Têmporas de Setembro
AS QUATRO TÊMPORAS DE SETEMBRO
A SANTIFICAÇÃO DAS ESTAÇÕES
Pela quarta vez no ano, a Santa Madre Igreja pede a seus filhos o tributo de penitência ordenado à santificação das estações. As notícias históricas relativas à instituição das Quatro Têmporas serão encontradas nas quartas-feiras da terceira semana do Advento e da primeira semana da Quaresma; nesses mesmos dias recordávamos as intenções com que os cristãos devem cumprir, todos os anos, esta obra do serviço que devem a Deus.
O inverno, a primavera e o verão, assinalados em seu início pela abstinência e pelo jejum, fizeram-nos sentir sucessivamente, nos meses que os compõem, as bênçãos do céu; o outono recolhe os frutos que a misericórdia divina, aplacada pelas satisfações dos homens pecadores, fez germinar no seio da terra maldita1.
A preciosa semente, confiada à terra no tempo das geadas, abriu caminho no solo ao chegarem os dias primaveris; depois de anunciada a Páscoa, deu aos campos o ornamento florido que lhes convinha para se associarem ao triunfo do Senhor; em seguida, figura exata do que então deveriam ser nossas almas sob a influência dos ardores do Espírito Santo, seu caule cresceu ao influxo de um sol ardente e se transformou em espiga dourada, que prometia ao lavrador o cêntuplo; e este a ceifou com alegria. Agora, já amontoados os feixes nos celeiros do pai de família, convidam o homem a elevar seu pensamento a Deus, de quem procedem todos estes bens.
Ninguém diga, como o rico do Evangelho depois de uma colheita abundante: “Alma minha, tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te!”. Pois Deus, acrescenta o Evangelho, lhe disse: “Insensato! Nesta mesma noite te pedirão a alma; e o que acumulaste, para quem será?”2.
Quanto a nós, se queremos ser verdadeiramente ricos segundo Deus e merecer sua ajuda na conservação, não menos que na produção dos frutos da terra, empreguemos no começo desta nova estação os mesmos meios de penitência que já nos foram tão úteis por três vezes. Além disso, é um mandamento formal da Igreja, que obriga sob pena de pecado grave a todo aquele que não está legitimamente dispensado da abstinência e do jejum nestes três dias.
APREÇO PELA PENITÊNCIA DA IGREJA
Já provamos antes como o cristão que deseja avançar pelos caminhos da perfeição deve impor-se voluntariamente algumas penitências às quais, falando com todo rigor, não estaria obrigado. Mas nesta matéria, como em qualquer outra, a obra privada nunca alcança o mérito nem a eficácia da ação pública, pois a Igreja reveste as obras de penitência cumpridas em seu nome, na unidade do corpo social, da mesma dignidade e do mesmo valor propiciatório que, por ser a Esposa, têm todos os seus atos.
São Leão gostava de insistir sobre esta noção fundamental do ascetismo cristão nos discursos que dirigia ao povo de Roma por ocasião do jejum do sétimo mês:
“Embora cada um possa — diz ele — castigar seu corpo com penas voluntárias e refrear, umas vezes com suavidade e outras mais duramente, seus apetites carnais, que combatem contra o espírito, contudo é necessário que em certos dias celebremos todos um jejum geral. A devoção é mais eficaz e mais santa quando, nas obras de piedade, toda a Igreja se une com um só espírito e uma só alma. Tudo o que tem natureza de coisa pública é, com efeito, preferível ao privado; por isso facilmente se compreende que se trata de um interesse maior quando se solicita o zelo de todos.
A observância particular do cristão não diminua em nada o seu fervor; cada um, implorando o auxílio da proteção divina, revista-se, ainda que em particular, da armadura celeste contra as ciladas dos espíritos malignos. Mas o soldado da Igreja, embora possa portar-se valorosamente nos combates particulares, lutará com mais segurança e maior êxito ocupando o seu posto oficial na milícia da salvação; sustente, pois, a guerra universal em companhia de seus irmãos e sob as ordens do Rei invencível”3.
Em outro ano, e nestes mesmos dias, o santo Papa e Doutor insistia com mais energia e maior extensão sobre estas considerações, que nunca serão recordadas o bastante, dada a propensão individualista da piedade moderna. Não podendo extrair senão alguns pensamentos, remetemos o leitor à coleção de seus admiráveis discursos:
“A observância ordenada do alto — diz ele — está sempre acima das práticas que alguém faz por impulso pessoal, quaisquer que elas sejam; a lei pública torna mais sagrada a ação do que o poderia fazer um regulamento particular. O exercício de mortificação que cada um faz a seu arbítrio não olha, com efeito, senão para uma parte e para um membro; pelo contrário, o jejum que toda a Igreja empreende não exclui ninguém da purificação geral. Então o povo de Deus torna-se onipotente, quando os corações de todos os fiéis se unem na unidade da santa obediência, e são por toda parte semelhantes as disposições no campo do exército cristão, e a defesa é em todas as partes a mesma.
Eis, pois, caríssimos, que hoje o jejum solene do sétimo mês nos convida a abrigar-nos sob o amparo desta unidade invencível. Elevemos a Deus os nossos corações; tiremos algo da vida presente para aumentar nossos bens eternos. O perdão total dos pecados se alcança facilmente quando toda a Igreja se reúne numa só oração e numa só profissão de fé. Se o Senhor promete conceder o que lhe é pedido por dois ou três piedosamente reunidos4, que poderá negar a todo um povo que pratica ao mesmo tempo uma mesma observância e reza unido num mesmo espírito?
Diante do Senhor é algo grande e um espetáculo maravilhoso ver todo o povo de Jesus Cristo dedicado simultaneamente às mesmas práticas, e que, sem distinção de sexos nem de condições, todas as classes trabalham com um mesmo espírito. Afastar-se do mal e praticar o bem5 parece ser o pensamento de cada um, como uma só é a ação de todos. Deus é glorificado nas obras de seus servos; abunda a esmola; cada um busca os interesses do outro, não os seus próprios. Por esta graça de Deus, que opera todas as coisas em todos6, o fruto é comum e comum o mérito: não obstante a desigualdade dos bens, a vontade de todos pode ser a mesma, e os que podem dar menos igualam-se aos mais ricos pela alegria que sentem com as liberalidades de outrem.
Num povo assim, nada se encontra desordenado; e tampouco há diferenças quando todos os membros do corpo desejam apenas dar provas de uma mesma força de amor. Então a excelência das partes reflete-se no todo e constitui a sua beleza. Abracemo-nos, pois, caríssimos, a esta ditosa fortaleza da santa unidade, e entremos neste jejum solene com a firme resolução de uma vontade em boa harmonia”7.
ORAÇÃO PELOS ORDINANDOS
Em nossas orações e em nossos jejuns destes dias, não nos esqueçamos dos novos sacerdotes e dos demais ministros da Igreja, que no sábado receberão a imposição das mãos. A ordenação de setembro não costuma ser a mais numerosa das que o Pontífice realiza ao longo do ano. A augusta cerimônia que dá ao povo cristão seus pais e guias, para conduzi-lo pelas sendas da vida, reveste-se de particular interesse nesta época do ano, pois responde melhor que qualquer outra ao estado presente do mundo, inclinado à sua ruína.
Também o ano caminha para o seu fim. O mundo, iluminado outrora pelo Homem-Deus e aquecido pelo Espírito Santo, vê em nossos dias esfriar-se a caridade8, diminuir a luz e os ardores do Sol de justiça. Cada revolução arranca da Igreja joias que, passada a tempestade, ela já não encontra; multiplicam-se as borrascas, e a tormenta chega a ser o estado normal da sociedade. Domina o erro e constitui-se em lei; a iniquidade vê-se por toda parte.
Quando vier o Filho do Homem — dizia o Senhor —, credes que encontrará fé sobre a terra?9 Levantai, pois, as vossas cabeças, filhos de Deus, porque a vossa redenção se aproxima10. Mas, até que chegue o momento em que céus e terra, renovados para o reino eterno, se abram à luz inebriante do Cordeiro vencedor11, ainda terão de passar dias piores, de modo que, se fosse possível, neles seriam seduzidos os próprios eleitos12.
Muito importa que, nesses tempos desventurados, os pastores do rebanho estejam à altura de sua vocação cheia de perigos, mais sublime que nunca. Jejuemos, pois, e rezemos. Não desfaleçamos apesar das muitas perdas sofridas nas fileiras dos cristãos, os quais outrora cumpriram com fidelidade as práticas da penitência.
Embora poucos em número, reunidos em torno da Igreja, roguemos ao Esposo que se digne multiplicar seus dons em favor daqueles que chama à honra, mais temível que nunca, do sacerdócio; que lhes infunda sua divina prudência para descobrir as emboscadas, seu zelo incansável no seguimento das almas ingratas, sua perseverança até a morte para defender, sem reticências nem compromissos, a plenitude da verdade por Ele confiada ao mundo, cuja conservação intacta deve ser, no último dia, a prova da fidelidade da Esposa.
1. Gn. 3, 17.
2. Lc. 12, 16-21.
3. S. León, Sermón IV sobre el ayuno del séptimo mes.
4. Mt. 18, 19-20.
5. Sl. 33, 15.
6. I Cor. 12, 6.
7. S. León , Sermón 1 III sobre el ayuno del séptimo mes.
8. Mt. 24, 12.
9. Lc. 18, 8.
10. Ibid. 21, 28.
11. Ap. 21.
12. Mc. 13, 22.


