Oratório São José

Terça-Feira de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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TERÇA-FEIRA DE PENTECOSTES

O ESPÍRITO SANTO E A FORMAÇÃO DA IGREJA

Vimos a obra que o Espírito Santo realizava no mundo por meio dos Apóstolos e daqueles que lhes sucederam: a conquista do gênero humano para o nome de Jesus, a quem “todo poder foi dado no Céu e na terra”1. A língua de fogo venceu, e o príncipe deste mundo, apesar de seus furores, viu ruírem seus altares e cair o seu poder. Vejamos agora a consequência das obras deste divino Espírito na glorificação do Filho de Deus, que O enviou aos homens.

O Emanuel desceu cá embaixo procurando, em seu amor, a Esposa que havia desejado desde toda a eternidade. Abraçou-a tomando a natureza humana e unindo-a indissoluvelmente à Pessoa divina; mas esta união individual não era suficiente para o seu amor. Dignou-se aspirar à posse de toda a raça humana; era-lhe necessária a sua Igreja, “a sua única”, como a chama no Cântico dos Cânticos2; a sua Igreja, formada da flor e nata de todos os povos, “cheia de glória, sem mancha nem ruga, santa e imaculada”3.

Encontrou a raça humana manchada pelo pecado, indigna de celebrar com Ele as augustas núpcias às quais a convidava. Seu amor não hesitou. Declarou que era o Esposo anunciado; lavou com o próprio sangue as manchas de sua desposada e deu-lhe em dote os méritos infinitos que havia conquistado.

Tendo-a preparado para Si mesmo, quis que sua união com ela fosse a mais íntima possível. Jesus e sua Igreja são um só corpo: Ele é a Cabeça; ela, o conjunto dos membros reunidos na unidade sob este único Chefe. Esta é a doutrina do Apóstolo: “Cristo é a Cabeça da Igreja; nós somos os membros de seu corpo, somos de sua carne e de seus ossos”4.

Este corpo se formará pela agregação sucessiva dos filhos da raça humana que, prevenidos pelo socorro sobrenatural da graça, quiserem tomar parte nele; e este mundo que habitamos será conservado até que o último eleito que ainda falte para a integridade do Corpo Místico do Filho de Deus se una a ele por toda a eternidade. Então tudo estará consumado, e cumprir-se-á a última das consequências da Encarnação.

Ora, do mesmo modo que, no Verbo encarnado, a humanidade é composta de uma alma invisível e de um corpo visível, assim a Igreja será, ao mesmo tempo, alma e corpo: uma alma cuja beleza só poderá contemplar, cá embaixo, o olhar de Deus; um corpo que atrairá os olhares dos homens e será admirável testemunho do poder de Deus e do amor que tem pela raça humana.

Até os dias em que estamos, os justos chamados a reunir-se sob o divino Chefe haviam pertencido somente à alma da Igreja, porque o corpo ainda não existia. O Pai celestial os havia adotado por filhos seus; o Filho de Deus os havia aceitado como membros seus; e o Espírito Santo, cuja ação veremos mais adiante, havia realizado intimamente sua eleição e sua consumação.

O ponto de partida da nova ordem das coisas está em Maria. Nela residiu primeiramente a Igreja completa, alma e corpo. Aquela que devia ser tão realmente Mãe do Filho de Deus segundo a humanidade como o Pai celestial é seu Pai segundo a divindade, devia ser, na ordem dos tempos como na medida das graças, superior a tudo o que havia precedido e a tudo o que devia seguir.

O Emanuel quis também colocar por Si mesmo, além de sua Mãe tão querida, os fundamentos de sua Igreja. Pôs com suas benditas mãos a Pedra fundamental, ergueu suas colunas, e vimos como empregou os quarenta dias que precederam a Ascensão na organização desta Igreja, ainda tão limitada, mas que um dia devia cobrir todo o mundo. Anunciou que estaria com os seus “até a consumação dos séculos”5; era prometer que, quando subisse ao Céu, a raça de seus discípulos se perpetuaria até o fim dos tempos.

Para o cumprimento de sua obra, que apenas havia esboçado, contava com o Espírito divino. Era também necessário que este Espírito Santo descesse para aperfeiçoar e confirmar os eleitos. Devia ser seu Paráclito, seu Consolador, depois da partida de seu Mestre; era a Virtude do alto que devia protegê-los como uma armadura em seus combates; devia trazer-lhes à memória os ensinamentos de seu Mestre; devia fecundar, com sua ação, os Sacramentos que Jesus havia instituído e cujo poder estava neles pelo caráter que imprimira em suas almas.

Eis por que lhes disse: “Convém-vos que Eu vá; porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós”6. No dia de Pentecostes, vimos o Espírito Santo agir sobre a pessoa dos Apóstolos e dos discípulos; agora é preciso vê-lo lançar mãos à obra da criação, da conservação e do aperfeiçoamento desta Igreja, à qual Jesus prometeu assistir com sua presença misteriosa “até a consumação dos séculos”7.

COMEÇOS DA IGREJA

A primeira operação do Espírito Santo na Igreja é a eleição dos membros que devem compô-la. Este direito de eleição lhe é de tal modo pessoal que, segundo as palavras do texto sagrado, os próprios discípulos que Jesus escolheu para serem as bases de sua Igreja, escolheu-os “com o concurso do Espírito Santo”8.

Vimo-lo, no dia de Pentecostes, começar sua obra pela eleição de três mil pessoas. Poucos dias depois, são conquistadas outras cinco mil mediante a pregação de Pedro e João sob os pórticos do templo. Depois dos judeus chega a vez dos gentios: o Espírito Santo conduz Pedro à casa do centurião Cornélio e penetra neste romano e em seus familiares, elegendo-os assim para a Igreja nascente e chamando-os ao batismo. A Liturgia nos fez reviver esta passagem na Missa de ontem.

Quem poderá, doravante, acompanhar a marcha deste Espírito Santo, a quem nada nem ninguém será capaz de impedir? “A voz de seus eleitos percorre toda a terra, e sua palavra de fogo ressoa até os últimos confins do mundo”9. O Espírito Santo os precede e os acompanha sempre, e é Ele quem realiza a conquista quando eles falam.

Nos começos do século III, um escritor cristão pôde dizer aos magistrados do Império Romano: “Somos de ontem, e tudo enchemos: vossas vilas, vossas cidades, vossos campos, os palácios, o senado, o foro”10. Nada resiste ao ímpeto arrebatador do Espírito Santo; ainda não se passaram três séculos desde a manifestação do dia de Pentecostes, e Ele escolhe para membros de sua Igreja os próprios Césares.

Assim se vai formando pouco a pouco a Esposa que Jesus aguarda, e cujo crescimento e desenvolvimento contempla com amor desde o Céu. Nos primeiros anos do século IV, esta mesma Igreja, obra do Espírito Santo, transpõe os limites do Império Romano; e, se neste mesmo Império ainda se encontram grupos dispersos aferrados ao paganismo, ao menos já ouviram falar dela, e a própria raiva que lhe professam é testemunho evidente do poderoso desenvolvimento que ela alcança diante de seus olhos.

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA

Mas não vamos crer que o papel do Espírito Santo se limite a assegurar o estabelecimento da Igreja sobre as ruínas do Império pagão. Jesus quer uma Esposa imortal, que seja cada vez mais conhecida por sua presença em todos os lugares e em todos os tempos, superior a qualquer outra divisão da raça humana pela expansão de seu império e pelo número de seus membros.

O Espírito Santo não deve deter-se no cumprimento de sua missão. Se Deus se propôs submergir o Império culpado na inundação dos bárbaros, isto é um novo triunfo para o Espírito. Deixai-O penetrar e agitar suavemente esta formidável massa. Tem ali seus eleitos, e os tem aos milhões. Renovou a face da terra pagã e renovará a do mundo bárbaro.

Os cooperadores que Ele prepara para Si não O trairão. Cria sem cessar novos apóstolos e, sendo tão poderoso, de todos faz matéria apta para sua obra. As Clotildes, as Bertas, as Teodelindas, as Eduviges e tantas outras engrossam suas fileiras: adornada por suas mãos reais, a Esposa de Jesus cresce sem cessar, cada vez mais jovem e mais bela.

Faltam ainda associar a este movimento as vastas regiões da Europa, porque é necessário consolidar a obra nas regiões em que as cristandades da primeira época haviam sido submersas sob as ondas torrenciais da invasão. A partir do fim do século VI, o Espírito Santo envia, pouco a pouco, um após outro, às ilhas da Bretanha, à Alemanha, às raças escandinavas e aos países eslavos, os Agostinhos, Bonifácios, Anscários, Adalbertos, Cirilos, Metódios e Otões.

Por meio destes instrumentos fiéis do Espírito Santo, a Esposa repara as perdas que sofreu no Oriente, onde o cisma e a heresia, sucessivamente, foram cerceando sua herança primitiva. Este, que, sendo Deus como o Pai e o Filho, recebeu como missão mantê-la em suas honras, vela fiel e escrupulosamente por sua guarda.

E, de fato, quando uma defecção ainda mais desastrosa está prestes a irromper na Europa sob a pretensa Reforma, o Espírito Santo já tomou antecipadamente suas medidas. As Índias Orientais foram conquistadas pela nação fidelíssima; um novo mundo ocidental nasceu das águas e forma um novo florão para o reino católico.

Então o Espírito Santo, sempre preocupado em conservar em sua dignidade e em sua pureza o sagrado depósito que lhe confiou o Verbo encarnado, suscita novos enviados para levar a essas imensas regiões o nome Daquele que é o Esposo e que, do alto do Céu, contempla com satisfação o desenvolvimento que adquire a Esposa. Francisco Xavier é um dom precioso para as Índias Orientais; seus irmãos, em cooperação com os filhos de Domingos e de Francisco, preparam com perseverança tenaz a herança que as Índias Ocidentais oferecem à Igreja.

TRIUNFO FINAL DA IGREJA

Mas se, algum tempo mais tarde, a velha Europa, demasiado crédula aos doutores da mentira, parece rejeitar este nobre reino que constitui as complacências do Filho eterno de Deus; se, traída e maltratada, ultrajada e privada de seus direitos, esta nobre Igreja deve sustentar luta contra aqueles que durante muito tempo foram seus filhos, tende por certo que o Espírito Santo não permitirá que ela falhe em seus destinos.

Examinai a obra que Ele realiza atualmente. De onde nascem, senão de seu sopro, suas vocações ao apostolado, cada vez mais numerosas? Enquanto, por um lado, os retornos dos hereges à sua antiga fé são agora mais frequentes do que nunca, todas as regiões infiéis são igualmente visitadas pelos arautos inflamados do Evangelho.

Os séculos XIX e XX tornaram a ver os mártires, escutaram os interrogatórios dos procônsules chineses e anamitas, e recolheram, envoltas na auréola da admiração, as respostas dos confessores, sugeridas pelo Espírito Santo segundo a promessa de seu divino Mestre. O Extremo Oriente dá seus eleitos, os negros da África são evangelizados; e, embora uma quinta parte da terra permaneça rebelde, já possui numerosos fiéis sob uma hierarquia de pastores legítimos.

Sede, pois, bendito, Espírito divino, que com tanta solicitude velais sobre a Esposa de Jesus! Ela não desfaleceu um só dia graças à vossa ação constante e incansável. Não deixastes passar um só século sem suscitar apóstolos que a enriquecessem com suas conquistas; solicitastes constantemente, com vossa divina graça, espíritos e corações que se consagrassem a ela; em todos os povos, em todos os séculos, vós mesmo escolhestes os inumeráveis fiéis que a integram.

Como ela é nossa mãe, e nós somos seus filhos; como é a Esposa de nosso Capitão, com quem esperamos reunir-nos mediante ela, trabalhando pela glória do Filho de Deus que vos enviou à terra, trabalhastes também por nós, pobres e humildes pecadores. Oferecemo-vos por tudo humildes ações de graças.

O Emanuel nos revelou que permanecerá assim conosco até o fim dos tempos, e reconhecemos a necessidade de vossa presença, ó divino Espírito! Dirigi a formação da Igreja, conservai-a e fazei que saia vitoriosa de todos os ataques; transportai-a de uma região a outra quando o solo que pisa não é digno de levá-la; vós sois o vingador de todos aqueles que a ultrajam, e o continuareis sendo até o último dia.

Mas esta Esposa de Deus não deve permanecer assim, sempre desterrada, longe de seu Esposo. Do mesmo modo que Maria, que permaneceu alguns anos na terra trabalhando pela glorificação de seu Filho, e finalmente subiu aos Céus para reinar com Ele, a Igreja permanecerá militante cá embaixo durante os séculos necessários para completar o número dos eleitos.

Mas estamos certos de que há de chegar um tempo do qual foi escrito: “Chegaram as bodas do Cordeiro, e sua Esposa está preparada. Foi-lhe concedida uma veste de linho de brilho deslumbrante, e o tecido são as obras justas dos santos que ela formou”11. Nestes últimos tempos, a Esposa, sempre bela e digna de tal Esposo, não crescerá mais; diminuirá cá embaixo em proporção direta ao seu crescimento lá no Céu. Ao seu redor, sobre a terra, far-se-á sentir a defecção predita por São Paulo12.

Os homens a abandonarão e correrão para o príncipe do mundo, que será solto “por pouco tempo”13, e para a besta, à qual “será concedido fazer guerra aos santos e até vencê-los”14. As últimas horas da Esposa cá embaixo serão dignas dela; sustentareis nossa Mãe até que chegue o Esposo. Mas, depois do nascimento do último eleito, o Espírito e a Esposa unir-se-ão num mesmo grito. “Vem”15, dirão. Então o Emanuel aparecerá sobre as nuvens do céu, a missão do Espírito Santo terá terminado, e a Esposa, “recostada sobre o seu amado”16, elevar-se-á desta terra ingrata e estéril ao Céu, onde a aguardam as bodas da eternidade.

MISSA

A Estação celebra-se hoje na igreja de Santa Anastásia, basílica na qual assistimos à Missa da Aurora no dia de Natal. Voltamos a vê-la hoje, quando a série dos mistérios de nossa salvação se encontra em seu termo. Bendigamos a Deus, que se dignou levar a termo com tanto vigor aquilo que havia começado tão suavemente.

Os neófitos assistem ainda a esta Missa com suas vestes brancas, e sua presença é testemunho, ao mesmo tempo, do amor do Filho de Deus, que os purificou em seu sangue, e do poder do Espírito Santo, que os arrebatou do império tirânico do príncipe deste mundo.

O Introito dirige-se aos neófitos e os anima a alegrar-se. Doravante, estão chamados ao reino celestial; que ofereçam, pois, perene ação de graças Àquele que se dignou escolhê-los. As palavras desta peça, que datam da mais remota antiguidade, são tomadas do livro IV de Esdras, que os primeiros cristãos costumavam ler com frequência por causa da beleza e gravidade de seus ensinamentos, embora não seja reconhecido pela Igreja como livro inspirado.

INTROITO – Recebei a alegria de vossa glória, aleluia; dando graças a Deus, aleluia; que vos chamou aos reinos celestes, aleluia, aleluia.

Salmo: Atende, povo meu, à minha Lei; inclinai vosso ouvido às palavras de minha boca.
V. Glória ao Pai.

Na Coleta, a Igreja nos ensina que a ação do Espírito Santo está cheia de doçura para nossas almas. Esta ação divina as purifica de todas as suas imperfeições e as preserva, ao mesmo tempo, dos ataques do espírito pérfido e invejoso que as espreita sem cessar.

COLETA – Nós vos suplicamos, Senhor, que nos assista a virtude do Espírito Santo: a qual purifique clementemente os nossos corações e nos proteja de toda adversidade. Por Nosso Senhor.

 

EPÍSTOLA – Leitura dos Atos dos Apóstolos.

Naqueles dias, tendo ouvido os Apóstolos que estavam em Jerusalém que Samaria havia recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Estes, tendo ido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo; pois ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo.

MISSÃO NA SAMARIA

Os habitantes da Samaria aceitaram a pregação evangélica levada até ali pelo diácono Filipe. Receberam de sua mão o batismo, que os fez cristãos. Recorda-se o diálogo de Jesus com uma mulher desta cidade à beira do poço de Jacó, e os três dias que passou em companhia de seus moradores.

Sua fé foi recompensada: o batismo os fez filhos de Deus e membros vivos de seu Redentor. Mas era ainda necessário que recebessem o Espírito Santo no sacramento que dá a força. O diácono Filipe não pôde conceder-lhes este dom; dois Apóstolos, Pedro e João, revestidos do caráter pontifical, conferem-lho, fazendo-os perfeitos cristãos.

Este relato vem recordar-nos a graça que o Espírito Santo se dignou fazer-nos, imprimindo em nossas almas o selo da Confirmação; sejamos-lhe reconhecidos por este bem que nos uniu a Ele com laços mais estreitos, tornando-nos, ao mesmo tempo, capazes de confessar valorosamente nossa fé na presença de todos os que quiserem ser nossos juízes.

ALELUIA – Aleluia, aleluia.
V. O Espírito Santo vos ensinará tudo quanto Eu vos disse.
Aleluia.
Aqui se ajoelha.
V. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.

Canta-se em seguida a Sequência Veni, Sancte Spiritus.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São João.

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: Em verdade, em verdade vos digo: aquele que não entra pela porta no redil das ovelhas, esse é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz; chama nominalmente as próprias ovelhas e as faz sair. E, depois de fazer sair as ovelhas, caminha diante delas; e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem o estranho; antes, fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. Disse-lhes Jesus esta parábola. Mas eles não entenderam o que Ele lhes dizia. Então Jesus lhes disse de novo: Em verdade, em verdade vos digo que Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de Mim foram ladrões e salteadores, e as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Se alguém entrar por Mim, será salvo; entrará, sairá e encontrará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e perder. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

FIDELIDADE AO VERDADEIRO PASTOR

Propondo esta passagem evangélica aos neófitos de Pentecostes, quer a Igreja pô-los de sobreaviso contra um perigo com que podem deparar no curso da vida.

No momento presente, são o rebanho de Jesus, o bom Pastor, e este divino Pastor se acha representado diante deles pelos homens aos quais Ele mesmo confiou o encargo de apascentar seus cordeiros. Estes homens receberam sua missão de Pedro, e todo aquele que se acha com Pedro se acha também com Jesus.

Mas acontece muitas vezes que falsos pastores se introduzem no aprisco, e o Salvador os qualifica de salteadores e ladrões, porque, em vez de entrar pela porta, penetram pelas cercas no redil. Diz-nos que Ele mesmo é a Porta pela qual devem passar todos os que têm direito de apascentar seu rebanho.

Todo pastor, para não passar por ladrão, deve receber a missão de Jesus, e esta missão não pode vir senão por meio daquele que Ele estabeleceu para ocupar o seu lugar até que Ele mesmo venha em pessoa.

O Espírito Santo derramou seus dons nas almas destes novos cristãos; mas as virtudes que neles brilham não podem exercer-se de modo que lhes sirvam para alcançar a vida eterna senão no seio da verdadeira Igreja. Se, em vez de seguir o legítimo Pastor, têm a desgraça de entregar-se a falsos pastores, todas essas virtudes se tornam estéreis.

Devem, pois, fugir, como de um mercenário, daquele que não recebeu sua missão do Mestre, que é o único capaz de conduzi-los às pastagens da vida. Frequentemente, no correr dos séculos, encontraram-se pastores cismáticos; é dever dos fiéis fugir deles, e todos os filhos da Igreja devem prestar atenção à advertência que Nosso Senhor aqui lhes dirige.

A Igreja que Ele fundou e governa por meio de seu Espírito Santo tem como caráter e distintivo o ser Apostólica. A legitimidade da missão dos pastores manifesta-se pela sucessão; e, como Pedro vive em seus sucessores, o sucessor de Pedro é a fonte do poder pastoral. Quem está com Pedro, está com Jesus Cristo.

No Ofertório, a Igreja, preludiando o Sacrifício, exalta, pelas palavras do salmista, o alimento sagrado que os fiéis irão comungar: é o maná descido do Céu, o pão dos próprios anjos.

OFERTÓRIO – O Senhor abriu as portas do Céu e fez chover sobre eles o maná, para que comessem: deu-lhes o pão do Céu; o homem comeu o pão dos anjos. Aleluia.

A vítima que vai ser oferecida tem a virtude de purificar, por sua imolação, aqueles que são chamados a alimentar-se dela; a Santa Igreja, na Secreta, pede isto mesmo para os fiéis que integram a assembleia.

SECRETA – Nós vos suplicamos, Senhor, que a oblação do presente dom nos purifique e nos faça dignos da sagrada participação. Por Nosso Senhor.

Na antífona da Comunhão, a Igreja recorda as palavras pelas quais Jesus anunciou que o Espírito Santo O glorificaria. Nós, que acabamos de contemplar este Espírito agindo em todo o mundo, sabemos que Ele cumpriu o oráculo em toda a sua extensão.

COMUNHÃO – O Espírito, que procede do Pai, aleluia, Ele me glorificará, aleluia, aleluia.

O povo fiel participou do Mistério de Jesus; a Igreja nos ensina, na Pós-comunhão, que a virtude do Espírito Santo interveio neste momento com sua ação divina. É Ele quem operou a mudança dos dons sagrados no Corpo e no Sangue do Redentor, e quem preparou as almas para que se unam ao Filho de Deus, purificando-as de todo pecado.

PÓS-COMUNHÃO – Nós vos suplicamos, Senhor, fazei que o Espírito Santo repare as nossas almas com estes divinos Sacramentos, porque Ele é a remissão de todos os pecados. Por Nosso Senhor.

 

O DOM DE CIÊNCIA

Tendo sido a alma arrancada do mal pelo dom de Temor de Deus e aberta aos afetos nobres pelo dom de Piedade, experimenta a necessidade de conhecer o meio de evitar tudo aquilo que é objeto de seu temor e de encontrar aquilo que deve amar. O Espírito Santo vem em seu auxílio, concedendo-lhe o que ela deseja, infundindo-lhe o dom de Ciência.

Por este precioso dom, a verdade lhe aparece; ela conhece o que Deus pede e o que reprova, tudo o que deve buscar e tudo o que deve evitar. Sem a ciência divina, nossa vista corre o risco de extraviar-se por causa das densas trevas que tão frequentemente obscurecem, total ou parcialmente, a inteligência do homem.

Essas trevas provêm, antes de tudo, de nossa própria natureza, que traz impressos sinais reais de decadência. Têm também como causa os preconceitos e as máximas do mundo, que frequentemente corrompem até mesmo os espíritos considerados mais firmes. Finalmente, a ação de Satanás, príncipe das trevas, dirige-se em grande parte ao fim de cercar nossa alma de obscuridades ou de extraviá-la, mergulhando-a em falsos resplendores.

A fé que nos foi infundida no batismo é a luz de nossa alma. Pelo dom de Ciência, o Espírito Santo faz esta virtude produzir raios muito vivos que dissipam nossas trevas. Então, as dúvidas se esclarecem, o erro se dissipa e a verdade aparece em todo o seu radiante esplendor. Cada coisa é vista em sua verdadeira claridade, que é a claridade da fé. Descobrem-se os deploráveis erros que circulam pelo mundo, que seduzem tão grande número de almas e dos quais talvez nós mesmos tenhamos sido frequentemente vítimas.

O dom de Ciência nos revela o fim que Deus se propôs na criação; esse fim sem o qual os seres não encontram nem o bem nem o repouso. Mostra-nos o uso que devemos fazer das criaturas que nos foram dadas, não precisamente como obstáculo, mas como auxílio eficaz em nossa marcha para Deus. Uma vez descoberto o segredo da vida, nosso caminhar torna-se seguro; já não vacilamos e nos sentimos dispostos a abandonar todo caminho que não nos conduziria ao nosso fim.

Esta é a Ciência, dom do Espírito Santo, que o Apóstolo tem em vista quando, falando aos cristãos, lhes diz: “Fostes algum tempo trevas, mas agora sois luz no Senhor; caminhai, pois, como filhos da luz”17. Daí provêm esta firmeza e esta constância da conduta cristã. A experiência pode falhar algumas vezes, e o mundo se alarma ao pensar nos maus passos que é preciso temer muito; é que o mundo agiu sem o dom de Ciência. “O Senhor conduz o justo por caminhos retos e, para assegurar seus passos, deu-lhe a ciência dos santos”18. Todos os dias se dá esta lição. O cristão, em meio à luz sobrenatural, escapa a todos os danos; e, se não tem a experiência própria, possui a experiência de Deus.

Sede bendito, Espírito Santo, por esta luz que derramais sobre nós e que mantendes com tão amável constância. Não permitais que jamais busquemos outra. Ela só nos basta; sem ela tudo são densas trevas.

Livrai-nos das tristes inconsequências pelas quais muitos se deixam seduzir imprudentemente. Aceitam um dia vossa direção, e no dia seguinte se abandonam aos preconceitos do mundo, levando uma vida dupla que não satisfaz nem ao mundo nem a Vós. É-nos necessário, pois, o amor a esta Ciência que nos concedestes, se queremos salvar-nos; o inimigo de nossas almas inveja em nós esta ciência salvadora e quereria substituí-la por suas trevas.

Não permitais, Espírito Santo, que ele realize seus pérfidos desígnios, e ajudai-nos sempre a discernir o falso do verdadeiro, o justo do injusto. Que, segundo a palavra de Jesus, nosso olho seja simples, a fim de que todo o nosso corpo, isto é, o conjunto de nossos atos, de nossos desejos e de nossos pensamentos, se realize na luz; livrai-nos desse olho que Jesus chama mau e que envolve em trevas todo o corpo.


 

1. Mt. 28, 18.

2. Ct. 6, 8.

3. Ef. 5, 27.

4. Ef. 5, 23-30.

5. Mt. 27, 20.

6. Jo. 16, 7.

7. Mt. 28, Ibid.

8. At. 1, 2.

9. Sl. 18.

10. TERTULIANO, Apologías, c. XXXVII,

11. Ap. 19, 7.

12. 2 Ts. 2, 3.

13. Ap. 20, 3.

14. Ibid. 13, 7.

15. Ibid. 22, 17.

16. Ct. 8, 5.

17. Ef. 5, 8.

18. Sag. 10, 10.

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