Quinta-Feira dentro da Oitava de Corpus Christi
QUINTA-FEIRA OITAVA DE CORPUS CHRISTI
O MISTÉRIO DA PRESENÇA REAL
Glória ao Cordeiro cuja imolação triunfante plasmou esta presença maravilhosa no Santíssimo Sacramento! A Ele a virtude, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra e a bênção pelos séculos!1 Por Ele desceu até nós a Sabedoria eterna, e por Ele ela habita conosco2. Ao seu suave resplendor, ao encerrarmos hoje esta Oitava, contemplemos com o maior respeito a natureza da inefável permanência que nos conserva, deste modo, em sua integridade, o Mistério da fé até o fim do mundo.
SEQUÊNCIA DA MISSA
Do sul ao setentrião, do levante ao poente, em todas as partes, neste dia, os filhos da Igreja repetem em seus cânticos estas palavras, que não são outra coisa senão o eco rimado da voz do Apóstolo:
“A carne de Cristo é comida, e seu sangue é bebida; não obstante isso, Ele permanece inteiro em cada uma das espécies. Sem quebrá-lo, rompê-lo ou dividi-lo, recebe-o inteiro aquele que o recebe. Se o recebe um só ou se o recebem mil, o mesmo recebem estes e aquele; Ele se dá sem se consumir. Quando se divide a forma misteriosa, não duvides nem por um momento, mas tem presente que Ele permanece tão inteiro no fragmento como na forma completa. A substância não se divide de modo algum; somente se parte o sinal; mas nem por isso diminui o estado nem a extensão daquilo que esse sinal encobre”.
Com efeito, a Igreja nos ensina “que em cada uma das espécies e em cada uma de suas partes se acha contido verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo inteiro”3.
É verdade que as palavras do Sacrifício, por si mesmas, não operando senão aquilo que significam, produzem única e exclusivamente sob a dupla espécie o Corpo e o Sangue do Senhor; mas Cristo, ressuscitado e imortal, permanece indivisível.
“Cristo, saído do sepulcro, já não morre — diz o Apóstolo —; morrendo pelo pecado, morreu uma vez por todas; vivendo agora, vive para Deus”4. Em toda parte, pois, onde se acha, em virtude da Consagração, o santíssimo Corpo ou o Sangue redentor, ali mesmo, por via de consequência natural e de necessária concomitância, reside em sua totalidade a sagrada humanidade, unida ao Verbo.
A TRANSUBSTANCIAÇÃO
Temerosa de não poder manifestar de outro modo um mistério tão profundo com suficiente precisão e exatidão, a Liturgia vale-se hoje da terminologia da Escolástica. Ela mesma nos ensina que a conversão do pão em Corpo e do vinho em Sangue se faz de substância em substância, sem que, nesta mudança maravilhosa, chamada por isso transubstanciação5, sejam afetados, alterados ou destruídos os acidentes ou modos dos dois termos da conversão.
Assim, privados de seu sujeito ou sustentáculo natural, as espécies ou aparências de pão e vinho são sustentadas imediatamente pela virtude divina; produzindo e recebendo as mesmas impressões que teria recebido e produzido sua própria substância, são o sinal sacramental que, sem informar o Corpo de Cristo nem lhe emprestar suas qualidades e dimensões, determina e mantém sua presença enquanto estas espécies não são essencialmente modificadas.
Por sua vez, o Corpo de Cristo, tendo substituído diretamente, com sua própria substância, a única substância do pão e do vinho, encontra-se, pela fórmula sagrada, fora das leis misteriosas da extensão, cujos segredos a ciência humana ainda não pôde penetrar. Inteiro em toda a espécie, e inteiro também em cada parte sensível, assemelha-se nisso às substâncias espirituais: deste modo também a alma humana se encontra do mesmo modo em todo o corpo e inteira também em todos os membros.
Tal é, enfim, o mistério do estado sacramental: presente a nós nas dimensões da Hóstia e não além delas, por sua substância, assim subtraída às leis da extensão, Cristo permanece em si mesmo tal como se acha no céu.
“O Corpo de Cristo no Sacramento — diz Santo Tomás — conserva todos os seus acidentes por consequência necessária; e suas partes permanecem ordenadas entre si do mesmo modo que o são na natureza das coisas, embora elas não estejam em relação nem se possam comparar, segundo esta ordem, com o espaço externo”6.
JESUS PRESENTE NA HÓSTIA
A noção de Sacrifício exigia na Eucaristia esta aparência passiva da vítima, assim como a condição do banquete em que se consuma determinava a natureza especial dos elementos sacramentais escolhidos por Cristo Jesus.
Mas longe de nós, diante da sagrada Hóstia, toda ideia de penoso cativeiro, de sofrimento atual, de virtude laboriosa para o Hóspede divino das espécies sagradas. Apesar desta morte exterior, ali palpitam a vida, o amor e a beleza triunfal do Cordeiro, vencedor da morte, Rei imortal dos séculos.
Permanece na Hóstia imaculada, com toda a sua virtude e esplendor, o mais belo dos filhos dos homens,¹ com a admirável proporção e a disposição harmoniosa de seus membros divinos, formados de uma carne virginal no seio de Maria Imaculada.
Sangue divino, preço de nosso resgate, entrado para sempre nessas veias que te derramaram pelo mundo! Como outrora, levas a vida nesses membros gloriosos sob o impulso do Coração sagrado, a quem amanhã prestaremos especial homenagem.
Alma santíssima do Salvador, presente no Sacramento como forma substancial7 deste corpo perfeitíssimo, que é por ti o verdadeiro Corpo do Homem-Deus imortal! Em tuas profundezas encerras todos os tesouros da Sabedoria eterna8.
Recebestes como especial missão plasmar numa vida humana, numa linguagem múltipla e sensível, a inefável beleza da Sabedoria do Pai, enamorada dos filhos dos homens, e quisestes conquistar seu amor mediante uma manifestação posta ao seu alcance.
Cada uma das palavras e dos passos dados por Jesus, cada um dos mistérios de sua vida pública ou privada, revela-nos gradualmente este divino esplendor. Verdadeiramente, diante desses homens que ela amava, a Sabedoria e a graça cresciam n’Ele juntamente com a idade9, até que, por fim, todos estes ensinamentos, exemplos e mistérios, maravilhosas manifestações de seus íntimos encantos, essa mesma Sabedoria os deixou fixados para o futuro no Sacramento divino, monumento perene, luz das almas, memorial vivo, de onde o amor vela silenciosamente por nós.
“A carne, o sangue de Cristo, é o Verbo manifestado — diz São Basílio —; é a Sabedoria feita sensível pela Encarnação, e todo esse modo misterioso de vida na carne que nos revela a perfeição moral, a beleza natural e divina. Ali se encontra o alimento da alma e, portanto, desde agora a prepara para a contemplação das divinas realidades”.10
PROCISSÃO DA OITAVA
A Oitava durante a qual o Sacramento divino recebeu as homenagens solícitas de nossa adoração termina como começou: pela procissão triunfal.
Depois das Vésperas, o diácono desce a custódia do pequeno trono em que ele mesmo a colocou e a deposita nas mãos do sacerdote. A sagrada Hóstia atravessa de novo os umbrais do templo, rodeada pela majestade dos mesmos ritos, aclamada pelos mesmos cânticos de alegria, acolhida pelas demonstrações entusiastas do povo fiel.
Novamente vê a natureza prostrada a seus pés, embalsama o ambiente à sua passagem, afasta os poderes inimigos11, abençoa o campo e o povo, e espalha entre as searas, que já ondulam maduras, seus fecundos raios.
De novo em seu templo, já não voltará a sair senão para fortalecer os moribundos em sua viagem à eternidade, ou para dar-se misericordiosamente aos enfermos que não podem chegar-se a seu Deus por suas próprias forças. Neste momento, abençoa pela última vez o povo prostrado a seus pés e entra no tabernáculo.
Abismados em profunda adoração, testemunhemos nossos sentimentos a Deus, oculto sob os véus sacramentais, repetindo o hino celestial, fiel mostra da ciência do Doutor Angélico, sobrepujada pelo humilde e fervoroso amor que transborda de cada uma de suas estrofes.
Uma vez fechada a porta do tabernáculo atrás do Deus da Hóstia, nossos corações não abandonarão o augusto Mistério. Melhor compreendido pelas graças e luzes que desceram sobre nós durante esta Oitava, será mais amado por nossas almas divinizadas, conquistadas por Ele com os sublimes atrativos da Sabedoria eterna.
HINO
Adoro-vos devotamente, ó Divindade oculta,
que jazeis escondida sob estes acidentes;
a vós se entrega todo o meu coração,
porque, ao contemplar-vos, tudo desfalece.
Em vós se enganam a vista, o tato e o gosto;
só pelo ouvido se crê com segurança:
creio em tudo quanto disse o Filho de Deus;
nada há mais verdadeiro que a palavra da Verdade.
Na Cruz estava oculta somente a Divindade;
aqui, porém, jaz escondida também a humanidade:
contudo, creio e confesso ambas as coisas,
e peço o que pediu o ladrão arrependido.
Não contemplo, como Tomé, as chagas;
contudo, confesso-vos por meu Deus:
fazei que cada vez mais creia em vós,
em vós espere e a vós ame.
Ó memorial da morte do Senhor!
Pão vivo, que ao homem dá a vida:
fazei que minha alma viva sempre de vós,
e goze de vosso doce sabor.
Piedoso Pelicano, Senhor Jesus,
a mim, imundo, purificai-me com vosso sangue,
do qual uma só gota é suficiente
para salvar o mundo de todo crime.
Ó Jesus, a quem agora contemplo velado!
Suplico-vos que se realize aquilo que tanto anseio:
que, vendo-vos face a face,
seja feliz com a visão de vossa glória.
Amém.
1. Ap. 5, 12.
2. Ibid. 21, 23.
3. Concílio de Trento. Ses, 13, c. 1-3.
4. Rm. 6, 9-10.
5. Concílio de Trento. Ses, 13, c. 3.
6. IIIª p. qu. 76, art. 4.
7. Concílio Vaticano.
8. Cl. 2, 3.
9. Lc. 2, 52.
10. São Basílio, Carta VIII.
11. Ef. 2, 2; 7, 12.


