido, nem zombem de mim os meus inimigos: porque todos os que esperam em Vós não serão confundidos.
Salmo. Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos: e ensinai-me as vossas veredas. Glória ao Pai… Repete-se: A Vós elevo…
Depois do Kyrie eleison, o Sacerdote recolhe os votos de toda a Igreja nas orações chamadas, por esta razão, Coletas.
COLETA – Oremos. Despertai, Senhor, o vosso poder e vinde, nós vos suplicamos: para que, com a vossa proteção, mereçamos ver-nos livres dos iminentes perigos dos nossos pecados e, com a vossa graça, possamos salvar-nos. Vós que viveis e reinais com Deus Pai, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos.
Irmãos: Sabei que já é hora de despertarmos do sono, pois a nossa salvação está agora mais próxima do que quando começamos a crer. Passou a noite, chegou o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e empunhemos as armas da luz. Andemos honestamente, como de dia: não em glutonarias e embriaguezes, não em impurezas e desonestidades, não em contendas e invejas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. A veste que há de cobrir a nossa nudez é, pois, o Salvador que esperamos. Admiremos aqui a bondade do nosso Deus, que, lembrando-se de que o homem, depois do pecado, se havia escondido por sentir-se nu, quer Ele mesmo servir-lhe de véu, cobrindo tão grande miséria com o manto da sua divindade. Estejamos, pois, atentos ao dia e à hora da sua vinda, e cuidemos de não nos deixarmos invadir pelo sono do costume e da preguiça. A luz há de brilhar muito em breve; iluminem, pois, seus primeiros raios a nossa justiça, ou ao menos o nosso arrependimento. Já que o Salvador vem cobrir os nossos pecados para que não apareçam de novo, destruamos nós, ao menos, em nossos corações toda sorte de afeto a esses pecados; e que não se diga que recusamos a salvação. As últimas palavras desta Epístola são as que, ao abrir o livro, encontrou Santo Agostinho, quando, instado havia muito tempo pela graça divina a entregar-se a Deus, quis finalmente obedecer à voz que lhe dizia: Tolle et lege; toma e lê. Foram elas que decidiram a sua conversão; então resolveu de repente romper com a vida dos sentidos e revestir-se de Jesus Cristo. Imitemos o seu exemplo neste dia; suspiremos com veemência por esta gloriosa e amada túnica que, pela misericórdia de Deus, será dentro em pouco colocada sobre os nossos ombros, e repitamos com a Igreja essas comovedoras palavras, com as quais não devemos temer cansar os ouvidos do nosso Deus:
GRADUAL – Senhor, todos os que esperam em Vós não serão confundidos. Fazei-me conhecer, Senhor, os vossos caminhos e ensinai-me as vossas veredas.
Aleluia, aleluia. – Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia e dai-nos a vossa salvação. Aleluia.
EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, e na terra angústia das nações pela confusão do bramido do mar e das ondas, mirrando-se os homens de medo e de expectativa pelo que sobrevirá a todo o orbe, pois as virtudes dos céus serão abaladas. E então verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande poder e majestade. Quando começarem a realizar-se estas coisas, olhai e levantai as vossas cabeças, porque se aproxima a vossa redenção. E disse-lhes esta parábola: Vede a figueira e todas as árvores: quando já produzem de si fruto, sabeis que está próximo o verão. Assim também, quando virdes que se realizam estas coisas, sabei que está próximo o reino de Deus. Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo isto aconteça. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Devemos, portanto, ó bom Jesus, esperar a repentina aparição do vosso terrível Advento. Em breve vireis em vossa misericórdia cobrir a nossa nudez com uma veste de glória e imortalidade; mas um dia chegará em que voltareis com majestade tão deslumbrante, que os homens ficarão mirrados de espanto. Ó Cristo, não queirais perder-me nesse dia de incêndio universal. Visitai-me antes amorosamente: quero preparar-vos a minha alma. Quero que nela nasçais, para que, no dia em que as convulsões da natureza anunciarem a vossa próxima chegada, eu possa levantar a cabeça, como os vossos fiéis discípulos, que, levando-vos já em seus corações, não temerão as vossas iras.
Durante a oferenda do Pão e do Vinho, a Igreja tem os olhos fixos n’Aquele que há de vir, e entoa com perseverança o mesmo cântico:
OFERTÓRIO – A Vós elevo a minha alma, em Vós confio, meu Deus: não serei confundido, nem zombarão de mim os meus inimigos; porque todos os que esperam em Vós não serão confundidos.
Depois do Ofertório, recolhe em silêncio os votos de todos os seus membros na seguinte Oração:
SECRETA – Purificados pela poderosa virtude destes Sacramentos, fazei, Senhor, que cheguemos mais puros ao seu princípio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Depois da Comunhão do Sacerdote e do povo, o Coro canta estas belas palavras de Davi para celebrar a doçura do Fruto divino que a nossa terra vai produzir e que, antecipadamente, acaba de se dar aos seus. Esta nossa Terra não é outra senão a Virgem Maria, fecundada pelo celeste orvalho, e que se entreabre, como nos diz Isaías, para nos dar o Salvador.
COMUNHÃO – O Senhor mostrará a sua benignidade e a terra dará o seu fruto.
A seguir, a Oração final e de ação de graças.
PÓS-COMUNHÃO – Recebamos, Senhor, a vossa misericórdia no meio do vosso templo; para que nos preparemos com as devidas honras para as futuras festas da nossa redenção. Por Nosso Senhor.
1. As Estações da Via Sacra, designadas no Missal Romano para certos dias do ano, referiam-se antigamente às igrejas às quais o Papa, acompanhado pelo clero e por todo o povo, ia em procissão para celebrar a Missa solene. Este costume remonta talvez ao século IV: ainda hoje persiste em certa medida, com algumas Estações sendo observadas, embora com menos pompa e afluência, nos dias designados no Missal.
2. Israel é menos inteligente que os animais irracionais. Eles conhecem seu mestre; Israel não reconhece seu Deus e Benfeitor. Este versículo é frequentemente usado para ilustrar a cegueira dos judeus que rejeitaram o Messias. Além disso, contribuiu para a criação da antiga tradição do nascimento de Jesus entre dois animais: o jumento e o boi. (Ver Tobac, Os Profetas de Israel, II, 16.)
3. O Profeta descreve o estado de Judá sob punição: Ele é como um homem ferido, coberto de chagas. A Igreja aplica este versículo ao Messias, “esmagado por causa dos nossos pecados”. (Tobac, Id. 17.)
4. Com autorização prévia dos autores, utilizamos aqui a versão elaborada pelos assessores de imprensa Justo Pérez de Urbel e Enrique Diez em seu trabalho para a Msal-Devolutionary.


