Mística do Tempo depois de Pentecostes
MÍSTICA DO TEMPO DEPOIS DE PENTECOSTES
OBJETO DESTE PERÍODO
Para compreender bem a intenção e o significado desta estação do Ano Litúrgico à qual chegamos, é necessário recordar toda a série de mistérios que a Igreja celebrou diante de nós e conosco. A celebração destes mistérios não foi um vão espetáculo representado diante de nossos olhos. Cada um trouxe consigo uma graça especial, que produzia em nossas almas aquilo que significavam os ritos da Liturgia.
No Natal, Cristo nasceu em nós; no tempo da Paixão, incorporou-nos aos seus sofrimentos e satisfações; na Páscoa, comunicou-nos sua vida gloriosa; em sua Ascensão, levou-nos consigo ao Céu; numa palavra, para nos servirmos da expressão do Apóstolo: “Cristo foi-se formando em nós”1.
Mas a vinda do Espírito Santo era necessária para aumentar a luz, para aquecer nossas almas com um fogo permanente, para consolidar e perpetuar a imagem de Cristo. O Paráclito desceu e deu-se a nós; quer residir em nossas almas e governar nossa vida regenerada. Ora, esta vida, que deve desenvolver-se conforme à de Cristo e sob a direção de seu Espírito, acha-se figurada e expressa pelo período que a Liturgia designa com o nome de Tempo depois de Pentecostes.
A IGREJA
Aqui se nos apresentam duas coisas dignas de consideração: a Santa Igreja e a alma cristã.
A Esposa de Cristo, cheia do Espírito divino que se derramou sobre ela e que sempre a anima, avança em sua carreira militante e deve caminhar até a segunda vinda de seu Esposo celestial. Possui os dons da verdade e da santidade. Armada com a infalibilidade da fé e com a autoridade do governo, apascenta o rebanho de Cristo, tanto na liberdade e na tranquilidade como em meio às perseguições e provações.
Seu Esposo divino está com ela até a consumação dos séculos, por sua graça e pela eficácia de suas promessas; ela possui todos os favores que Ele lhe concedeu, e o Espírito Santo permanecerá sempre com ela. Isto expressa esta parte do Ano Litúrgico, na qual não encontraremos os grandes acontecimentos que assinalaram a preparação e a consumação da obra divina.
Em compensação, a Igreja recolhe nela os frutos de santidade e de doutrina que estes mistérios produziram e produzirão durante sua marcha através dos séculos. Ver-se-á também como se preparam e chegam, a seu tempo, os últimos acontecimentos que transformarão sua vida militante em vida triunfante nos Céus. Tal é, no que concerne à Igreja, a significação da parte do Ciclo Litúrgico em que entramos.
A ALMA CRISTÃ
Quanto à alma fiel, cujo destino é como o resumo do destino da Igreja, seu curso, durante o período que para ela se abre depois da festa de Pentecostes, deve ser análogo ao de nossa Mãe comum. Deve viver e agir segundo Cristo, que se uniu a ela na série de seus mistérios, e segundo a ação do Espírito divino que recebeu; os episódios que assinalarem esta nova fase aumentarão nela a luz e a vida.
Reunirá num só os raios saídos de um mesmo centro e, caminhando de claridade em claridade2, aspirará à consumação Naquele que já conhece e em cuja posse a morte deverá colocá-la. Mas, se o Senhor ainda não julga oportuno chamá-la a Si, começará um novo Ciclo e tornará a passar pelos elementos que experimentou na primeira metade do Ano Litúrgico; depois disso, encontrará novamente o período que se desenvolve sob a direção do Espírito Santo; por fim, o Senhor a chamará no dia e na hora que tem assinalados desde toda a eternidade.
Entre a Igreja e a alma cristã, durante o intervalo que se estende desde a primeira festa de Pentecostes até a consumação, há esta diferença: a Igreja o percorrerá uma só vez, enquanto a alma cristã o reencontra todos os anos a seu tempo. Fora desta diferença, a analogia é completa.
Devemos, pois, louvar a Deus, que vem em socorro de nossa fraqueza, renovando sucessivamente em nós, na Liturgia, os auxílios pelos quais alcançaremos o fim ao qual fomos destinados.
O ENSINAMENTO DA ESCRITURA
A Igreja dispôs a leitura dos livros da Sagrada Escritura durante o período atual, para expressar tudo o que nele se realiza, seja na própria Igreja, seja na alma cristã.
Desde o primeiro Domingo depois de Pentecostes até o mês de agosto, ela nos instrui com a leitura dos quatro livros dos Reis. São o resumo dos anais da Igreja. Neles se vê a monarquia de Israel inaugurada por Davi, figura de Cristo vitorioso nos combates, e por Salomão, o Rei pacífico, que levanta o templo para a glória de Deus.
O mal luta contra o bem durante esta travessia dos séculos. Há grandes e santos reis, como Asa, Ezequias e Josias, e reis infiéis, como Manassés. O cisma declara-se em Samaria, e as nações infiéis reúnem suas forças contra a Cidade de Deus. O povo santo, com muita frequência surdo à voz dos profetas, entrega-se ao culto dos falsos deuses e aos vícios da gentilidade; e a justiça de Deus destrói, numa ruína comum, o povo e a cidade infiel. É imagem da destruição deste mundo, quando a fé vier a faltar de tal modo que o Filho do Homem, em sua segunda vinda, apenas encontrará dela algum vestígio3.
No mês de agosto, lemos os livros Sapienciais, assim chamados porque contêm os ensinamentos da Sabedoria divina. Esta Sabedoria é o Verbo de Deus, que se manifesta aos homens pelo ensinamento da Igreja, tornada infalível na verdade graças à assistência do Espírito Santo, que nela habita de modo permanente.
A verdade sobrenatural produz a santidade, que não poderia subsistir nem frutificar sem ela. A fim de expressar este vínculo que existe entre uma e outra, a Igreja lê, no mês de setembro, os livros chamados hagiógrafos, de Tobias, Judite, Ester e Jó, nos quais se vê a Sabedoria em ação.
Como a Igreja, ao fim de sua permanência neste mundo, deve ver-se submetida a violentos combates, leem-se, no mês de outubro, os livros dos Macabeus, nos quais se narram o valor e a generosidade dos defensores da Lei, que sucumbiram com glória, como sucederá nos últimos tempos, quando for dado à besta o poder de declarar guerra aos santos e vencê-los4.
No mês de novembro, leem-se os Profetas, anunciadores dos juízos de Deus, que se dispõe a acabar com o mundo. Passam sucessivamente Ezequiel, Daniel e os Profetas menores, dos quais a maioria anuncia as vinganças divinas, e os últimos proclamam, ao mesmo tempo, a próxima vinda do Filho de Deus.
Tal é o significado místico do Tempo depois de Pentecostes. Ele se completa com o uso da cor verde nas vestes sagradas. Esta cor expressa a esperança da Esposa, que sabe que seu destino foi confiado pelo Esposo ao Espírito Santo, sob cuja direção vai realizando sua peregrinação com toda segurança. São João exprime tudo isso com uma só frase: “O Espírito e a Esposa dizem: Vem”5.
1. Gl. 4, 19.
2. 2 Cor. 3, 18.
3. Lc. 18, 8.
4. Ap. 13, 7.
5. Ap. 22, 17.


