XV Domingo depois de Pentecostes
XV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
MISSA
O comovente episódio da viúva de Naim dá hoje nome ao décimo quinto domingo depois de Pentecostes. O Introito nos oferece um modelo das orações que devemos dirigir ao Senhor em todas as nossas necessidades. O Homem-Deus prometeu, no domingo anterior, socorrer-nos em todas elas, com a condição de que O sirvamos fielmente, buscando antes de tudo o seu Reino. Ao dirigir-Lhe nossas súplicas, mostremo-nos confiantes em sua palavra, como é justo que o sejamos, e assim Ele ouvirá nossos rogos.
INTROITO – Inclinai, Senhor, o vosso ouvido para mim, e ouvi-me: salvai, ó meu Deus, o vosso servo, que espera em Vós; tende piedade de mim, Senhor, pois clamo a Vós todo o dia.
— Salmo: Alegrai a alma de vosso servo, pois a Vós, Senhor, elevo a minha alma.
V. Glória ao Pai.
A humildade da Igreja nas súplicas que dirige ao Senhor é um exemplo para nós. Se a Esposa procede assim com Deus, que disposições de humilhação devem ser as nossas ao comparecermos diante da soberana Majestade? Com razão podemos dizer a esta terna Mãe, como os discípulos ao Salvador: Ensinai-nos a orar! Na Coleta, unamo-nos a ela.
COLETA – Fazei, Senhor, que a vossa contínua misericórdia purifique e proteja a vossa Igreja; e, já que sem Vós ela não pode conservar-se salva, seja sempre governada por vossa graça. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Gálatas.
Irmãos: Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também pelo Espírito. Não cobicemos a glória vã, provocando-nos mutuamente, invejando-nos uns aos outros. Irmãos, se alguém cair em alguma falta, vós, que sois espirituais, instruí esse tal com espírito de mansidão, considerando-te a ti mesmo, para que também tu não sejas tentado. Levai uns os fardos dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Examine, pois, cada qual as suas obras, e assim terá glória somente em si mesmo, e não em outro. Porque cada qual levará o seu fardo. E aquele que é catequizado na palavra comunique todos os seus bens àquele que o catequiza. Não vos enganeis: de Deus ninguém zomba. Porque aquilo que o homem semear, isso colherá. Portanto, aquele que semear em sua carne colherá da carne a corrupção; mas aquele que semear no Espírito colherá do Espírito a vida eterna. Não nos cansemos, pois, de fazer o bem, porque, se não desfalecermos, ceifaremos a seu tempo. Assim, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos irmãos na fé.
PERSEVERANÇA NA LUTA
A Santa Madre Igreja retoma a leitura de São Paulo onde a deixou há oito dias. Continua sendo objeto das instruções apostólicas a vida espiritual, a vida gerada pelo Espírito Santo em nossas almas para suceder à da carne. Embora tenhamos domado a carne, não devemos por isso crer que esteja terminado o edifício de nossa perfeição; é que a luta deve continuar depois da vitória, se não quisermos ver comprometidos os resultados. Mas, além disso, é necessária vigilância para que uma ou outra das três concupiscências não aproveite o momento para rebrotar e causar feridas, tanto mais perigosas quanto menos se pensava em preservar-se delas, enquanto a alma dirige seu esforço para outra coisa.
A vanglória, principalmente, exige do homem que quer servir a Deus um contínuo viver alerta, porque está sempre pronta a infeccionar com seu veneno sutil até mesmo os atos de humildade e de penitência.
FUGIR DA VANGLÓRIA
Que insensatez seria a de um condenado a quem a flagelação salvou da pena capital que havia merecido, se ele se gloriasse dos açoites com que se castigam os escravos e que traz impressos em sua carne! Jamais tenhamos semelhante loucura!
E, contudo, dir-se-ia que poderíamos tê-la, já que o Apóstolo, logo depois de seus avisos sobre a mortificação das paixões, nos faz a recomendação de evitar a vanglória. Com efeito, nunca estaremos totalmente seguros nesta parte enquanto a humilhação física que infligimos ao corpo não tiver em nós como princípio a humilhação consciente da alma diante de sua miséria.
Também os antigos filósofos tinham suas máximas acerca do domínio dos sentidos; e a prática dessas célebres máximas era degrau de que se valia seu orgulho para elevar-se até os céus. É que, nisso, estavam muito longe dos sentimentos de nossos pais na fé, os quais, em cilício e prostrados em terra1, clamavam no íntimo de seu coração: “Tende compaixão de mim, ó Deus, segundo a vossa grande misericórdia; porque fui concebido na iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim”2.
AS OBRAS DA CARNE
Castigar por vaidade o corpo, que outra coisa é senão aquilo que São Paulo chama hoje de “semear na carne”, para colher no futuro, isto é, no dia da manifestação dos pensamentos dos corações3, não a glória e a vida, mas a confusão e a vergonha eterna?
Entre as obras da carne enumeradas na Epístola precedente encontram-se, com efeito, não só os atos impuros, mas também as disputas, as dissensões e as invejas4; mas ordinariamente nascem desta vanglória, para a qual o Apóstolo quer que voltemos nossa atenção neste momento. A reprodução destes atos detestáveis seria um sinal bastante seguro de que a seiva da graça havia cedido lugar à fermentação do pecado em nossas almas; e, neste caso, outra vez escravos, cairíamos sob a lei e suas terríveis sanções.
De Deus ninguém zomba; a confiança que justamente dá a fidelidade superabundante do amor a todo aquele que vive do Espírito não passaria, nestas condições, de uma falsificação hipócrita da santa liberdade dos filhos do Altíssimo. Só são seus filhos aqueles que são guiados pelo Espírito Santo5 na caridade6; os demais são filhos da carne e não podem agradar a Deus7.
A CARIDADE FRATERNA
Pelo contrário, se queremos um sinal certo de que estamos unidos a Deus, sejamos indulgentes com nossos irmãos, considerando nossa própria miséria, em vez de tomar ocasião de seus defeitos e faltas para nos envaidecermos; se caem, estendamos-lhes uma mão caritativa e discreta; levemos mutuamente nossos fardos no caminho da vida, e então, tendo cumprido a lei de Cristo, saberemos8 que estamos n’Ele e Ele em nós.
Estas inefáveis palavras, que Jesus usou para indicar sua futura intimidade com todo aquele que comesse a carne do Filho do Homem e bebesse seu sangue no banquete divino9, São João, que as refere, cita-as palavra por palavra em suas Epístolas para aplicá-las aos que observam, no Espírito Santo, o mandamento do amor aos irmãos10.
Oxalá ressoe sempre em nossos ouvidos esta palavra do Apóstolo: enquanto temos tempo, façamos o bem a todos! Porque chegará o dia, e não está longe, em que o Anjo do livro misterioso fará ouvir sua voz no espaço e, com a mão levantada ao céu, jurará por Aquele que vive pelos séculos sem fim que o tempo terminou11. E então o homem colherá com alegria o que havia semeado com lágrimas12; como não se cansou de praticar o bem nas regiões obscuras do desterro, menos ainda se cansará de ceifar sem fim na clara luz do dia da eternidade.
Ao cantar o Gradual, pensemos que, se o louvor agrada ao Senhor, é com a condição de que saia de uma alma onde reine a harmonia das virtudes. A vida cristã, ajustada aos dez mandamentos, é o saltério de dez cordas13, de onde o Espírito Santo, que é o dedo de Deus, faz subir para o Esposo acordes que arrebatam seu Coração.
GRADUAL — É bom louvar o Senhor e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo.
V. Para proclamar pela manhã a vossa misericórdia e, à noite, a vossa verdade.
Aleluia, aleluia.
V. Porque o Senhor é um Deus grande, é o Rei de toda a terra. Aleluia.
EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Lucas.
Naquele tempo, ia Jesus a uma cidade chamada Naim; e iam com Ele seus discípulos e muita multidão. E, ao aproximar-Se da porta da cidade, eis que levavam para fora um defunto, filho único de sua mãe; e esta era viúva; e vinha com ela muita gente da cidade. Quando o Senhor a viu, movido de compaixão por ela, disse-lhe: Não chores. E aproximou-Se, e tocou o esquife. E pararam os que o levavam. E disse: Jovem, Eu te ordeno: levanta-te. E incorporou-se o que estava morto, e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. E apoderou-se de todos o temor; e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande Profeta surgiu entre nós, e Deus visitou o seu povo.
A MORTE ESPIRITUAL
Comentando este Evangelho, diz-nos Santo Agostinho na homilia que se lê nesta mesma noite em Matinas:
“Se a ressurreição deste jovem enche de alegria a viúva, sua mãe, nossa Mãe, a Santa Igreja, também se regozija todos os dias ao ver os homens ressuscitarem espiritualmente. O filho da viúva havia morrido de morte corporal; estes haviam morrido na alma. Visivelmente, porém, chorava-se a morte visível do primeiro, ao passo que nem sequer se advertia a morte invisível destes últimos.
Nosso Senhor Jesus Cristo queria que os milagres que operava nos corpos fossem interpretados em sentido espiritual. Não fazia milagres apenas por fazê-los, mas desejava que, ao despertarem a admiração dos que os viam, ao mesmo tempo estivessem cheios de verdade para os que compreendiam seu sentido. Aqueles que foram testemunhas oculares dos milagres de Jesus Cristo, sem compreender o seu significado, sem penetrar aquilo que eles dizem às almas iluminadas, admiraram somente o fato material do milagre; mas outros admiraram ao mesmo tempo os fatos e compreenderam seu significado. Destes devemos ser nós na escola de Jesus Cristo…
Escutemo-Lo, pois, e seja este o fruto: nos que vivem, conservar solicitamente a vida; e nos que estão mortos, recuperá-la o mais depressa possível”14.
O BOM ZELO
Cristãos preservados da defecção pela misericórdia do Senhor, cabe-nos tomar parte nas angústias da Igreja e ajudar em tudo as diligências de seu zelo para salvar nossos irmãos. Não basta não sermos dos filhos insensatos que são a dor de sua mãe15 e desonram o seio que os levou16. Ainda que não soubéssemos pelo Espírito Santo que honrar sua mãe é entesourar17, a simples lembrança do que custou o nosso nascimento18 nos levaria a não perder ocasião de enxugar suas lágrimas.
A Igreja é a Esposa do Verbo, a cujas núpcias aspiram também nossas almas; se é verdade que essa união é igualmente a nossa, devemos prová-lo, como a Igreja, manifestando em nossas obras o único pensamento, o único amor que o Esposo comunica em suas intimidades, porque não tem outro em seu Coração: o pensamento de restaurar no mundo a glória de seu Pai, o amor de salvar os pecadores.
No Ofertório, cantamos com a Igreja suas esperanças cumpridas; não fique jamais muda a nossa boca diante dos benefícios do Senhor.
OFERTÓRIO – Esperei com paciência pelo Senhor, e Ele olhou para mim; ouviu a minha súplica; e pôs em minha boca um cântico novo, um hino ao nosso Deus.
Na Secreta, colocamo-nos sob o amparo onipotente dos divinos Mistérios.
SECRETA – Guardem-nos, Senhor, os vossos Mistérios; e defendam-nos sempre contra as incursões diabólicas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em Jesus tudo é vida e fonte de vida. Sua palavra fez voltar da morte o filho da viúva de Naim; sua carne é a vida do mundo no pão consagrado, como canta a Antífona da Comunhão.
COMUNHÃO – O pão que Eu darei é a minha carne para a vida do mundo.
Não será perfeita em nós a união divina enquanto o mistério de amor não dominar de tal modo nossas almas e nossos corpos que sejam plena posse sua e já não encontrem sua direção senão n’Ele, e não na natureza. Isto explica e pede a Pós-comunhão.
PÓS-COMUNHÃO – Suplicamo-Vos, Senhor, façais que a virtude deste dom celestial possua nossas almas e nossos corpos, para que não domine em nós o nosso sentido, mas sempre nos previna o seu efeito. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.
1. Par. 21, 16, etc.
2. Sl. 50, 3, 5-7.
3. I Cor. 4, 5.
4Gl. 5, 19-21.
5. Rm. 8, 14.
6. Gl. 4, 13.
7. Rm. 8, 8.
8. I Jo. 4, 13.
9. Jo. 6, 57.
10. I Jo. 3, 23-24; 4, 12-13.
11. Ap. 10, 1-6.
12. Sl. 125, 5.
13. Sl. 143, 9.
14. S. Agostinho Sermão 98.
15. Prov. 17, 25.
16. Ibid. 30, 17.
17. Ecl. 3, 5.
18. Tb. 4, 4.

