Terça-Feira dentro da Oitava de Corpus Christi
TERÇA-FEIRA DA INFRAOITAVA DO CORPUS
A EUCARISTIA E A UNIDADE DO CORPO MÍSTICO
DOUTRINA DE DIONÍSIO, O AREOPAGITA
“Sacramento dos sacramentos1, ó Santíssimo!, levantando os véus que vos rodeiam com seus significados misteriosos, mostrai-vos de longe em vosso esplendor e enchei nossas almas de vossa direta e puríssima luz”. Assim exclama, em sua linguagem incomparável, o revelador das divinas hierarquias.
O sacerdote acaba de realizar os sagrados Mistérios; põe-nos diante dos olhos sob o véu das espécies. Este pão, até agora oculto e que não formava senão um todo, ele o descobre, divide-o em muitas partes; dá a todos do mesmo cálice: multiplica simbolicamente e distribui a Unidade, consumando assim o Sacrifício.
Porque a unidade simples e oculta do Verbo, que se desposa com a humanidade inteira, penetrou desde as profundezas de Deus até o mundo visível e múltiplo dos sentidos; e, adaptando-se ao número sem mudar de natureza, unindo nossa baixeza às suas grandezas, nossa vida à sua vida, sua substância aos nossos membros, não quer fazer de todos senão um todo com ela. Do mesmo modo, o Sacramento divino, uno, simples e indivisível em sua essência, multiplica-se amorosamente sob o sinal exterior das espécies, a fim de que, recolhendo-se em seu princípio e voltando a entrar, do múltiplo, em sua própria unidade, leve consigo para ali aqueles que vieram a Ele na santidade2.
Por isso, o nome que mais lhe convém é Eucaristia, ação de graças, já que contém o objeto de todo louvor e de todos os dons celestes chegados até nós. Maravilhoso compêndio das operações divinizantes, sustenta nossa vida e restaura a semelhança divina de nossas almas no protótipo supremo da eterna beleza; conduz-nos em excelsas ascensões por um caminho sobre-humano; por Ele se reparam as ruínas do primeiro pecado; Ele põe fim à nossa indigência; e, tomando tudo em nós, dando-se por inteiro, faz-nos participantes de Deus e de seus bens.3
DOUTRINA DE SANTO AGOSTINHO
“Ó Sacramento de amor! Ó sinal da unidade! Ó vínculo da caridade!”, prossegue, por sua vez, Santo Agostinho4. Mas esta força unitiva da Eucaristia, magnificamente elogiada pelo Areopagita na aproximação que opera entre Deus e sua criatura, o bispo de Hipona se compraz em vê-la edificando, na paz, o Corpo Místico do Senhor e dispondo-o para o eterno Sacrifício e para a comunhão universal e perfeita dos céus. Tal é a ideia-mãe que lhe inspira acentos sublimes sobre o Santíssimo Sacramento.
Eu sou o pão vivo descido do céu, havia dito o Salvador; se alguém comer deste pão, viverá eternamente, e o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo;5 porque minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue verdadeiramente bebida6. Esta comida e esta bebida que promete aos homens, explica Santo Agostinho, é sem dúvida e diretamente sua verdadeira carne e o sangue de suas veias; é a mesma Hóstia imolada na Cruz.
Por conseguinte, estabelecida em sua própria e real substância, imolada com Ele como uma só Hóstia, em um mesmo Sacrifício, “é a Igreja com todos os seus membros, predestinados, chamados, justificados, glorificados ou ainda viadores”. Somente no céu se declarará, em sua plenitude e estabilidade, o mistério eucarístico, inefável saciedade das almas, que consistirá na união permanente e perfeita de todos em todos e em Deus por Jesus Cristo.
“Com efeito — prossegue Santo Agostinho —, aquilo que os homens desejam ao comer e beber é saciar a fome e apagar a sede; este resultado, porém, não se alcança verdadeiramente senão pela comida e bebida que tornam imortais e incorruptíveis aqueles que as recebem, isto é, a sociedade dos santos, onde reinará a paz com plena e perfeita unidade”7.
Ó festim único, digno dos céus! Ó banquete esplêndido, em que cada eleito, participando do Corpo inteiro, lhe dá por sua vez crescimento e plenitude!
Esta é a Páscoa da eternidade que o Senhor anunciava quando, no fim de sua vida, querendo pôr termo à Páscoa das figuras com a realidade ainda velada do Sacramento, convidava os seus a um festim novo na pátria sem figuras nem sombras: Não comerei mais desta Páscoa até que ela se cumpra no reino de Deus8, disse aos depositários da aliança; tampouco beberei deste fruto da videira até o dia em que o beber convosco, vinho novo, no reino de meu Pai9.
Ó dia sem fim, dia de luz resplandecente, cantado por Davi, em que a Sabedoria, livre de véus, embriagada ela mesma primeiro de amor em seu divino banquete, estreitando para sempre em um só abraço a Cabeça e os membros, inebriará o homem com a torrente de seus divinos deleites e da vida que ela bebe no seio do Pai!10
Mas Cristo, nossa Cabeça, já penetrou as nuvens; inundada de delícias, apoiada em seu Amado, a Igreja sobe incessantemente do deserto11; o número de seus membros, nossos irmãos, admitidos ao festim sagrado dos céus, completa-se a cada dia.
Com razão exclama Cristo: Agora isto é osso dos meus ossos e carne da minha carne12; unem-se a Ele como a esposa ao esposo, não formando senão um só corpo. A Eucaristia produziu esta admirável adaptação, que só se revelará no dia da glória; mas é aqui embaixo que, à sombra da fé, ela transforma deste modo os predestinados em Cristo.
O CORPO DE CRISTO
Deus é amor, dissemos anteriormente; o amor exige união, e a união exige semelhantes. Ora, esta semelhança do homem com Deus, que não podia realizar-se senão pelo chamado do homem à participação da natureza divina13, é obra especial do Espírito Santo, mediante a graça; é o resultado de sua permanência pessoal14 na alma santificada, cujas potências e cuja própria substância Ele penetra intimamente.
Assim fez em Cristo, ao inundar o ser humano com sua plenitude no seio da Virgem Maria, ao mesmo tempo que a eterna Sabedoria se uniu a esta natureza inferior e criada, mas desde então santa e perfeita para sempre no Espírito santificador.
Assim faz também ao preparar a Igreja, a Cidade Santa, para o banquete das núpcias do Cordeiro. Assim os filhos e membros da Esposa, identificados com Cristo e formando um só corpo com Ele, tornam-se participantes de suas núpcias divinas com a Sabedoria eterna.
1. Dionisio, La Jerarquia ecles. c. 3, 1.
2. Dionisio. Ibid. 12, 13.
3. Dionisio: La Jerarquia Eclesiástica, 3.
4. Sobre São João, Tratado 26, 13.
5. Jo. 6, 51-52.
6. IBID. 50.
7. Sobre São João, Tratado 26, 15-17.
8. Lc. 22, 16.
9. Mt. 27, 29.
10. Sl. 35, 8-10.
11. Ct. 7, 1-5.
12. Gn. 2, 23.
13. II Pe. 1, 4.
14. I Cor. 3, 16.


