Introdução Geral
INTRODUÇÃO GERAL
O MAIOR BEM
A oração é, para o homem, o maior de seus bens. É sua luz1, seu alimento, sua própria vida, pois ela o põe em comunicação com Deus, que é luz, alimento2 e vida3. Ora, nós, de nossa parte, somos incapazes de orar como convé4; é necessário que nos dirijamos a Jesus Cristo para dizer-lhe, como os Apóstolos: Senhor, ensinai-nos a orar5. Só Ele é capaz de desatar a língua dos mudos e de tornar eloquentes os lábios das crianças, operando este prodígio por meio de seu Espírito de graça e de oração6, que se compraz em ajudar a nossa fraqueza, suplicando dentro de nós com gemidos inenarráveis7.
O ESPÍRITO SANTO, ESPÍRITO DE DEUS
A Santa Igreja é, na terra, a morada do Espírito Santo. Como um sopro impetuoso, Ele desceu sobre ela, aparecendo sob o expressivo símbolo de línguas flamejantes. Desde então, convive com esta feliz Esposa; é o princípio de todos os seus movimentos; impõe-lhe suas preces, seus desejos, seus cânticos de louvor, seu entusiasmo e seus anelos. Daí que ela não se tenha calado nem de dia nem de noite, há dezoito séculos; sua voz é sempre melodiosa, sua palavra se dirige sempre ao coração do Esposo.
Às vezes, sob a moção deste Espírito, que animou o Salmista e os Profetas, toma o tema de seus cânticos dos livros do antigo povo escolhido; às vezes, como filha e irmã dos santos Apóstolos, entoa cânticos inspirados nos livros da Nova Aliança; outras vezes, finalmente, recordando-se de que também Ela possui a trombeta e a harpa, deixa a voz ao Espírito que a anima e canta, por sua vez, um cântico novo8. Desta tríplice fonte nasce esse órgão sagrado que se chama Liturgia.
A ORAÇÃO DA IGREJA
A oração da Igreja é, portanto, a mais agradável ao ouvido e ao coração de Deus e, por isso mesmo, a mais eficaz. Feliz, pois, quem ora com a Igreja, quem associa seus desejos particulares aos desta Esposa, tão querida pelo Esposo e sempre atendida. Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a dizer Pai nosso, e não Pai meu; dai-nos, perdoai-nos, livrai-nos, e não dai-me, perdoai-me, livrai-me.
Vemos também que a Igreja não orou sozinha ao orar em seus templos durante mais de mil anos, sete vezes ao dia e outras tantas durante a noite. Os povos a acompanhavam e se alimentavam das delícias do maná oculto nas palavras e nos mistérios da sagrada Liturgia. Assim iniciados no ciclo santo dos mistérios do Ano cristão, os fiéis, atentos ao Espírito, conheciam os segredos da vida eterna; e, desse modo, acontecia que, sem outra preparação, qualquer fiel era com frequência escolhido pelos Pontífices para ser Sacerdote ou Bispo e derramar sobre o povo cristão os tesouros de doutrina e de amor que havia adquirido naquela fonte da Liturgia.
Portanto, se a oração feita em união com a Igreja é luz para a inteligência, para o coração é igualmente uma fogueira de amor divino. A alma cristã não se retira à solidão para conversar com Deus e exaltar suas grandezas e misericórdias, pois sabe muito bem que a união com a Esposa de Cristo não a dissipa. Pois não é ela também parte da Igreja, que é a Esposa? E não disse Jesus Cristo: Pai meu, que sejam uma só coisa, como nós somos um?9 E não nos assegura o mesmo Salvador que, quando vários se acham reunidos em seu nome, Ele está no meio deles?10
A alma poderá, pois, conversar facilmente com seu Deus, que diz estar tão próximo; poderá salmodiar como Davi, na presença dos Anjos, pois a oração eterna destes une-se, no tempo, à oração da Igreja.
Já passaram muitos séculos desde que os povos, absorvidos pelos interesses terrenos, deixaram de celebrar as santas Vigílias do Senhor e as místicas Horas do dia. Quando o racionalismo do século XVI as dizimou em benefício do erro, já fazia muito tempo que os fiéis só se uniam exteriormente à oração da Igreja aos domingos e dias festivos. No restante do ano, as pompas litúrgicas se vinham realizando sem a participação do povo, que, de geração em geração, ia lamentavelmente esquecendo aquilo que fora o sustento nutritivo de seus pais.
A oração privada substituía a oração social; o canto, que é a expressão natural dos anelos e até das queixas da Esposa, ficava reservado para os dias mais solenes. Eis aí a primeira e fatal revolução dos costumes cristãos.
Mas, ao menos, o solo da Cristandade ainda estava coberto de igrejas e mosteiros, nos quais, de dia e de noite, ressoavam, como nos tempos antigos, os acentos da oração. Tantas mãos elevadas ao céu faziam descer o orvalho celeste, afastavam as tempestades, asseguravam a vitória. Os servos e servas do Senhor, que se alternavam no louvor eterno, eram solenemente delegados pelas sociedades de então, ainda católicas, para apresentar de maneira íntegra a Deus, à gloriosa Virgem Maria e aos Santos, o tributo de sua homenagem e agradecimento.
Esses votos e orações constituíam o bem de todos; os fiéis se uniam a eles com gosto; e, quando alguma dor ou esperança os levava ao templo, comprazia-lhes ouvir, a qualquer hora, aquela voz incansável, que sem cessar subia ao céu em favor da Cristandade. Mais ainda: o cristão fervoroso unia-se a essa voz, deixando de lado seus afazeres e negócios, pois todos possuíam o sentido dos mistérios litúrgicos.
CONSEQUÊNCIAS DA REFORMA
Chegou a Reforma, e a primeira coisa que fez foi ferir o órgão vital das sociedades cristãs: fez cessar o sacrifício de louvor. Cobriu a Cristandade com a ruína de nossas igrejas; os clérigos, virgens e monges foram expulsos ou martirizados, e os templos que conseguiram salvar-se foram condenados ao mutismo em grande parte da Europa.
No restante, e sobretudo na França, a voz da oração tornou-se mais fraca, porque muitos dos santuários devastados já não se levantaram de suas ruínas. Dessa sorte, a fé diminuiu, o racionalismo tomou proporções alarmantes, de modo que, em nossos dias, a sociedade humana parece vacilar sobre suas bases.
Não foram os últimos os violentos estragos levados a cabo pelos calvinistas. A França e outros países católicos viram-se invadidos pelo espírito do orgulho, que é inimigo da oração, porque, segundo ele, a oração não é ação; como se toda obra boa do homem não fosse um dom de Deus, dom que supõe uma petição prévia e uma ação de graças consequente.
Houve, pois, homens que disseram: Façamos cessar as festas de Deus sobre a terra11; e então caiu sobre nós aquela desgraça universal que o piedoso Mardoqueu suplicava ao Senhor afastasse de seu povo, quando dizia: Senhor, não fecheis as bocas daqueles que vos louvam12.
RESTAURAÇÃO
Mas, graças a Deus, não fomos completamente consumidos13; os restos de Israel foram salvos14, e eis que o número dos crentes aumentou no Senhor15. E que aconteceu no coração do Senhor nosso Deus para que se operasse este retorno misericordioso? Simplesmente isto: a oração foi retomada.
Numerosos coros de virgens sagradas, aos quais se une, embora em número ainda inferior, o canto mais varonil dos filhos do claustro, fazem-se ouvir em nossa terra, como a voz da rola16. Esta voz torna-se mais potente a cada dia: queira o Senhor aceitá-la, e que o arco-íris apareça enfim sobre as nuvens.
Oxalá os acentos desta oração solene encontrem seu eco em nossas catedrais, que tantas vezes os repetiram através dos séculos! Oxalá a fé e a generosidade dos fiéis façam reviver os prodígios daqueles séculos passados, que foram tão gloriosos porque suas instituições públicas rendiam homenagem reverente à onipotência da oração!
NA ESCOLA DA IGREJA
Mas esta oração litúrgica logo se tornaria infrutuosa se os fiéis não se unissem a ela ao menos de coração, quando não podem participar externamente. Certamente, ela não pode contribuir para a salvação dos povos senão na medida em que é compreendida.
Abri, pois, vossos corações, filhos da Igreja católica, e vinde orar com a oração de vossa mãe. Vinde completar, com vosso assentimento, essa harmonia que encanta o ouvido divino. Volte o espírito de oração a reviver em sua fonte primitiva. Recordar-vos-emos a exortação do Apóstolo aos primeiros fiéis: Que a paz de Cristo exulte em vossos corações; que o Verbo de Cristo habite em vós em plena sabedoria; e instruí-vos e exortai-vos mutuamente com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando a Deus em vossos corações com sua graça17.
Durante muito tempo, e para remediar uma inquietação dilacerante, buscou-se o espírito de oração, e até a própria oração, em métodos e livros que, certamente, encerram pensamentos bons, até piedosos, mas enfim pensamentos humanos. É um alimento empobrecido, porque não inicia na oração da Igreja: mais do que unir, distancia.
A esse tipo pertencem tantas coleções de fórmulas e considerações, publicadas há dois séculos sob distintos títulos, nas quais se trata de edificar os fiéis e de lhes sugerir alguns afetos mais ou menos triviais, tirados sempre do campo de ideias e sentimentos mais familiares ao autor do livro, quer se trate da assistência à santa Missa, quer da recepção dos Sacramentos ou da celebração das festas da Igreja.
Daí também a tonalidade tão diversa de todos esses escritos, que, sem dúvida e na falta de outra coisa, ajudam as pessoas já piedosas, mas são plenamente insuficientes quando se trata de infundir o gosto e o espírito de oração naqueles que ainda não os possuem.
UM PERIGO
Talvez se diga que, ao reduzir todos os livros práticos da piedade cristã a um simples comentário da Liturgia, nós nos expomos a enfraquecer e talvez a destruir, com formas demasiado positivas, o espírito de Oração e Contemplação, que é dom tão precioso do Espírito Santo na Igreja de Deus.
Em primeiro lugar, respondemos a isso que, ao proclamar a superioridade incontestável da oração litúrgica sobre a oração individual, não pretendemos dizer que se devam suprimir todos os métodos privados: tratamos apenas de colocá-los em seu lugar.
Afirmamos também que, se há vários graus na divina salmodia, de maneira que os mais ínfimos, apoiando-se na terra, são acessíveis às almas que ainda se encontram nos trabalhos da Via purgativa, à medida que a alma se eleva por esta mística escada, sente-se iluminada por um raio celeste, e, uma vez chegada ao cume, encontra a união e o repouso no soberano bem.
Porque, com efeito, de onde tiravam a luz e o ardor que possuíam, e que tão vivamente deixaram impressos em suas obras, aqueles santos doutores dos primeiros séculos, aqueles divinos Patriarcas da solidão, senão das longas horas de salmodia, durante as quais a verdade simples e multiforme passava continuamente diante dos olhos de sua alma, transfigurando-a com imensas ondas de luz e de amor?
Quem deu ao seráfico Bernardo aquela maravilhosa unção que, como um rio de mel, corre por todos os seus escritos; quem comunicou ao autor da Imitação aquela suavidade, aquele maná oculto que, depois de tanto tempo, não se torna insípido; a Ludovico Blósio, aquela doçura e delicadeza inenarráveis que comovem todo aquele que queira pôr nele seu coração; quem, senão o gosto habitual da Liturgia, em cujo ambiente sua vida deslizava, numa feliz combinação de cantos e suspiros?
Não tema, pois, a alma esposa de Cristo, solicitada por anelos de oração; não tema, dizemos, sofrer de aridez à beira dessas águas maravilhosas da Liturgia, às vezes murmurantes como o riacho, outras rugindo como a torrente, e em certas ocasiões transbordantes como o mar. Aproxime-se e beba desse regato cristalino e puro, que salta até a vida eterna18; porque essa água mana das próprias fontes do Salvador19, e o Espírito divino a fecunda com sua virtude, para que sirva de doçura e alívio ao cervo sedento20.
Tampouco se assuste a alma, absorta nos encantos da contemplação, com o esplendor e a harmonia da oração litúrgica. Não é ela também um instrumento melodioso sob a pulsação do Espírito Santo que a anima? E por que não há de perceber também a linguagem divina, como o Salmista, que é o órgão de toda verdadeira oração, aceita por Deus e pela Igreja?
Pois porventura não recorre ele à sua harpa quando quer despertar em seu coração a chama sagrada, e exclama: Meu coração está pronto, ó Senhor, meu coração está pronto; cantarei, pois, e entoarei salmos. Desperta, glória minha; desperta, harpa minha! Levantar-me-ei de madrugada; cantar-vos-ei, Senhor, diante dos povos; entoarei salmos na presença das nações, porque vossa misericórdia é maior que os céus e vossa verdade está mais alta que as nuvens?21
Outras vezes, transportado acima do mundo sensível, entra nos domínios do Senhor22 e se abandona a uma santa embriaguez. E, para acalmar o ardor que o devora, irrompe no sagrado Epitalâmio: Meu coração, diz ele, sonhou um poema sublime; ao próprio Rei quero dedicar meus cânticos23, comprazendo-se em exprimir a beleza do Esposo vencedor e a graça da Esposa.
Desta sorte, a oração litúrgica é, para o homem contemplativo, tanto princípio como resultado das visitas do Senhor.
O PÃO DE TODOS
Mas ela é, antes de tudo, divina, por ser ao mesmo tempo o leite das crianças e o pão dos fortes; semelhante ao maná milagroso do deserto, tem para cada um o sabor conforme seu próprio paladar.
Até mesmo aqueles que não se contam entre os filhos de Deus admiram, às vezes, essa sua propriedade particular, e confessam que só a Igreja católica conhece os mistérios da oração; pois, se os protestantes carecem de escritores ascéticos, é precisamente porque não têm oração litúrgica.
Não há dúvida de que, sendo o Sacramento da Eucaristia o centro da religião, a sua carência bastaria para explicar a falta absoluta de unção em todas as produções da Reforma; porque a Liturgia está de tal maneira unida à Eucaristia, da qual é gloriosa auréola, que, se as Horas canônicas cessaram, era lógico que cessassem ao suprimir-se o dogma da presença real.
A MANIFESTAÇÃO DE CRISTO
Assim, pois, Jesus Cristo é não só o meio, mas também o objeto da Liturgia; e por esta razão o Ano litúrgico, que nos propomos explicar nesta obra, não é senão a manifestação de Jesus Cristo e de seus mistérios na Igreja e na alma fiel.
É o Ciclo sagrado em que as obras divinas brilham como em seu próprio centro: os sete dias da Criação; a Páscoa e Pentecostes do antigo povo escolhido; a inefável Encarnação do Verbo, seu Sacrifício, sua Vitória; a descida do Espírito Santo; a sagrada Eucaristia; as glórias inenarráveis da Mãe de Deus, sempre Virgem; o esplendor dos Anjos; os méritos e triunfos dos Santos. Pode-se dizer, portanto, que tem seu ponto de partida na Lei dos Patriarcas, seu progresso na Lei escrita, sua consumação sempre crescente sob a Lei do Amor, até que, já de todo perfeito, se perca na eternidade, do mesmo modo que a Lei escrita cessou por si mesma no dia em que a potência invencível do Sangue do Cordeiro rasgou em duas partes o véu do templo.
Oxalá nos fosse dado poder exprimir dignamente as santas maravilhas deste místico calendário, do qual o outro não é senão símbolo e humilde moldura! Quão felizes nos sentiríamos se pudéssemos fazer compreender a imensa glória que, com a comemoração anual de todas essas maravilhas, se tributa à Santíssima Trindade, ao Salvador, a Maria, aos Espíritos bem-aventurados e aos santos!
Se a Igreja renova todos os anos sua juventude como a águia24, é porque, mediante o Ano litúrgico, recebe a visita de seu Esposo na medida de suas necessidades. Todos os anos volta a vê-lo menino no estábulo, jejuando na montanha, sacrificando-se na Cruz, ressuscitando do sepulcro, fundando sua Igreja e instituindo os Sacramentos, subindo à direita de seu Pai, enviando aos homens o Espírito Santo; e as graças destes sagrados mistérios também se renovam nela, de maneira que o jardim da Igreja, fecundado segundo suas necessidades, envia continuamente ao Esposo o delicioso aroma de seus perfumes, sob o sopro do Aquilão e do Austro25.
Todos os anos o Espírito divino toma posse de sua Amada e lhe comunica luz e amor; todos os anos tira um aumento de vida do influxo maternal que a Santíssima Virgem exerce sobre ela nos dias de suas alegrias, de suas dores e de suas glórias; finalmente, as brilhantes constelações formadas em radiante variedade pelos Espíritos dos nove coros e pelos Santos em suas diversas ordens de Apóstolos, Mártires, Confessores e Virgens, derramam anualmente sobre ela socorros poderosos e inenarráveis consolações.
Ora, aquilo que o Ano litúrgico opera na Igreja em geral, realiza-o também na alma de todo fiel atento a recolher em si o dom divino. Esta sucessão de estações místicas proporciona ao cristão os meios dessa vida sobrenatural, sem a qual toda outra vida não é senão uma morte mais ou menos disfarçada; e há almas de tal modo enamoradas desta corrente divina que circula pelo ciclo católico, que chegam até a sentir fisicamente suas mudanças, de sorte que a vida sobrenatural parece absorver a natural e o calendário dos astrônomos.
Oxalá, pois, os leitores católicos desta obra se vejam livres dessa tibieza da fé, dessa letargia do amor, que quase apagaram as marcas do Ano litúrgico, que outrora foi e sempre deve ser alegria dos povos, luz dos sábios e livro dos humildes!
OBJETO DA OBRA
Esperamos que, de tudo quanto foi dito, o leitor conclua que não é nosso propósito fazer aqui ostentação de recursos para traçar um sistema, fazer oratória, filosofia ou qualquer outra coisa bela a propósito dos mistérios do Ano eclesiástico. Uma só finalidade é a nossa, e por sua consecução rogamos humildemente a Deus: servir de intérpretes à Santa Igreja, pôr os fiéis em condição de poder segui-la em sua oração durante cada estação mística, e ainda cada dia e cada hora.
Não queira Deus que, por um só momento, nos atrevamos a equiparar nossos pensamentos passageiros àqueles que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a divina Sabedoria, inspira, por meio de seu Espírito, àquela que é sua amada Esposa. Procuraremos, com o maior cuidado, captar as intenções do Espírito Santo nas diversas fases do Ano litúrgico, movendo-nos a isso pelo estudo atento dos mais veneráveis monumentos da oração pública e pelas inspirações dos Santos Padres e dos intérpretes antigos e aprovados; de sorte que, com o auxílio desses recursos, possamos oferecer aos fiéis a medula da oração da Igreja e, se possível, unir à utilidade prática essa doce variedade que consola e recreia ao mesmo tempo.
Não descuidaremos nesta obra o culto dos Santos, porque é uma das grandes necessidades de todos os tempos, mas sobretudo dos modernos. A devoção à adorável pessoa do Salvador surgiu entre nós com novo vigor; o culto da Santíssima Virgem cresce e se propaga; se renascer também a confiança nos Santos, então desaparecerão os vestígios dessa deformação da piedade que, pelo influxo surdo do jansenismo, infeccionava a vida espiritual dos franceses. Mas, como nisso é preciso evitar excessos, poucas vezes trataremos de Santos que não constem do Calendário romano.
Apesar de tudo, não extrairemos nossas fórmulas unicamente da Liturgia romana, ainda que esta constitua a base do Ano litúrgico; em nosso tesouro de orações recolheremos também o eco das liturgias Ambrosiana, Galicana, Gótica ou Moçárabe, Grega, Armênia, Síria etc.; porque sem dúvida contribuirão para que a voz da Igreja seja percebida de modo mais pleno e harmonioso.
A Idade Média produziu nas Igrejas ocidentais, dentro do gênero litúrgico, sequências de extraordinária beleza; um de nossos primeiros cuidados consistirá em iniciar os fiéis que nos lerem na compreensão dessas puríssimas fontes de ternura e de vida.
Quanto ao sistema que haveremos de seguir em cada um dos volumes deste Ano litúrgico, dependerá do gênero especial das matérias que nele forem tratadas. Deixaremos para nossas Instituições tudo o que concerne à parte puramente científica da Liturgia, limitando-nos aqui aos detalhes necessários para iniciar os fiéis nas intenções da Santa Igreja, dentro de cada uma das estações místicas do ano.
Apresentaremos as fórmulas sagradas, explicadas e adaptadas ao uso dos fiéis por meio de uma glosa, na qual trataremos de evitar os inconvenientes de uma fria tradução, e também o peso de uma paráfrase sobrecarregada e insípida.
Como, segundo dissemos, nossa finalidade é oferecer aos fiéis a parte mais substanciosa e nutritiva da Liturgia, na escolha das peças deixamo-nos guiar por este critério, deixando de lado tudo quanto não conduz diretamente a esse fim. Sobretudo deve-se levar em conta esta observação quando se trata dos trechos tirados dos livros litúrgicos da Igreja grega. É admirável a riqueza e a piedade que encerra esta Liturgia quando saboreada apenas em extratos; mas não se torna atraente quando lida em suas próprias fontes. Abunda em repetições que produzem fastio, desvirtuando-se sua unção em repetições intermináveis. Assim, pois, nessa messe demasiado abundante, procuramos apenas respigar e colher a flor.
Referimo-nos sobretudo aos Menéias e à Antologia da Igreja grega. As peças litúrgicas das demais Igrejas orientais são geralmente compostas com mais gosto e sobriedade.
DIVISÃO DO CICLO
A primeira parte do Ano litúrgico há de conter a explicação do culto divino, desde o Advento até a Purificação. Na segunda, tratar-se-á da Liturgia desde a Purificação até a Semana Santa. A terceira terá por objeto o Tempo Pascal. A quarta conterá, em primeiro lugar, as festas da Santíssima Trindade, Corpus Christi e Sagrado Coração de Jesus, e, além disso, será dedicada ao Tempo depois de Pentecostes.
Este conjunto, cujo plano foi traçado pela própria Santa Igreja, desenvolve o drama mais sublime que se pode oferecer à contemplação dos homens. A intervenção de Deus na salvação e santificação dos homens, a conciliação da justiça com a misericórdia, as humilhações, dores e glórias do Homem-Deus, a vinda e as operações do Espírito Santo na humanidade e na alma fiel, a missão e a ação da Igreja: tudo se desenvolve aqui da maneira mais emocionante e viva; tudo chega a seu devido tempo pela sublime sucessão dos aniversários.
Transcorreram dezoito séculos desde que se realizou um fato divino; na Liturgia renova-se seu aniversário, e o sentimento daquilo que Deus operou há tantos séculos volta a renascer no povo cristão. Que inteligência humana teria podido conceber um plano semelhante?
Quão frágeis aparecem, ao lado de nossas realidades imperecíveis, esses homens temerários e superficiais que creem no fracasso do cristianismo, que se atrevem a considerá-lo uma velharia e nem sequer suspeitam até que ponto ele permanece vivo e imortal entre os cristãos por meio de seu Ano litúrgico!
Pois que outra coisa é a Liturgia senão uma contínua afirmação, uma solene adesão aos fatos que já se realizaram outrora, e cuja eficácia é indestrutível, porque desde então se renova sua memória todos os anos? Acaso não possuímos nossos escritos apostólicos, nossas Atas dos Mártires, nossos antigos decretos dos Concílios, os escritos dos Santos Padres e nossos monumentos, cuja série chega até a origem e nos proporciona o mais explícito testemunho sobre a tradição de nossas festas?
O Ano litúrgico só tem sua plena vida e desenvolvimento dentro da Igreja católica; mas as seitas separadas, seja pelo cisma, seja pela heresia, também o atestam pelos vestígios que conservam e graças aos quais ainda subsistem, embora com vida precária.
ATUALIDADE DOS MISTÉRIOS
Mas, se a Liturgia nos comove todos os anos, apresentando diante de nossos olhos a renovação altamente dramática de tudo quanto se operou em favor da redenção humana e do contato do homem com Deus, há algo ainda mais admirável: é que esta renovação anual nada tira do vigor e da espontaneidade de nossas emoções quando se trata de começar de novo o Ano litúrgico, cujas etapas acabamos de assinalar.
O Advento encontra-se sempre impregnado de certa ansiedade doce e misteriosa; o Natal sempre nos subjuga pelas incomparáveis alegrias do Nascimento do Menino Deus; com idêntica emoção penetramos na melancólica Septuagésima; na Quaresma caímos de joelhos diante da justiça divina, e nosso coração se sente então invadido por uma salutar compunção que se diria não havíamos percebido no ano anterior.
Não é verdade que a Paixão do Senhor, seguida dia por dia e hora por hora, nos parece sempre nova? Os resplendores da Ressurreição não trazem ao nosso coração uma alegria que até então nunca havíamos experimentado? A Ascensão triunfante não desdobra diante de nossa vista panoramas da economia da Redenção que nem sequer havíamos sonhado?
E quando, em Pentecostes, desce o Espírito Santo, não é certo que sentimos renovada sua presença e que, nesse dia e nesse momento, são superadas as emoções do ano anterior? Porventura a festa do Santíssimo Sacramento, que tão radiante e evocadora se nos aproxima todos os anos, encontra nossos corações insensíveis ao dom inefável que Jesus nos fez na véspera de sua Paixão? Antes, não nos sentimos como novamente possuidores deste mistério inesgotável?
Quantas vezes comemoramos as festas de Maria, revelam-se-nos aspectos inesperados de suas grandezas; e, quando nossos santos preferidos voltam a visitar-nos durante o Ano, parecem-nos mais belos, atraentes ou instrutivos: compreendemo-los melhor e sentimos mais vivamente os laços que nos unem a eles.
PODER SANTIFICADOR DOS MISTÉRIOS
Este poder vivificante do Ano litúrgico, sobre o qual finalmente queremos insistir, é um mistério do Espírito Santo, que fecunda sem cessar a obra que Ele inspirou à Santa Igreja, a fim de santificar o tempo concedido aos homens para nos tornar dignos de Deus.
Admiremos também essa sublime economia, esse tato com que vai pondo as verdades da fé ao alcance de nossa inteligência e desenvolvendo em nós a vida da graça. Todos os artigos da doutrina cristã ficam, não somente enunciados no curso do Ano litúrgico, mas também inculcados com a autoridade e a unção que Ela soube pôr em sua linguagem e em seus ritos tão expressivos.
Desta maneira, a fé dos fiéis se esclarece ano após ano, forma-se neles o sentido teológico, e a oração os conduz ao conhecimento. Os mistérios continuam sendo mistérios; mas seus lampejos se tornam tão deslumbrantes que a alma e o coração ficam extasiados, chegando a conceber tal conhecimento das alegrias que nos proporcionará a visão eterna destas divinas belezas que, mesmo através da nuvem, já nos produzem encanto semelhante.
E que fonte de progresso não será para a alma cristã ver aparecer, cada vez mais luminoso, o objeto de sua fé e a esperança da salvação, como algo imposto pelo espetáculo de tantas maravilhas que a bondade de Deus opera em favor do homem, quando o amor se inflama nele sob o sopro do Espírito divino, que fez da Liturgia algo como o centro de suas operações nas almas?
A formação de Cristo em nós não é simplesmente o resultado da comunhão com seus diversos mistérios, gozosos, dolorosos e gloriosos? Ora, estes mistérios chegam até nós, incorporam-se a nós anualmente, por meio da graça especial que sua celebração na Liturgia traz consigo, formando-se insensivelmente o homem novo sobre as ruínas do velho.
E se temos a obrigação de estimular a imitação do divino modelo por uma aproximação daqueles membros da família humana que melhor o realizaram em si, não é certo que encontramos então o ensinamento prático e o estímulo no exemplo de nossos queridos santos que esmaltam o Ano litúrgico?
Olhando para eles, chegamos a conhecer o caminho que conduz a Cristo, assim como o próprio Cristo nos mostra em si mesmo o caminho que conduz ao Pai. Mas Maria é quem resplandece sobre todos os Santos, oferecendo-se-nos a si mesma como Espelho de justiça, no qual se reflete toda a santidade de que é capaz uma criatura humana.
A POESIA SAGRADA
Finalmente, o Ano litúrgico, cujo plano acabamos de esboçar, nos iniciará na poesia mais sublime que se pode encontrar aqui embaixo. Por seu meio conseguiremos não só compreender os cânticos divinos de Davi e dos Profetas, que constituem o fundo do louvor litúrgico, mas também o Ano, ao longo de seu curso, não cessará de sugerir à Santa Igreja os cânticos mais belos, mais profundos e mais dignos de seu objeto.
De quando em quando, ouviremos as diversas raças humanas, reunidas pela fé em uma só, derramar toda a sua admiração e amor em acentos nos quais a mais perfeita harmonia de ideias e sentimentos se une à mais rica variedade no gênio e na expressão.
De nossa coleção afastamos, como é natural, certas composições modernas, imitadoras com frequência de uma literatura profana e que, por não terem recebido a bênção da Igreja, não estão destinadas a sobreviver; recolhemos, sim, as produções do gênio litúrgico de todos os tempos: na Igreja latina, desde Sedúlio e Prudêncio até Adão de São Vítor e seus imitadores; na Igreja oriental, desde Santo Efrém até os últimos hinógrafos católicos da Igreja bizantina.
Não faltará poesia nem nas orações compostas em simples prosa cadenciada, nem naquelas que apresentam um ritmo regular. Ela se encontra por toda parte, tanto na Liturgia como nas Escrituras inspiradas, pois só ela sabe estar à altura daquilo que se trata de exprimir; desta sorte, a coleção dos monumentos da oração pública é também o mais rico depósito da poesia cristã, que canta na terra os mistérios do céu e nos prepara para os cânticos da eternidade.
Permita-se-nos, para terminar esta introdução geral, recordar aos nossos leitores que, em um trabalho desta natureza, a obra do autor se acha completamente submetida ao influxo do Espírito divino, que sopra onde quer26, e não ao homem, a quem cabe, no máximo, plantar e regar27.
Por isso nos atrevemos a suplicar aos filhos da Santa Igreja que se interessam pelo retorno às antigas tradições de oração que nos ajudem com suas orações diante de Deus, para que nossa indignidade não seja obstáculo à obra que tomamos em mãos, e cujo peso sentimos tão superior às nossas forças.
Só nos resta declarar que submetemos nossa obra, tanto em seu fundo como em sua forma, ao juízo soberano e infalível da Santa Igreja Romana, a única que guarda, com os segredos da Oração, as palavras de vida eterna.
1. Jo. 8, 12
2. Id. 6, 35.
3. Ibid. 14, 6.
4. Rm. 8, 26.
5.. Lc. 11, 1.
6. Zc. 12, 10.
7. Rm. 8, 26.
8. Sl. 143.
9. Jo. 17, 11.
10. Mt. 18, 20.
11. Sl. 73, 8.
12. Et. 13,17.
13. Lm. 3, 22.
14. Is. 10, 21.
15. At. 5, 14.
16. Ct. 2, 12.
17. Cl. 3, 15, 16.
18. Jo. 4, 14.
19. Is. 12, 3.
20. Sl. 41, 2.
21. Sl. 107.
22. Sl. 70, 15.
23. Ib. 44.
24. Sl. 102, 5.
25. Ct. 4, 16.
26. Jo. 3, 8.
27. I Cor. 3, 6.


