Oratório São José

Quarta-Feira de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DE PENTECOSTES

O ESPÍRITO SANTO NA IGREJA

Vimos ontem com quanta fidelidade o Espírito Santo soube cumprir a missão de formar, proteger e conservar a Esposa do Emanuel. Esta recomendação de um Deus foi cumprida com todo o poder de um Deus; e é o espetáculo mais belo, mais deslumbrante, que os anais da humanidade apresentam há dezenove séculos.

A conservação desta sociedade moral, sempre a mesma em todos os tempos e em todos os lugares, que promulgou um símbolo preciso e obrigatório para todos os seus membros, e manteve por seus decretos a mais estreita e compacta unidade de crença entre todos os seus fiéis, é, juntamente com a maravilhosa propagação do cristianismo, o fato culminante da história.

Estes dois fatos não são, pois, efeito de uma providência ordinária, como pretenderam certos filósofos modernos, mas milagres de primeira ordem, operados diretamente pelo Espírito Santo e destinados a servir de base à nossa fé na verdade do cristianismo. O Espírito Santo, que não devia revestir forma sensível no exercício de sua missão, tornou visível sua presença à nossa inteligência e, por este meio, fez o bastante para demonstrar sua ação pessoal na obra da salvação dos homens.

FAZ A IGREJA VISÍVEL EM TODAS AS PARTES

Sigamos esta ação divina nas relações da Igreja com a raça humana. O Emanuel quis que ela fosse a Mãe dos homens, e que todos aqueles a quem Ele distingue com a honra de serem seus próprios membros reconheçam que é ela quem os gera para este glorioso destino.

O Espírito Santo devia, pois, formar a Esposa de Jesus com o brilho necessário para que fosse distinguida e conhecida sobre a terra, deixando aos homens plena liberdade para ignorá-la e rejeitá-la.

Convinha que esta Igreja abrangesse, em sua duração, todos os séculos, e que percorresse a terra de modo patente, de maneira que seu nome e sua nobre missão pudessem ser conhecidos por todos os povos; em uma palavra, devia ser Católica, isto é, universal, possuidora, ao mesmo tempo, da catolicidade dos tempos e dos lugares.

Tal é, com efeito, a existência que o Espírito Santo lhe deu na terra. Promulgou-a em Jerusalém no dia de Pentecostes, diante dos olhos dos judeus vindos de regiões tão diversas, que logo partiram para levar a boa nova aos países que habitavam. Lança depois seus Apóstolos e discípulos pelo mundo, e sabemos por autores contemporâneos que, mal havia passado um século, a terra inteira já estava semeada de cristãos. Desde então, cada ano contribuiu para o desenvolvimento visível da Santa Igreja.

Se o Espírito Santo, nos desígnios de sua justiça, julgou conveniente deixá-la esfriar-se no seio de uma nação indigna dela, transferiu-a para outra onde encontraria filhos mais submissos. Se algumas vezes regiões inteiras se fecharam à sua passagem, foi porque em época anterior ela se apresentou e foi rejeitada, ou porque ainda não havia chegado o momento oportuno para seu estabelecimento.

A história da propagação da Igreja oferece à nossa vista este conjunto maravilhoso de vida perpétua e de emigração. Os tempos e os lugares lhe pertencem; onde não reina, encontra-se presente por seus membros, e esta prerrogativa da catolicidade, que lhe valeu o seu nome, é uma das obras-primas do Espírito Santo.

DIRIGE-A INTERIORMENTE

Mas sua ação não se limita somente a isso para cumprir a missão que o Emanuel lhe confiou em relação à sua Esposa, e devemos penetrar aqui a profundidade do mistério do Espírito Santo dentro da Igreja.

Depois de haver constatado sua influência exterior para sua conservação e extensão, resta-nos apreciar a direção interior que ela recebe d’Ele, e que produz sua unidade, sua infalibilidade e sua santidade, qualidades que, juntamente com sua catolicidade, formam os sinais peculiares da Esposa de Cristo.

É A ALMA DA IGREJA

A união do Espírito Santo com a humanidade de Jesus é uma das bases fundamentais do mistério da Encarnação. Nosso divino Mediador é chamado Cristo porque recebeu a unção1; e esta unção é o efeito da união de sua humanidade com o Espírito Santo2.

Esta união é indissolúvel: o Verbo permanecerá eternamente unido à sua humanidade, e eternamente também o Espírito Santo imprimirá sobre esta humanidade o selo da unção que faz o Cristo.

Segue-se daí que, sendo a Igreja o corpo de Jesus Cristo, deve tomar parte na união que existe entre seu divino Chefe e o Espírito Santo. O cristão recebe no batismo a unção divina do Espírito Santo, que passa a habitar nele como penhor da herança eterna3. Mas há esta diferença: o cristão pode perder pelo pecado esta união, que é para ele o princípio da vida sobrenatural, enquanto ela nunca pode faltar ao corpo da Igreja.

O Espírito Santo incorpora-se à Igreja para sempre; é o princípio que lhe dá vida, seu eixo e motor, e o princípio que a ajuda a resistir a todas as crises a que, por permissão divina, se vê exposta durante o percurso desta vida militante.

Santo Agostinho expõe maravilhosamente esta doutrina em seu sermão para a festa de Pentecostes:

“O sopro que dá vida ao homem — diz-nos ele — chama-se alma, e podeis observar o papel desta alma em relação ao corpo. Ela dá vida aos membros: vê pelo olho, ouve pelo ouvido, sente pelo olfato, fala pela língua, opera pela mão, anda com os pés. Presente em cada membro, dá vida a todos e a função particular a cada um.

Não é o olho que ouve, nem o ouvido que vê, nem a língua que fala do mesmo modo que não são nem o olho nem o ouvido que falam; contudo, o ouvido vive, e vive a língua. As funções dos sentidos são, pois, várias, mas todos participam de uma mesma vida comum.

Assim sucede na Igreja de Deus. Em tal santo, opera milagres; em outro, ensina a verdade; neste, pratica a virgindade; naquele, guarda a castidade conjugal. Em uma palavra, os diversos membros da Igreja têm funções várias designadas, mas todos bebem a vida de uma mesma fonte. Assim, pois, o que é a alma para o corpo humano, é o Espírito Santo para o corpo de Cristo, que é a Igreja. O Espírito Santo opera na Igreja o que a alma opera nos membros de um mesmo corpo.”

Eis, pois, explicada esta noção, com a ajuda da qual compreenderemos a existência e as operações da Igreja. A Igreja é o corpo de Cristo, e nela o Espírito Santo é princípio de vida. Ele a anima, conserva-a, opera nela e por ela.

É sua alma, não só no sentido estrito em que falamos mais acima da alma da Igreja, isto é, de seu ser interior, que é, aliás, nela produto da ação do Espírito Santo; mas é sua alma de tal sorte que toda a sua vida interior e exterior, e todas as suas operações, procedem d’Ele.

A Igreja é imperecível, porque o amor que moveu o Espírito Santo a escolhê-la por morada durará para sempre; tal é a razão desta perpetuidade, que é o fenômeno mais surpreendente deste mundo.

CONSERVA SUA UNIDADE

Resta-nos considerar esta maravilha, que consiste na conservação da unidade no seio desta sociedade. O Esposo, nos Cânticos, chama a Igreja de “sua única”. Não deseja outras esposas; o Espírito Santo velou solicitamente pelo cumprimento do desejo do Emanuel.

Sigamos o exemplo de sua solicitude para obter resultados semelhantes. É possível que uma sociedade possa, humanamente, atravessar dezenove séculos sem mudar, sem modificar-se mil vezes, ainda supondo que, sob um nome ou outro, tenha podido resistir a uma etapa tão longa?

Pensai que esta sociedade, durante um espaço de tempo tão longo, não pôde deixar de ver agitarem-se em seu seio, sob mil formas distintas, as paixões humanas que muitas vezes tudo arrastam; que esteve sempre composta de raças distintas em sua compleição, linguagem e costumes, ora afastadas umas das outras até o ponto de quase não se conhecerem, ora vizinhas, mas divididas por interesses e antipatias nacionais; que revoluções políticas sem número modificaram e até transtornaram a existência dos povos; e, apesar de tudo isso, em todas as partes onde existiram e existirão católicos, a unidade permanecerá como distintivo deste corpo imenso e dos membros que o compõem.

Uma mesma fé, um mesmo símbolo, uma mesma submissão ao mesmo chefe visível, um mesmo culto quanto aos pontos essenciais, uma mesma maneira de resolver as questões pela tradição e pela autoridade.

Em todos os séculos surgiram novas seitas ao grito de: “Eu sou a verdadeira Igreja”, e nenhuma delas pôde subsistir fora das circunstâncias que a haviam produzido. Os arianos com seu poder político; os nestorianos, eutiquianos e monotelitas com suas intermináveis sutilezas, onde estão? Há algo mais impotente e estéril que o cisma grego, que se submeteu ora ao sultão, ora ao moscovita?

Que resta do jansenismo, esgotado por seus vãos esforços para manter-se na Igreja apesar da Igreja? E quanto ao protestantismo, que parte de um princípio de negação, não foi ele visto, desde o começo de seu nascimento, dividido em várias seitas, sem que jamais pudesse formar uma mesma sociedade religiosa? E não o vemos, no dia de hoje, em situação desesperada, incapaz de manter os dogmas que havia aceitado, em seus princípios, como fundamentais: a inspiração das Sagradas Escrituras e a divindade de Jesus Cristo?

Diante de tantas ruínas amontoadas, quão bela e radiante aparece nossa Mãe, a Santa Igreja Católica, aureolada com os raios de sua unidade, a Esposa única do Emanuel!

Os milhões de homens que a compuseram e ainda hoje a compõem pertencerão a uma natureza distinta daquela dos que ingressaram nas diversas seitas que ela viu nascer e morrer? Ortodoxos ou heterodoxos, não somos todos membros da mesma família humana, escravos das mesmas paixões e sujeitos aos mesmos erros?

De onde vem aos filhos da Igreja Católica esta solidez que triunfa do tempo, sobre a qual não influi a distinção das raças, que sobrevive a essas crises e mudanças que nem a forte constituição dos Estados nem a resistência secular das nacionalidades podem evitar?

É necessário reconhecer que há nela um elemento divino que a torna resistente e a mantém firme. O Espírito Santo, alma da Igreja, influi em todos os seus membros e, como é único, produz a unidade em todo o conjunto que anima. Não podendo ser contrário a si mesmo, nada existe por Ele senão mediante inteira conformidade com aquilo que Ele é. Eis a chave do segredo.

UNIDADE NA OBEDIÊNCIA

Amanhã falaremos do que faz o Espírito Santo para a manutenção da fé una e invariável em todo o corpo da Igreja; limitemo-nos hoje a considerá-lo como princípio de união exterior pela subordinação voluntária a um mesmo centro de unidade.

Disse Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Pedro devia morrer. A promessa não se referia somente à sua pessoa, mas a toda a legião de sucessores que haveriam de sucedê-lo até o fim dos tempos.

Quão maravilhosa e enérgica é a ação do Espírito Santo, que vai produzindo, ano após ano, esta dinastia de príncipes espirituais, na qual Sua Santidade Pio XII ocupa o número 263, e que continuará até o último dia do mundo!

Nenhuma violência se fará à liberdade do homem; o Espírito Santo permitirá que ele tente aquilo que quiser; mas Ele continuará exercendo sua missão. Ainda que um Décio cause, com suas violências, uma vacância de quatro anos na Sé de Roma; ainda que se levantem antipapas, sustentados uns pelo povo e outros pela política do príncipe; ainda que um prolongado cisma torne duvidosa a legitimidade dos Pontífices, o Espírito Santo permitirá que a prova transcorra, fortificará enquanto ela durar a fé de seus fiéis; mas, enfim, chegado o momento, dará a conhecer seu eleito, e toda a Igreja o receberá com aclamações de alegria.

Para compreender o que há de admirável nesta ação sobrenatural, não basta reconhecer os resultados exteriores que ela produz na história; é preciso prosseguir seu estudo naquilo que tem de mais íntimo e misterioso. A unidade da Igreja não é semelhante à unidade imposta pelos conquistadores nos países submetidos ao seu jugo, onde se pagam tributos à força. Os membros da Igreja guardam a unidade na fé e na submissão porque aceitam com amor o jugo imposto à sua liberdade e à sua razão.

Mas quem cativa assim o orgulho humano sob tal obediência? Quem consegue fazer encontrar a alegria e o contentamento, calcando aos pés toda pretensão pessoal? Quem predispõe o homem a pôr toda a sua segurança e felicidade em deixar de existir como indivíduo nesta unidade absoluta, e isto em questões nas quais o capricho humano gostou de ter rédea solta em todos os tempos?

Não é o Espírito divino quem opera este milagre múltiplo e constante, quem anima e harmoniza este vasto conjunto e quem, sem violência, conserva unidos em um mesmo concerto os milhões de corações e de espíritos que formam a Esposa “única” do Filho de Deus?

Nos dias de sua vida mortal, Jesus pede por nós a unidade ao Pai celestial: “Que sejam um, como Nós somos um”4, disse Ele. Ele a prepara, chamando-nos a ser seus membros; mas, para operar esta união, envia aos homens o seu Espírito, este Espírito que é o laço eterno de união entre o Pai e o Filho, e que se digna descer até nós para realizar esta união inefável que tem seu exemplar no próprio Deus.

Graças, pois, Vos sejam dadas, Espírito divino, que, habitando na Igreja de Jesus, nos inclinais misericordiosamente para a unidade, fazeis-nos amá-la e nos dispondes a sofrer tudo antes que rompê-la. Fortalecei-a em nós e não permitais que nem o mais leve indício de insubmissão venha jamais a alterá-la.

Sois a alma da Igreja; governai-nos como membros sempre dóceis às vossas inspirações, pois estamos certos de que não poderemos chegar a Jesus, que Vos enviou, se não pertencermos à Igreja, sua Esposa e nossa Mãe, a esta Igreja que Ele resgatou com seu sangue e que Vos foi confiada para formá-la e regê-la.

No próximo sábado terá lugar, em toda a Igreja, a ordenação de sacerdotes e ministros sagrados. O Espírito Santo, que exerce uma de suas obras principais pelo sacramento da Ordem, descerá sobre as almas apresentadas e imprimirá nelas, pela mão do Pontífice, o selo do Sacerdócio ou do Diaconado.

Diante de ato tão transcendental, a Santa Igreja prescreve desde hoje aos seus fiéis o jejum e a abstinência, para obter da misericórdia divina que efusão tão grande de graça seja proveitosa para os que a recebem e vantajosa para a sociedade cristã.

A Estação celebra-se em Roma na basílica de Santa Maria Maior. Convinha que um dos dias desta oitava visse os fiéis reunidos sob os auspícios da Mãe de Deus, cuja participação no mistério de Pentecostes foi tão gloriosa e favorável para a Igreja nascente.

DOM DE FORTALEZA

Pelo dom de ciência aprendemos o que devemos fazer e o que devemos evitar para viver conforme o desejo de Jesus Cristo, nosso divino Chefe. Necessitamos agora que o Espírito Santo ponha em nós um princípio do qual possamos tirar a energia que deve ser nosso sustento durante o caminho que acaba de nos assinalar.

Devemos, com efeito, contar com obstáculos, e o grande número dos que sucumbem é prova palpável da necessidade que temos de auxílio. O socorro que o Espírito Santo nos envia é o dom de fortaleza, com cujo perseverante exercício nos será possível, e até fácil, triunfar de tudo aquilo que poderia desviar nossa marcha.

Nas dificuldades e provações da vida, o homem deixa-se levar pela fraqueza e pelo abatimento, ou por um ardor natural que tem sua fonte ora no temperamento, ora na vaidade. Esta dupla disposição pouco contribui para a vitória nos combates que a alma deve sustentar para sua salvação.

O Espírito Santo traz um elemento novo: esta força sobrenatural, que lhe é tão própria que, ao instituir o Salvador os seus Sacramentos, estabeleceu um deles dando-lhe como fim especial conceder-nos este divino Espírito como princípio de energia.

Não há dúvida, pois, de que, tendo de lutar nesta vida contra o demônio, o mundo e a carne, necessitamos de algo mais para resistir do que a pusilanimidade e a audácia. Necessitamos de um dom especial que ponha limite à nossa timidez e tempere, ao mesmo tempo, nossa excessiva confiança em nossas próprias forças.

O homem assim fortalecido pela obra do Espírito Santo sairá certamente vitorioso, porque a graça suprirá nele a fraqueza da natureza, ao mesmo tempo em que temperará seu ardor.

Duas necessidades encontra o cristão em sua vida: necessitará poder resistir e poder suportar. Que poderá ele contra as tentações de Satanás, se a fortaleza do Espírito Santo não vier envolvê-lo com uma armadura celeste e fortificar o seu braço?

O mundo não é adversário menos temível, se se considera o número de vítimas que faz a cada dia pela tirania de suas máximas e de suas pretensões. Quão grande deve ser a assistência do Espírito divino quando procura tornar o cristão invulnerável aos dardos mortíferos que causam tantas feridas ao seu redor!

As paixões do coração humano não são menor obstáculo à sua obra de salvação e de santificação; obstáculo tanto mais temível quanto mais íntimo. É necessário que o Espírito Santo transforme o coração, que lhe ensine a renunciar a si mesmo quando a luz celeste nos aponta outro caminho, distinto daquele que seguimos guiados pelo amor e pela busca de nós mesmos.

Que fortaleza divina não se necessita para “odiar até a própria vida”, quando Jesus Cristo o exige5, quando se trata de escolher entre dois senhores cujo serviço comum é incompatível?6

O Espírito Santo opera diariamente estes prodígios por meio do dom que nos concedeu, se não desprezamos esse dom, se não o anulamos com nossa covardia ou com nossa imprudência.

Ensina o cristão a dominar suas paixões, a não se deixar conduzir por esses guias cegos, a não ceder aos seus instintos senão quando estão unidos à ordem que Ele estabeleceu.

Às vezes, não se contenta somente com que o cristão resista interiormente aos inimigos de sua alma; exige um protesto aberto contra o erro e o mal, se assim o pede o dever de estado ou a posição em que se encontra.

Então não se deve fazer caso dessa espécie de desprezo que anda unido ao nome de cristão, e que não deve causar estranheza se ele se recordar das palavras do Apóstolo: “Se eu procurasse agradar aos homens, não seria servo de Cristo”7.

O Espírito Santo nunca pode faltar; e, quando encontra uma alma resolvida a valer-se do dom de fortaleza, cuja fonte é Ele, não somente lhe assegura o triunfo, mas diariamente a coloca em estado de paz, de plena segurança e de valor, com que alcança a vitória sobre as paixões.

Tal é a aplicação que o Espírito Santo faz do dom de fortaleza no cristão que deve exercitar-se na paciência. Dissemos que este dom precioso traz consigo, ao mesmo tempo, a energia necessária para suportar as provações, ao preço das quais adquirimos nossa salvação.

Há cenas de espanto que diminuem nosso impulso e que podem conduzir o homem a uma ruína total. O dom de fortaleza as dissipa e as substitui por uma calma e segurança que desconcertam a natureza.

Contemplai os mártires: não somente São Maurício, chefe da legião Tebana, já curtido na luta do campo de batalha, mas Felicidade, mãe dos sete irmãos Macabeus; Perpétua, nobre matrona cartaginesa, para quem o mundo era todo afagos; Inês, menina de treze anos, e tantos outros milhares, e dizei se o dom de fortaleza é estéril em sacrifícios.

Que foi feito do medo da morte, desta morte cujo só pensamento tantas vezes nos faz estremecer? E essas generosas oferendas de uma vida imolada na renúncia e nas privações, a fim de encontrar Jesus inteiramente e seguir suas pegadas o mais de perto possível!

E tantas existências ocultas aos olhares distraídos e superficiais dos homens, existências que têm como fundamento o sacrifício, cuja serenidade nunca foi quebrantada pelas mais duras provações, e que diariamente aceitam com paciência sua nova cruz!

Que troféus para o espírito de fortaleza! Que sacrifícios diante do dever ele sabe produzir! E, se o homem por si mesmo é quase nada, como se engrandece pela ação do Espírito Santo!

Ajuda também Ele o cristão a vencer a triste tentação do respeito humano, elevando-o acima das considerações do mundo, que ditam outra conduta; Ele é quem incita o homem a preferir, à vã honra do mundo, a glória de não ter violado os mandamentos de seu Deus.

Este espírito de fortaleza nos faz aceitar os reveses da fortuna como outros tantos desígnios misericordiosos do céu; é Ele quem mantém firme o valor do cristão nas perdas tão dolorosas dos seres queridos, nos sofrimentos físicos que fariam da vida um fardo insuportável se não se soubesse que são visitas do Senhor.

É, enfim, como lemos nas vidas dos Santos, quem se serve das próprias repugnâncias da natureza para produzir esses atos heroicos nos quais a criatura humana parece ultrapassar os limites de seu ser, para elevar-se ao grau dos espíritos impassíveis e glorificados.

Ó Espírito de fortaleza, que habitais cada dia mais e mais em nós, preservai-nos da sedução deste século! Em nenhuma época foi tão fraca a energia das almas, nem tão poderoso o espírito do mundo, nem tão insolente o sensualismo, nem tão pronunciados o orgulho e a independência.

Ser forte consigo mesmo é hoje algo tão singular que desperta a admiração dos que são testemunhas: tanto terreno vão perdendo as máximas evangélicas!

Detende-nos nesta ladeira que nos arrastará, como a tantos outros, ó Espírito divino! Permiti que Vos dirijamos, em súplica, os votos que Paulo fazia pelos cristãos de Éfeso, e que possamos reclamar de vossa magnanimidade “esta armadura divina, para que possamos resistir no dia mau e permanecer perfeitos em todas as coisas.

Cingi nossos rins com a verdade; revesti-nos da couraça da justiça, e calçai nossos pés com o Evangelho da paz, como calçado indestrutível. Armai-nos em todo momento com o escudo da fé, com que possamos apagar os dardos inflamados do maligno inimigo. Cobri nossa cabeça com o elmo da salvação, e ponde em nossa mão a espada do espírito, que é a palavra de Deus”8, com cuja ajuda, como o Senhor no deserto, poderemos derrotar todos os inimigos.

Espírito de fortaleza, assim seja.

 


 

1. Sl. 44, 8.

2. At. 10, 38.

3. Ef. 1, 13.

4. Jo. 17. 11.

5. Jo. 12, 25.

6. Mt. 6, 24.

7. Gl. 1, 10.

8. Ef. 6, 11-17.

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