Domingo de Pentecostes
SANTO DIA DE PENTECOSTES
A VINDA DO ESPÍRITO SANTO
O grande dia que consuma a obra divina no gênero humano brilhou finalmente sobre o mundo. “O dia de Pentecostes — como diz São Lucas — cumpriu-se”1. Desde a Páscoa vimos transcorrer sete semanas; eis o dia que lhes sucede e realiza o número misterioso de cinquenta. Este dia é domingo, consagrado à memória da criação da luz e da Ressurreição de Cristo; vai receber seu último caráter, e por ele vamos receber “a plenitude de Deus”2.
PENTECOSTES JUDAICO
No reino das figuras, o Senhor já marcou a glória do quinquagésimo dia. Israel tivera, sob os auspícios do Cordeiro Pascal, sua passagem através das águas do mar Vermelho. Sete semanas se passaram naquele deserto que devia conduzir à terra da Promissão, e o dia que se segue às sete semanas foi aquele em que ficou selada a aliança entre Deus e seu povo.
Pentecostes, dia quinquagésimo, foi marcado pela promulgação dos dez mandamentos da lei divina, e esta grande recordação permaneceu em Israel com a comemoração anual de tal acontecimento. Mas, assim como a Páscoa, também Pentecostes era profético: deveria haver um segundo Pentecostes para todos os povos, como houve uma segunda Páscoa para o resgate do gênero humano. Para o Filho de Deus, vencedor da morte, a Páscoa com todos os seus triunfos; e, para o Espírito Santo, Pentecostes, que o viu entrar como legislador no mundo posto, de agora em diante, sob a lei.
PENTECOSTES CRISTÃO
Mas que diferença entre as duas festas de Pentecostes! A primeira, sobre os rochedos selvagens da Arábia, entre trovões e relâmpagos, intimando uma lei gravada em duas tábuas de pedra; a segunda, em Jerusalém, sobre a qual ainda não caiu a maldição, porque até agora contém as primícias do povo novo sobre o qual deve exercer o seu império o Espírito de amor.
Neste segundo Pentecostes, o céu não se obscurece, não se ouvem os estrondos dos raios; os corações dos homens não estão petrificados de espanto como ao pé do Sinai, mas palpitam sob a impressão do arrependimento e da ação de graças. Um fogo divino apoderou-se deles, e este fogo abrasará a terra inteira.
Jesus havia dito: “Vim trazer fogo à terra, e que quero senão que se acenda?” Chegou a hora, e Aquele que em Deus é Amor, a chama eterna e incriada, desce do céu para cumprir a intenção misericordiosa do Emanuel.
Neste momento em que o recolhimento reina no Cenáculo, Jerusalém está cheia de peregrinos vindos de todas as regiões da gentilidade, e algo estranho agita estes homens até o fundo do coração. São judeus vindos para a festa da Páscoa e de Pentecostes, de todos os lugares onde Israel estabeleceu suas sinagogas. A Ásia, a África, até mesmo Roma, fornecem todo este contingente.
Misturados aos judeus de pura raça, veem-se pagãos a quem certo movimento de piedade levou a abraçar a lei de Moisés e suas práticas; são chamados prosélitos. Este povo móvel, que dentro de poucos dias há de dispersar-se e que foi conduzido a Jerusalém apenas pelo desejo de cumprir a lei, representa, pela diversidade de idiomas, a confusão de Babel; mas aqueles que o compõem estão menos influenciados pelo orgulho e pelos preconceitos do que os habitantes da Judeia. Recém-chegados de ontem, não conheceram nem rejeitaram, como estes últimos, o Messias, nem blasfemaram de suas obras, que davam testemunho d’Ele. Se gritaram diante de Pilatos, com os outros judeus, pedindo que o Justo fosse crucificado, foi porque foram arrastados pelo ascendente dos sacerdotes e magistrados desta Jerusalém, para a qual os havia conduzido a sua piedade e docilidade à lei.
O SOPRO DO ESPÍRITO SANTO
Mas chegou a hora, a hora de Tércia, a hora predestinada por toda a eternidade, e o desígnio das três divinas Pessoas, concebido e determinado antes de todos os tempos, declara-se e cumpre-se.
Do mesmo modo que o Pai enviou a este mundo, à hora da meia-noite, para encarnar-se no seio de Maria, o seu próprio Filho, a quem gera eternamente, assim o Pai e o Filho enviam a esta hora de Tércia sobre a terra o Espírito Santo, que procede dos dois, para cumprir nela, até o fim dos tempos, a missão de formar a Igreja, esposa e domínio de Cristo, de assisti-la e mantê-la, e de salvar e santificar as almas.
De repente, ouve-se um vento violento que vinha do céu; rugiu fora e encheu o Cenáculo com seu sopro poderoso. Fora, congrega ao redor do edifício, situado no monte Sião, uma multidão de habitantes de Jerusalém e de estrangeiros; dentro, tudo comove, agita os cento e vinte discípulos do Salvador e mostra que nada lhe pode resistir.
Jesus havia dito dele: “É um vento que sopra onde quer, e vós ouvis ressoar a sua voz”3; poder invisível que comove até os abismos nas profundezas do mar e lança as ondas até as nuvens. De agora em diante, este vento percorrerá a terra em todos os sentidos, e nada poderá subtrair-se ao seu domínio.
AS LÍNGUAS DE FOGO
Entretanto, a santa assembleia, que estava completamente absorta no êxtase da espera, conservou a mesma atitude. Passiva ao esforço do divino Enviado, abandona-se a Ele. Mas o sopro foi apenas uma preparação para os que estão dentro do Cenáculo, e ao mesmo tempo uma chamada para os de fora.
De repente, uma chuva silenciosa se estende pelo interior do edifício, chuva de fogo, diz a Santa Igreja, “que arde sem queimar, que luz sem consumir”4; chamas em forma de línguas de fogo pousam sobre a cabeça de cada um dos cento e vinte discípulos. É o Espírito divino que toma posse da assembleia em cada um de seus membros. A Igreja já não está somente em Maria; está também nos cento e vinte discípulos. Todos agora são do Espírito Santo que desceu sobre eles; começou o seu reino, foi proclamado, e novas conquistas se preparam.
Mas admiremos o símbolo com que se opera esta revolução. Aquele que há pouco se mostrou no Jordão sob a formosa forma de uma pomba aparece agora sob a forma de fogo. Na essência divina, Ele é amor; mas o amor não consiste apenas em doçura e ternura, é também ardente como o fogo. Agora, pois, que o mundo está entregue ao Espírito Santo, é necessário que arda, e este incêndio nunca se apagará.
E por que a forma de línguas, senão porque a palavra será o meio de propagação deste incêndio divino? Estes cento e vinte discípulos falarão do Filho de Deus, feito homem e Redentor de todos; do Espírito Santo, que move as almas; e do Pai celestial, que as ama e as adota; e sua palavra será acolhida por grande número. Todos os que a receberem estarão unidos numa mesma fé, e a reunião que formarem chamar-se-á Igreja católica, universal, difundida por todos os tempos e por todos os lugares.
Jesus havia dito: “Ide, ensinai todas as nações”. O Espírito traz do céu à terra a língua que fará ressoar esta palavra e o amor de Deus e dos homens que há de inspirá-la. Esta língua e este amor difundiram-se nos homens e, com a ajuda do Espírito, estes mesmos homens os transmitirão a outros até o fim dos séculos.
DOM DE LÍNGUAS
Entretanto, parece que um obstáculo se ergue diante desta missão. Desde Babel, a linguagem humana se dividiu, e a palavra de um povo não é compreendida por outro. Como, pois, a palavra pode ser instrumento de conquista de tantas nações, e como pode reunir numa só família tantas raças que se desconhecem?
Não temais: o Espírito onipotente já o havia previsto. Nessa embriaguez sagrada que inspira os cento e vinte discípulos, conferiu-lhes o dom de entender toda língua e de se fazerem eles mesmos entender. Neste mesmo instante, num transporte sublime, põem-se a falar todos os idiomas da terra, e a língua, como o ouvido, não apenas se prestam sem esforço, mas com deleite, a esta plenitude da palavra que vai restabelecer a comunhão dos homens entre si. O Espírito de amor fez cessar, num momento, a separação de Babel, e a fraternidade primitiva reaparece com a unidade do idioma.
Quão formosa apareces, Igreja de Deus, ao tornar-te sensível pela ação divina do Espírito Santo, que opera em ti ilimitadamente! Tu nos recordas o magnífico espetáculo que oferecia a terra quando a linhagem humana não falava senão uma só língua. Mas esta maravilha não se limitará ao dia de Pentecostes, nem se reduzirá à vida daqueles em quem aparece neste momento.
Depois da pregação dos Apóstolos, a forma primeira do prodígio irá extinguindo-se, por não ser necessária; mas tu não cessarás de falar todas as línguas até o fim dos séculos, porque não te verás limitada aos confins de uma só nação, mas habitarás o mundo inteiro.
Em toda parte se ouvirá confessar uma mesma fé nas diversas línguas de cada nação; e, deste modo, o milagre de Pentecostes, renovado e transformado, te acompanhará até o fim dos séculos e será uma de tuas características principais.
Por isso, Santo Agostinho, falando aos fiéis, diz estas admiráveis palavras: “A Igreja, estendida por todos os povos, fala todas as línguas. Que é a Igreja senão o corpo de Jesus Cristo? Neste corpo, cada um de vós é um membro. Se, pois, fazeis parte de um membro que fala todas as línguas, também vós podeis considerar-vos participantes deste dom”5.
Durante os séculos de fé, a Igreja, única fonte do verdadeiro progresso da humanidade, fez ainda mais: chegou a reunir numa só língua os povos que havia conquistado. A língua latina foi durante longo tempo o laço de união do mundo civilizado. Apesar das distâncias, podiam-se confiar a ela todas as relações existentes entre os diversos povos, as comunicações da ciência e até os negócios dos particulares; ninguém dos que falavam esta língua se considerava estrangeiro em todo o Ocidente.
A heresia do século XVI emancipou as nações deste bem como de tantos outros; a Europa, dividida durante longo tempo, busca, sem encontrá-lo, este centro comum que unicamente a Igreja e sua língua podiam oferecer-lhe.
Mas voltemos ao Cenáculo, cujas portas ainda não se abriram, e contemplemos novamente as maravilhas que nele opera o Espírito de Deus.
MARIA NO CENÁCULO
Nosso olhar dirige-se instintivamente para Maria, agora mais do que nunca, “a cheia de graça”. Poderia parecer que, depois dos dons imensos prodigalizados em sua conceição imaculada; depois dos tesouros de santidade que derramou nela a presença do Verbo encarnado durante os nove meses em que o levou em seu seio; depois dos socorros especiais que recebeu para agir e sofrer unida a seu Filho na obra da Redenção; depois dos favores com que Jesus a enriqueceu; depois da glória da Ressurreição, o céu havia esgotado a medida dos dons com que podia enriquecer uma simples criatura, por mais elevada que estivesse nos planos eternos de Deus.
Muito ao contrário. Uma nova missão começa agora para Maria: neste momento nasce dela a Igreja; Maria acaba de dar à luz a Esposa de seu Filho, e novas obrigações a reclamam. Jesus partiu sozinho para o céu; deixou-a sobre a terra para que inundasse com seus cuidados maternais este terno fruto seu.
Que comovente e gloriosa é a infância de nossa amada Igreja, recebida nos braços de Maria, alimentada por ela, sustentada por ela desde os primeiros passos de sua carreira neste mundo! Necessita, pois, a nova Eva, a verdadeira “Mãe dos viventes”, de um novo aumento de graças para corresponder a esta missão; por isso é o objeto primário dos favores do Espírito Santo.
Ele foi quem a fecundou outrora para que fosse a Mãe do Filho de Deus; neste momento, fá-la Mãe dos cristãos. “O rio da graça, como diz Davi, inunda com suas águas esta Cidade de Deus que o recebe com regozijo”6; o Espírito de amor cumpre hoje o oráculo de Cristo ao morrer na Cruz. Ele havia dito, apontando para o homem: “Mulher, eis aí teu filho”; chegou o tempo, e Maria recebeu com maravilhosa plenitude esta graça maternal que começa a exercer desde hoje e que a acompanhará ainda em seu trono de Rainha, até que a Igreja se tenha desenvolvido suficientemente e ela possa abandonar esta terra, subir ao céu e cingir a diadema esperada.
Contemplemos a nova beleza que aparece no rosto daquela a quem o Senhor dotou de uma segunda maternidade: esta beleza é a obra-prima que o Espírito Santo realiza neste dia. Um fogo celeste abrasa Maria, e um novo amor acende-se em seu coração: ela se acha por inteiro ocupada na missão pela qual permaneceu sobre a terra.
A graça apostólica desceu sobre ela. A língua de fogo que recebeu não falará em pregações públicas; mas falará aos Apóstolos, guiá-los-á e consolá-los-á em suas fadigas. Exprimir-se-á com tanta doçura como força ao ouvido dos fiéis, que sentirão uma atração irresistível por aquela a quem o Senhor cumulou de suas graças. Como um leite generoso, dará aos primeiros fiéis da Igreja a fortaleza que os fará triunfar nos assaltos do inimigo; e, arrancando-se de seu lado, irá Estêvão abrir a nobre carreira dos mártires.
OS APÓSTOLOS
Consideremos agora o colégio apostólico. Que aconteceu depois da vinda do Espírito Santo a estes homens, que já encontrávamos tão diferentes de si mesmos depois das relações mantidas durante quarenta dias com o seu Mestre? Não sentis que foram transformados, que um ardor divino os arrebata e que, dentro de breves instantes, lançar-se-ão à conquista do mundo?
Já se cumpriu neles tudo quanto lhes havia anunciado o seu Mestre; realmente desceu sobre eles o poder do Altíssimo para armá-los para o combate. Onde estão aqueles que tremiam diante dos inimigos de Jesus, aqueles que duvidavam de sua Ressurreição? A verdade que lhes pregou o seu Mestre aparece clara à sua inteligência: veem tudo, compreendem tudo.
O Espírito Santo lhes infundiu a fé no grau mais sublime, e ardem em desejos de derramar esta fé pelo mundo inteiro. Longe de temer, daqui em diante estão dispostos a afrontar todos os perigos, pregando a todas as nações o nome e a glória de Cristo, como Ele lhes havia mandado.
OS DISCÍPULOS
Em segundo plano aparecem os discípulos, menos favorecidos nesta visita que os doze príncipes do colégio apostólico, mas inflamados como eles pelo mesmo fogo: também eles se lançarão à conquista do mundo e fundarão numerosas cristandades.
O grupo das santas mulheres também sentiu a vinda de Deus manifestada sob a forma de fogo. O amor que as deteve ao pé da Cruz de Jesus e que as conduziu primeiro ao sepulcro na manhã de Páscoa aumentou com novo fervor. A língua de fogo que pousou sobre elas torná-las-á eloquentes para falar de seu Mestre aos judeus e gentios.
OS JUDEUS
A multidão dos judeus que ouviu o ruído que anunciava a vinda do Espírito Santo reuniu-se diante do Cenáculo. O mesmo Espírito, que opera tão maravilhosamente no íntimo da consciência, obriga-os a rodear esta casa que contém dentro de seus muros a Igreja que acaba de nascer.
Ressoam seus clamores, e logo o zelo dos Apóstolos não pode conter-se em limites tão estreitos. Num momento, o colégio apostólico lança-se à porta do Cenáculo para poder comunicar-se com uma multidão ansiosa por conhecer o novo prodígio que acaba de realizar o Deus de Israel.
Mas eis que essa multidão, composta de gente de todas as nacionalidades, que espera ouvir falar galileus, fica estupefata. Eles não fazem senão expressar-se em palavras inarticuladas e confusas, e cada um os ouve falar em seu próprio idioma. O símbolo da unidade aparece agora em toda a sua magnificência. A Igreja cristã manifestou-se a todas as nações representadas nesta multidão. Esta Igreja será una, porque Deus rompeu as barreiras que outrora, em sua justiça, havia posto para separar as nações. Eis os mensageiros de Cristo: estão dispostos a ir pregar o Evangelho por todo o mundo.
Entre os da multidão, há alguns que, insensíveis ao prodígio, se escandalizam da embriaguez divina que veem nos Apóstolos: “Estes homens — dizem — estão cheios de vinho”. Tal é a linguagem do racionalismo, que tudo quer explicar pelas luzes da razão humana.
Contudo, os pretensos embriagados de hoje verão prostrados a seus pés todos os povos do mundo e, com sua embriaguez, comunicarão a todas as raças da linhagem humana o Espírito que possuem.
Os Apóstolos creem chegado o momento: é necessário proclamar o novo Pentecostes no dia aniversário do primeiro. Mas quem será o Moisés que proclamará a lei da misericórdia e do amor, que substitui a lei da justiça e do temor? O divino Emanuel, já antes de subir ao céu, o havia designado: será Pedro, o fundamento da Igreja.
Já é hora de que toda essa multidão o veja e o escute; vai formar-se o rebanho, mas é necessário que se mostre o pastor. Escutemos o Espírito Santo, que vai expressar-se por seu principal instrumento, na presença desta multidão assombrada e silenciosa. Todas as palavras que profere o Apóstolo, embora fale somente uma língua, são ouvidas por seus ouvintes, qualquer que seja o seu idioma ou país. Só este discurso é uma prova inequívoca da verdade e da divindade da nova lei.
O DISCURSO DE PEDRO
“Homens judeus — exclamou —, e todos os habitantes de Jerusalém, ouvi e prestai atenção às minhas palavras. Estes não estão bêbados, como supondes, pois é a hora de Tércia; e isto é o que predisse o profeta Joel: ‘E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda carne, e profetizarão vossos filhos e vossas filhas, e vossos jovens terão visões, e vossos anciãos sonharão sonhos; e sobre meus servos e sobre minhas servas derramarei o meu Espírito, e profetizarão’.
Homens israelitas, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais que Deus fez por Ele no meio de vós, como vós mesmos sabeis, a este, entregue segundo os desígnios da presciência de Deus, levantastes na cruz e destes morte por mãos de infiéis.
Mas Deus, rompidas as cadeias da morte, o ressuscitou, porque não era possível que fosse dominado por ela, pois Davi diz d’Ele: ‘Minha carne repousará na esperança, porque não permitirás que o teu Santo experimente a corrupção do sepulcro’. Davi não falava de si próprio, pois morreu e seu sepulcro permanece ainda entre nós; anunciava a Ressurreição de Cristo, o qual não ficou no sepulcro, nem sua carne conheceu a corrupção.
A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, e recebida do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o sobre toda a terra, como vós mesmos vedes e ouvis. Tende, pois, por certo, filhos de Israel, que Deus fez Senhor e Cristo a este Jesus a quem vós crucificastes”7.
Assim concluiu a promulgação da nova lei pela boca do novo Moisés. Não haveriam as gentes de receber o dom inestimável deste segundo Pentecostes, que dissipava as sombras do antigo e que realizava neste grande dia as divinas realidades?
Deus se revelava e, como sempre, fazia-o por um milagre. Pedro recorda os prodígios com que Jesus dava testemunho de si mesmo, dos quais a Sinagoga não fez caso. Anuncia a vinda do Espírito Santo e, como prova, alega o prodígio inaudito que seus ouvintes têm diante dos olhos, no dom de línguas concedido a todos os habitantes do Cenáculo.
AS PRIMEIRAS CONVERSÕES
O Espírito Santo, que pairava sobre a multidão, continua a sua obra, fecundando com sua ação divina o coração daqueles predestinados. A fé nasce e se desenvolve num momento nestes discípulos do Sinai, que se haviam reunido de todos os recantos do mundo para uma Páscoa e um Pentecostes que, de agora em diante, seriam estéreis.
Cheios de medo e de dor por terem pedido a morte do Justo, cuja Ressurreição e Ascensão acabam de confessar, estes judeus de todo o mundo exclamam diante de Pedro e de seus companheiros: “Irmãos, que devemos fazer?” Admirável disposição para receber a fé: o desejo de crer e a resolução firme de conformar as obras com aquilo que creem!
Pedro continua seu discurso: “Fazei penitência — diz-lhes —, e batizai-vos todos em nome de Jesus Cristo, e também vós participareis dos dons do Espírito Santo. A vós foi feita a promessa, e também aos gentios; numa palavra: a todos aqueles a quem o Senhor chama”.
Com cada uma das palavras do novo Moisés vai-se apagando o antigo Pentecostes, e o Pentecostes cristão brilha cada vez com uma luz mais esplêndida. O reino do Espírito Santo foi inaugurado em Jerusalém diante do templo que está condenado a desmoronar sobre si mesmo. Pedro falou mais; mas o livro dos Atos não recolhe senão estas palavras, que ressoaram como o último chamado à salvação: “Salvai-vos, filhos de Israel, salvai-vos desta geração perversa”.
Com efeito, tinham de romper com os seus, merecer pelo sacrifício a graça do novo Pentecostes, passar da Sinagoga à Igreja. Mais de uma luta tiveram de suportar em seus corações; mas o triunfo do Espírito Santo foi completo neste primeiro dia. Três mil pessoas declararam-se discípulos de Jesus e foram marcadas com o selo da divina adoção.
Ó Igreja do Deus vivo, quão belos são os teus progressos ao sopro do Espírito divino! Em primeiro lugar, residiste na imaculada Virgem Maria, a cheia de graça e Mãe de Deus; teu segundo passo te dota de cento e vinte discípulos, e eis que, no terceiro, são três mil os eleitos, nossos pais na fé, que em breve abandonarão Jerusalém e, ao regressarem a seus países, serão as primícias do novo povo.
Amanhã Pedro falará no mesmo templo, e à sua voz se proclamarão discípulos de Jesus mais de cinco mil pessoas. Salve, ó Igreja de Cristo, nobre e última criação do Espírito Santo, que militas aqui na terra, ao mesmo tempo que triunfas no céu.
Ó Pentecostes, dia sagrado de nosso nascimento, tu abres com glória a série de séculos que percorrerá a Esposa de Cristo! Tu nos comunicas o Espírito de Deus, que vem escrever a lei que regerá os discípulos de Jesus, não sobre a pedra, mas sobre os corações.
Ó Pentecostes promulgado em Jerusalém! Quão depressa estenderás teus benefícios aos povos da gentilidade! Tu vens cumprir as esperanças que em nós despertou o mistério da Epifania. Os Magos vinham do Oriente, e nós os seguimos até o berço do Menino Jesus, mas sabíamos que também chegaria o nosso dia. A tua graça, Espírito Santo, os havia impelido para Belém; mas neste Pentecostes, que proclama com tanta energia o teu império, tu nos chamas a todos; a estrela transformou-se em línguas de fogo, e a face da terra será renovada.
Faze que nosso coração conserve os dons que nos trouxeste, estes dons que nos destinaram o Pai e o Filho, que te enviaram.
O MISTÉRIO DE PENTECOSTES
Não é estranho que a Igreja tenha dado tanta importância ao mistério de Pentecostes quanto ao da Páscoa, dada a importância de que goza na economia do cristianismo. A Páscoa é o resgate do homem pela vitória de Cristo; em Pentecostes, o Espírito Santo toma posse do homem resgatado; a Ascensão é o mistério intermediário. Por um lado, ela consuma o mistério da Páscoa, constituindo o Homem-Deus, vencedor da morte e cabeça de seus fiéis, à direita de Deus Pai; por outro, determina o envio do Espírito Santo sobre a terra.
Este envio não podia realizar-se antes da glorificação de Jesus Cristo, como nos diz São João8, e numerosas razões alegadas pelos Santos Padres nos ajudam a compreendê-lo. O Filho, de quem, em união com o Pai, procede o Espírito Santo na essência divina, devia enviar pessoalmente também este mesmo Espírito sobre a terra.
A missão exterior de uma das divinas Pessoas não é senão a consequência e manifestação da produção misteriosa e eterna que se efetua no seio da divindade. Assim, pois, o Pai não é enviado nem pelo Filho nem pelo Espírito Santo, porque não procede deles. O Filho é enviado pelo Pai, porque este o gera desde a eternidade. O Pai e o Filho enviam o Espírito Santo, porque este procede de ambos.
Mas, para que a missão do Espírito Santo servisse para dar maior glória ao Filho, não podia realizar-se antes da entronização do Verbo encarnado à direita de Deus; além disso, era extremamente glorioso para a natureza humana que, no momento de executar-se esta missão, ela estivesse indissoluvelmente unida à natureza divina na Pessoa do Filho de Deus, de modo que se pudesse dizer com verdade que o Homem-Deus enviou o Espírito Santo sobre a terra.
Não se devia dar esta augusta missão ao Espírito Santo antes que a humanidade de Jesus se tivesse ocultado aos olhos dos homens. Como dissemos, era necessário que os olhos e o coração dos fiéis seguissem o divino Ausente com um amor mais puro e totalmente espiritual.
Ora, a quem senão ao Espírito Santo correspondia trazer aos homens este amor novo, visto que Ele é o laço que une, num amor eterno, o Pai e o Filho? Este Espírito que abraça e une chama-se nas Sagradas Escrituras “o dom de Deus”; é Ele que hoje nos enviam o Pai e o Filho.
Recordemos o que disse Jesus à Samaritana junto ao poço de Sicar: “Se conhecesses o dom de Deus”9. Ele ainda não havia descido; até então não se manifestara senão por alguns dons parciais. A partir deste momento, uma inundação de fogo cobre toda a terra: o Espírito Santo anima tudo, opera em todos os lugares. Nós conhecemos o dom de Deus; não temos senão de aceitá-lo e abrir-lhe as portas de nosso coração para que penetre nele, como no coração dos três mil que se converteram pelo sermão de São Pedro.
Considerai em que época do ano vem o Espírito Santo tomar posse de seu reino. Vimos como o Sol de justiça se levantava timidamente entre as trevas do solstício de inverno para chegar lentamente ao seu zênite. Em sublime contraste, o Espírito do Pai e do Filho busca outras harmonias. É fogo, e fogo que consome; por isso aparece no mundo quando o sol brilha com todo o seu esplendor, quando este astro contempla coberta de flores e frutos a terra que acaricia com seus raios.
Acolhamos o calor vivificante do Espírito de Deus e peçamos-lhe que seu calor não se extinga em nós. Neste momento do Ano Litúrgico estamos em plena posse da verdade pelo Verbo encarnado; procuremos conservar fielmente o amor que nos traz o Espírito Santo.
LITURGIA DE PENTECOSTES
Fundado sobre um passado de quatro mil anos de figuras, o Pentecostes cristão, o verdadeiro Pentecostes, é uma das festas que os próprios Apóstolos fundaram. Vimos como, na antiguidade, à semelhança da Páscoa, tinha a honra de conduzir os catecúmenos às fontes batismais.
Sua oitava, como a da Páscoa, não passa do sábado pela mesma razão. O Batismo era administrado na noite de sábado para domingo, e para os neófitos esta festa começava com a cerimônia do Batismo, como aqueles que eram batizados na Páscoa vestiam túnicas brancas e as depunham no sábado seguinte, considerado como o oitavo dia.
Na Idade Média, deu-se à festa de Pentecostes o nome de Páscoa das Rosas; já vimos como se deu o nome de Domingo das Rosas à domínica infraoitava da Ascensão.
A cor vermelha da rosa e seu perfume recordavam a nossos pais as línguas de fogo que desceram no Cenáculo sobre os cento e vinte discípulos, como as pétalas desfolhadas da rosa divina que derramava o amor e a plenitude da graça sobre a Igreja nascente. É isto que nos recorda a Liturgia ao escolher a cor vermelha durante toda a sua oitava.
Durando de Mende, em seu Rationale, tão precioso para conhecer os usos litúrgicos daquele tempo, diz-nos que durante o século XIII, em nossas igrejas, soltavam-se algumas pombas durante a Missa, as quais esvoaçavam sobre os fiéis em lembrança da primeira manifestação do Espírito Santo no Jordão; e, além disso, lançavam-se da abóbada estopas acesas e rosas em recordação de sua segunda manifestação no Cenáculo.
Em Roma, a estação tinha lugar na Basílica de São Pedro. Era justo que a Igreja honrasse o príncipe dos Apóstolos, cuja eloquência trouxe à Igreja três mil discípulos.
TÉRCIA
A Igreja celebra hoje a Tércia com solenidade especial, a fim de nos pôr em comunicação mais íntima com os ditosos habitantes do Cenáculo. Ela escolheu inclusive esta hora para nela celebrar o Santo Sacrifício, ao qual preside o Espírito Santo com todo o poder de sua operação.
Esta hora, que corresponde às nove da manhã segundo o nosso modo de contar, caracteriza-se, além disso, por uma invocação ao Espírito Santo formulada no hino de Santo Ambrósio; mas hoje não é o hino ordinário que a Igreja dirige ao Paráclito. É o cântico Veni Creator, que nos legou o século IX e que, segundo a tradição, foi composto pelo próprio Carlos Magno.
O pensamento de enriquecer o ofício de Tércia no dia de Pentecostes pertence a Santo Hugo, abade de Cluny, que viveu no século XI; prática que até mesmo a Igreja romana aceitou em sua Liturgia. Daí vem que, mesmo nas igrejas nas quais não se celebra o ofício canônico, canta-se ao menos o Veni Creator antes da Missa de Pentecostes.
Nesta hora tão solene, o povo fiel recolhe-se entre os acordes inspirados deste hino, tão terno e, ao mesmo tempo, impressionante; adora e chama o Espírito de Deus. Neste momento, Ele paira sobre todos os templos cristãos e desce sobre o coração daqueles que o esperam com fervor.
Digamos-lhe que necessitamos de sua presença e peçamos-lhe que permaneça em nosso coração para não se afastar jamais dele. Mostremos-lhe nossa alma selada com seu caráter indelével no Batismo e na Confirmação; roguemos-lhe que cuide de sua obra. Somos seus. Digne-se Ele fazer em nós o que lhe pedimos, mas que nossos lábios o digam com sinceridade, e lembremo-nos de que, para receber e conservar o Espírito de Deus, é preciso renunciar ao mundo, porque Jesus disse: “Não podeis servir a dois senhores”10.
MISSA
Chegou o momento de celebrar o Santo Sacrifício. A Igreja, cheia do Espírito Santo, vai pagar o tributo de seu agradecimento, oferecendo a vítima que nos mereceu tal dom por sua imolação. O introito ressoa com um esplendor e uma melodia sem par. Raras vezes o canto gregoriano se eleva a tal entusiasmo.
As palavras contêm um oráculo do livro da Sabedoria que hoje se cumpre em nós. É o Espírito que se derrama sobre a terra e que dá aos Apóstolos o dom de línguas como penhor inequívoco de sua presença.
INTROITO – O Espírito do Senhor encheu o orbe da terra, aleluia; e Aquele que tudo contém possui a ciência da voz, aleluia, aleluia, aleluia. — Salmo: Levante-se Deus, e sejam dissipados seus inimigos; e fujam de sua presença os que o odeiam. ℣. Glória ao Pai.
A coleta expressa nossos desejos em tão grande dia. Além disso, adverte-nos que dois são os dons principais que nos traz o Espírito Santo: o gosto pelas coisas de Deus e o consolo do coração. Peçamos que ambos permaneçam em nosso coração, para que sejamos cristãos perfeitos.
COLETA – Ó Deus, que neste dia instruístes os corações dos fiéis com a iluminação do Espírito Santo: fazei que saboreemos, no mesmo Espírito, as coisas retas, e que nos alegremos sempre com a sua consolação. Pelo Senhor…, na unidade do mesmo Espírito Santo.
EPÍSTOLA – Leitura dos Atos dos Apóstolos.
Ao cumprirem-se os dias de Pentecostes, estavam todos os discípulos reunidos no mesmo lugar; e veio de repente do céu um ruído, como de vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E apareceram-lhes línguas repartidas, como de fogo, e pousou sobre cada um deles; e todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito os fazia falar.
Havia então em Jerusalém judeus, homens religiosos, de todas as nações que há debaixo do céu. E, espalhada a notícia, reuniu-se a multidão e ficou confusa, porque cada qual os ouvia falar em sua própria língua. E pasmavam todos e admiravam-se, dizendo: Não são acaso galileus todos estes que falam? E como é que cada um de nós os ouve na língua em que nascemos? Partos, medos e elamitas; e os que habitam na Mesopotâmia, na Judeia e na Capadócia, no Ponto e na Ásia, na Frígia e na Panfília, no Egito e nas regiões da Líbia que está junto de Cirene, e os estrangeiros romanos, e também os judeus e prosélitos, os cretenses e os árabes: todos nós os ouvimos falar em nossas línguas as maravilhas de Deus.
OS GRANDES ACONTECIMENTOS DA HISTÓRIA
Quatro grandes acontecimentos assinalam a existência da linhagem humana sobre a terra, e os quatro dão testemunho da bondade de Deus para conosco.
O primeiro é a criação do homem e sua elevação ao estado sobrenatural, que lhe assinala por fim último a clara visão de Deus e sua posse eterna. O segundo é a Encarnação do Verbo, que, ao unir a natureza humana à divina na Pessoa de Cristo, eleva-a à participação da natureza divina e nos proporciona, além disso, a vítima necessária para resgatar Adão e sua descendência de sua prevaricação. O terceiro acontecimento é a vinda do Espírito Santo, cujo aniversário celebramos hoje. Finalmente, o quarto é a segunda vinda do Filho de Deus, que virá libertar a Igreja, sua Esposa, e a conduzirá consigo ao céu para celebrar as núpcias sem fim.
Estas quatro operações de Deus, das quais a última ainda não se cumpriu, são a chave da história humana; nada há fora delas; mas o homem animal não as vê nem pensa nelas. “A luz brilhou no meio das trevas, e as trevas não a compreenderam”11.
Bendito seja, pois, o Deus de misericórdia, que se dignou “chamar-nos das trevas à admirável luz da fé”12. Fez-nos filhos desta geração “que não é da carne nem do sangue, nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus”13.
Por esta graça, eis que hoje estamos atentos à terceira das operações de Deus sobre o mundo, a vinda do Espírito Santo, e ouvimos o comovente relato de sua vinda. Esta tempestade misteriosa, estas línguas, este fogo, esta sagrada embriaguez transportam-nos aos desígnios celestiais, e exclamamos: “Tanto amou Deus o mundo?”
Jesus o disse enquanto estava sobre a terra: “Sim, certamente, Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho unigênito”. Hoje temos de completar e dizer: “Tanto amaram o Pai e o Filho o mundo, que lhe deram seu Espírito divino”.
Aceitemos este dom e consideremos o que é o homem. O racionalismo e o naturalismo querem engrandecê-lo, esforçando-se por colocá-lo sob o jugo do orgulho e da sensualidade; a fé cristã exige de nós a humildade e a renúncia; mas, em troca disso, Deus se dá a nós.
O primeiro verso aleluiático é composto pelas palavras de Davi, nas quais se manifesta o Espírito Santo como autor de uma criação nova, como renovador da terra. O segundo é uma oração pela qual a Igreja pede que o Espírito Santo desça sobre seus filhos. Reza-se sempre de joelhos.
ALELUIA – Aleluia, aleluia. ℣. Enviai o vosso Espírito, e serão criados, e renovareis a face da terra.
Aleluia. Aqui se ajoelha. ℣. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor.
Segue-se a sequência, uma peça cheia de entusiasmo e, ao mesmo tempo, de ternura para Aquele que vem eternamente com o Pai e com o Filho, e que estabelecerá o seu reino em nossos corações. É do começo do século XIII e se atribui com bastante probabilidade a Inocêncio III.
SEQUÊNCIA
- Vinde, Espírito Santo,
e enviai do céu
um raio de vossa luz.- Vinde, Pai dos pobres,
vinde, doador dos dons,
vinde, luz dos corações.- Ótimo Consolador,
doce hóspede da alma,
doce refrigério nosso.- Descanso no trabalho,
frescor no estio,
consolo no pranto.- Ó luz beatíssima!
Enchei o mais íntimo
do coração dos vossos fiéis.- Sem vossa santa inspiração,
nada há no homem,
nada há que seja puro.- Lavai o que está sujo,
regai o que está seco,
curai o que está ferido.- Dobrai o que é rígido,
aquecei o que está frio,
guiai o que se extraviou.- Concedei a todos os vossos fiéis,
que só em vós confiam,
o vosso sagrado Setenário.- Dai o mérito da virtude,
dai um fim ditoso
e dai o gozo perene.Amém. Aleluia.
EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São João.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém me ama, observará minhas palavras, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada; aquele que não me ama não observa minhas palavras. E as palavras que ouvistes não são minhas, mas d’Aquele que me enviou, o Pai. Disse-vos isto permanecendo ao vosso lado. Mas o Espírito Santo Paráclito, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á tudo e vos recordará tudo o que vos disse. Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz: não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se assuste. Já me ouvistes dizer-vos: Vou e volto a vós. Se me amásseis, certamente vos alegraríeis porque vou ao Pai; porque o Pai é maior do que eu. E vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando tiver acontecido, creiais. Já não falarei muito convosco. Porque vem o príncipe deste mundo, e ele nada tem em mim. Mas é para que o mundo conheça que amo o Pai e que, como o Pai me mandou, assim procedo.
A HABITAÇÃO DA TRINDADE EM NOSSA ALMA
A vinda do Espírito Santo não interessa somente ao gênero humano como tal, mas todos e cada um de seus indivíduos são chamados a receber esta visita, que no dia de hoje “renova a face da terra”14.
O desígnio misericordioso de Deus é fazer uma aliança individual com todos nós. Jesus só pede de nós uma coisa: quer que o amemos e que guardemos a sua palavra. Com tal condição, Ele nos promete que seu Pai nos amará e virá com Ele habitar em nós.
Mas isto não é tudo. Anuncia-nos, além disso, a vinda do Espírito Santo, o qual, por sua presença, completará a habitação de Deus em nós. A augusta Trindade fará como que outro céu desta pobre morada, esperando que sejamos transportados, depois desta vida, à mansão na qual possamos contemplar o nosso Hóspede divino: Pai, Filho e Espírito Santo, que tanto amaram esta criatura humana.
O ESPÍRITO SANTO, DOM DO PAI E DO FILHO
Jesus ensina-nos mais neste trecho, tirado do discurso que pronunciou a seus discípulos depois da Ceia: que o Espírito Santo, que hoje desce sobre nós, é um dom do Pai, mas do Pai “em nome do Filho”; do mesmo modo que, em outro lugar, Jesus Cristo diz que Ele é quem enviará o Espírito Santo15.
Estes diferentes modos de expressão mostram a relação que há entre as duas primeiras Pessoas da Santíssima Trindade e o Espírito Santo. Este Espírito divino é do Pai, mas também do Filho. O Pai o envia, mas também o Filho o envia, porque procede de ambos como de um só princípio.
Neste dia de Pentecostes, nosso agradecimento deve dirigir-se tanto ao Pai como ao Filho; porque o dom que nos vem do céu vem-nos de ambos. Desde a eternidade, o Pai gerou o Filho, e quando chegou a plenitude dos tempos, enviou-o ao mundo como seu mediador e salvador.
Desde a eternidade, o Pai e o Filho produziram o Espírito Santo, e na hora assinalada enviaram-no à terra para ser entre os homens o princípio de amor, como o é entre o Pai e o Filho.
Jesus nos diz que a missão do Espírito é posterior à do Filho, porque convinha que os homens fossem iniciados na verdade por Ele, que é a Sabedoria. Com efeito, não poderiam amar Aquele a quem não conheciam. Mas quando Jesus, consumada a sua obra, e sua humanidade sentada à direita de Deus Pai, em união com o Pai envia o Espírito divino para conservar em nós esta palavra que é “espírito e vida”16, e preparação do amor.
O ofertório é tirado do salmo LXII, no qual Davi profetiza a vinda do Espírito Santo para confirmar a obra de Jesus. O Cenáculo extingue todos os resplendores do templo de Jerusalém: de agora em diante não haverá senão a Igreja católica, que não tardará em receber em seu seio os reis e os povos.
OFERTÓRIO – Confirmai, ó Deus, isto que operastes em nós: em vosso templo, que está em Jerusalém, os reis vos oferecerão dons, aleluia.
Na presença dos dons que vai oferecer e que repousam sobre o altar, a Igreja pede na Secreta que a vinda do Espírito Santo seja para os fiéis um fogo que limpe suas manchas e uma luz que ilumine seu espírito com entendimento mais perfeito dos ensinamentos do Filho de Deus.
SECRETA – Nós vos suplicamos, Senhor, que santifiqueis os dons oferecidos e purifiqueis nossos corações com a iluminação do Espírito Santo. Pelo Senhor…, na unidade do mesmo Espírito Santo.
PREFÁCIO – É verdadeiramente digno e justo, equitativo e salutar que, sempre e em todo lugar, vos demos graças, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno, por Cristo, nosso Senhor. Ele, subindo acima de todos os céus e sentando-se à vossa direita, derramou neste dia sobre os filhos de adoção o Espírito Santo prometido. Por isso, o mundo inteiro, espalhado pelo orbe da terra, alegra-se com profuso júbilo. E também as Virtudes celestes e as Potestades angélicas cantam o hino de vossa glória, dizendo sem cessar: Santo! Santo! Santo!
A antífona da comunhão celebra o momento da vinda do Espírito Santo. Jesus deu-se aos seus fiéis como alimento na Eucaristia; mas o Espírito lhes preparou tal favor e mudou o pão e o vinho no Corpo e no Sangue da sagrada Vítima. Ele também os ajudará a conservar em si o alimento que guarda as almas para a vida eterna.
COMUNHÃO – Veio de repente do céu um ruído, como de vento impetuoso, onde estavam sentados, aleluia; e todos ficaram cheios do Espírito Santo, falando as maravilhas de Deus, aleluia, aleluia.
Agora que a Igreja possui o seu divino Esposo, pede-lhe na pós-comunhão que o Espírito Santo permaneça na alma de seus fiéis; e, ao mesmo tempo, revela-nos uma das prerrogativas do Espírito Santo, o qual, encontrando áridas e incapazes de frutificar as nossas almas, transforma-se em orvalho para fecundá-las.
PÓS-COMUNHÃO – Fazei, Senhor, que a infusão do Espírito Santo purifique os nossos corações e os fecunde com a íntima aspersão de seu orvalho. Pelo Senhor…, na unidade do mesmo Espírito Santo.
À TARDE
INAUGURAÇÃO DOS SACRAMENTOS
O grande dia avança em sua carreira, e, cheios do Espírito Santo como o fomos na hora de Tércia, não podemos ficar alheios aos acontecimentos de Jerusalém. O fogo que inundava o coração dos Apóstolos comunicou-se à multidão.
O pesar de ter crucificado o “Senhor da glória”17 domou o orgulho destes judeus que acompanharam Jesus no caminho da dor, insultando-o e amaldiçoando-o. Que lhes falta para serem cristãos? Conhecer e crer; depois, ser batizados.
Do meio do turbilhão do Espírito Santo que os rodeia, ressoa a voz de Pedro e de seus irmãos: “Aquele que foi crucificado e ressuscitou dentre os mortos é o próprio Filho de Deus, gerado eternamente pelo Pai; o Espírito que se manifesta neste momento é a terceira Pessoa da única e divina essência”.
O mistério da Trindade, da Encarnação e da Ressurreição resplandece diante dos olhos destes discípulos de Moisés; as sombras desaparecem para dar lugar ao claríssimo dia da nova aliança.
Já chegou o dia em que se cumpre a predição de São João Batista, pronunciada às margens do Jordão e da qual muitos se lembram: “Entre vós está um a quem não conheceis, de quem não sou digno de desatar a correia da sandália. Eu vos batizo em água; Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”18.
Contudo, este Batismo de fogo deve administrar-se pela água. O Espírito, que é fogo, opera pela água, pois Ele mesmo se chamou “fonte de água viva”. O profeta Ezequiel havia saudado de longe este momento solene quando exprimia deste modo o oráculo divino:
“Eis que derramarei sobre vós água pura, e vos limparei de todas as vossas manchas, e sereis purificados de todos os vossos ídolos. E vos darei um coração novo, e porei no meio de vós um novo espírito. E tirarei de vosso peito esse coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Colocarei meu espírito no meio de vós, e vos farei andar pela senda de meus mandamentos, e vós guardareis a minha lei; e sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus”19.
O BATISMO
A profecia era manifesta, e a hora em que vinha o Espírito era a mesma em que a água ia jorrar. Vimos na Epifania como este elemento, sobre o qual pairava o Espírito divino no princípio do mundo, recebeu o contato da carne do Filho de Deus, e como a pomba uniu sua ação santificante à do Filho de Deus.
Depois vimos como a mão do Pontífice introduzia na fonte batismal, no Sábado Santo, um círio aceso, figura de Cristo, e ouvimos esta oração: “Desça sobre esta fonte o poder e a graça do Espírito Santo”.
Hoje a fonte purificadora estende suas águas sobre Jerusalém; a mão de Pedro e de seus irmãos mergulha neste elemento sagrado os filhos de Israel, e três mil são regenerados nestas águas e feitos cristãos.
Quão belos são estes nossos pais na fé, nos quais veneramos as primícias do cristianismo! Mais belos que os três Magos que vimos descer gozosos de seus camelos e penetrar no estábulo para depositar aos pés do Rei dos judeus as místicas oferendas do Oriente.
Agora se cumprem todos os mistérios: fomos redimidos, Jesus está sentado à direita do Pai, o Espírito Santo enviado por Ele acaba de chegar para permanecer conosco até o fim dos séculos. Eis por que se abrem as fontes dos Sacramentos.
Neste momento, o Espírito do Pai e do Filho levantou o primeiro dos selos, e a água batismal corre abundante para não cessar até que tenha regenerado o último dos cristãos que passar pela terra.
A CONFIRMAÇÃO
O Espírito divino é o “dom do Altíssimo”; os Apóstolos possuem este dom, mas não devem retê-lo só para si. Abre-se outro selo, e a Confirmação comunica aos neófitos o Espírito Santo que desceu ao Cenáculo.
Pelo poder que lhes foi dado, Pedro e seus irmãos, pontífices da nova aliança, comunicam a estes homens, por meio do Espírito Santo, a fortaleza de que necessitarão para confessar Jesus, de quem serão membros para sempre.
A MISSA E A EUCARISTIA
Mas os recém-nascidos para a graça não estão suficientemente divinizados, embora já estejam marcados com um duplo caráter; falta-lhes receber Cristo, que instituiu os Sacramentos, mediador e redentor que uniu Deus aos homens.
Deve levantar-se um terceiro selo, para que, agindo o novo sacerdócio pela primeira vez por meio dos Apóstolos, produza Jesus, Pão da vida, a fim de que esta multidão faminta prove deste maná, que alimenta não apenas o corpo, como o do deserto, “mas dá a vida ao mundo”20.
O Cenáculo, ainda perfumado pela lembrança do que Cristo fez na véspera de sua Paixão, volta a presenciar o prodígio de que foi testemunha. Rodeado de seus irmãos, Pedro pronuncia as palavras divinas que ainda não haviam sido pronunciadas por seus lábios, e o Espírito de amor produz entre suas mãos o Corpo e o Sangue de Cristo.
Foi inaugurado o novo Sacrifício, que não cessará de oferecer-se todos os dias até o fim do mundo. Os neófitos aproximam-se para receber das mãos dos Apóstolos o sagrado alimento que consuma sua união com Deus, por meio de Jesus, Pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec.
MARIA NO CENÁCULO
Mas não esqueçamos que, neste primeiro sacrifício oferecido por Pedro, assistido por seus companheiros no apostolado, também Maria participa desta carne sagrada que tomou o ser em seu seio virginal.
Abrasada pelo fogo do Espírito Santo, que viera confirmar nela a maternidade para com os homens que Jesus lhe havia confiado na Cruz, une-se no mistério de amor a seu Filho amado, que partiu para o céu e lhe encarregou o cuidado da Igreja nascente. De agora em diante, ela o receberá todos os dias até que também vá ao céu para gozar eternamente de sua vista, prodigalizar-lhe suas carícias e receber as suas.
Que felicidade a dos neófitos que mereceram aproximar-se de tal Rainha, a Virgem Mãe, a quem fora dado levar em seu seio castíssimo Aquele que era a esperança de Israel! Contemplaram o rosto da nova Eva, ouviram sua voz e experimentaram a confiança filial que ela inspira aos discípulos de Jesus.
Em outra época, a Igreja nos falará destes afortunados neófitos; aqui não fazemos senão recordar sua felicidade para demonstrar quão grande foi este dia que viu o começo da Igreja.
A hierarquia eclesiástica fica constituída em Pedro, Vigário de Cristo, nos Apóstolos e nos demais discípulos escolhidos por Jesus. A semente da palavra divina foi lançada em boa terra; a água batismal regenerou o que havia de mais escolhido em Israel; o Espírito comunicou-lhes sua fortaleza; o Verbo alimentou-os com sua carne, que é verdadeira comida, e com seu sangue, que é verdadeira bebida21; e Maria recebeu-os em seus braços maternais quando acabavam de nascer.
OS DONS DO ESPÍRITO SANTO
Devemos expor durante toda esta semana as diversas operações do Espírito Santo na Igreja e na alma fiel; mas é preciso antecipar desde hoje os ensinamentos que havemos de apresentar. Sete dias nos foram dados para estudar e conhecer o Dom Supremo que o Pai e o Filho quiseram enviar-nos, e o Espírito que procede de ambos manifesta-se de sete formas às almas. É, pois, justo que cada um dos dias desta semana seja consagrado a honrar e recolher este septenário de benefícios, pelo qual devem realizar-se a nossa salvação e a nossa santificação.
Os sete dons do Espírito Santo são sete energias que Ele se digna depositar em nossas almas quando nelas se introduz pela graça santificante. As graças atuais põem em movimento, simultânea ou separadamente, estes poderes divinamente infundidos em nós, e o bem sobrenatural e meritório da vida eterna é produzido com o consentimento da nossa vontade.
O profeta Isaías, guiado por inspiração divina, deu-nos a conhecer estes sete dons naquela passagem em que, ao descrever a ação do Espírito Santo sobre a alma do Filho de Deus feito homem, a quem nos representa como a flor saída da haste virginal que nasce do tronco de Jessé, nos diz: “Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, o Espírito de Sabedoria e de Entendimento, o de Conselho e o de Fortaleza, o Espírito de Ciência e de Piedade; e enchê-Lo-á o Espírito de Temor de Deus”22.
Nada mais misterioso que estas palavras; mas percebe-se que aquilo que elas exprimem não é uma simples enumeração dos caracteres do Espírito divino, mas antes a descrição dos efeitos que Ele realiza na alma humana. Assim o entendeu a tradição cristã, exposta nos escritos dos antigos Padres e formulada pela Teologia.
A sagrada humanidade do Filho de Deus encarnado é o tipo sobrenatural da nossa, e aquilo que o Espírito Santo operou nela para santificá-la deve, proporcionalmente, realizar-se em nós. Ele pôs no Filho de Maria as sete energias que o Profeta descreve; os mesmos dons estão reservados ao homem regenerado.
Deve-se notar a progressão que se manifesta em sua série. Isaías colocou primeiro o Espírito de Sabedoria e concluiu com o Temor de Deus. A Sabedoria é, com efeito, como veremos, a mais alta das prerrogativas a que pode ser elevada a alma humana, enquanto o Temor de Deus, segundo a profunda expressão do Salmista, não é senão o princípio e o esboço desta divina qualidade.
Compreende-se facilmente que a alma de Jesus, destinada a contrair a união pessoal com o Verbo, tenha sido tratada com dignidade particular, de sorte que o dom de Sabedoria teve de ser infundido nela de maneira primordial, e que o dom de Temor de Deus, qualidade necessária a uma natureza criada, foi posto nela como complemento.
Para nós, ao contrário, frágeis e inconstantes, o Temor de Deus é a base de todo o edifício; e por ele nos elevamos, grau por grau, até esta Sabedoria que une a Deus. Em ordem inversa àquela que Isaías estabeleceu para o Filho de Deus encarnado, o homem sobe à perfeição mediante os dons do Espírito Santo, que lhe foram dados no Batismo e restituídos no sacramento da Reconciliação, caso tenha tido a desgraça de perder a graça santificante pelo pecado mortal.
Admiremos com profundo respeito o augusto septenário que se acha impresso em toda a obra da nossa salvação e da nossa santificação. Sete virtudes tornam a alma agradável a Deus; pelos sete dons, o Espírito Santo a encaminha ao seu fim; sete Sacramentos lhe comunicam os frutos da Encarnação e da Redenção de Jesus Cristo; finalmente, depois das sete semanas da Páscoa, o Espírito é enviado à terra para nela estabelecer e consolidar o reino de Deus.
Não nos admiremos de que Satanás tenha procurado parodiar sacrilegamente a obra divina, opondo-lhe o horrendo septenário dos pecados capitais, pelos quais tenta perder o homem que Deus quer salvar.
O DOM DE TEMOR
Em nós, o obstáculo para o bem é o orgulho. Este nos leva a resistir a Deus, a pôr o fim em nós mesmos; em uma palavra, a perder-nos. Somente a humildade pode livrar-nos de tão grande perigo. Quem nos dará a humildade? O Espírito Santo, derramando em nós o dom de Temor de Deus.
Este sentimento se assenta na ideia que a fé nos sugere acerca da majestade de Deus, em cuja presença somos nada; acerca de sua santidade infinita, diante da qual somos indignidade e miséria; acerca do juízo soberanamente equitativo que Ele deve exercer sobre nós ao sairmos desta vida; e acerca do risco de uma queda sempre possível, se faltarmos à graça que nunca nos falta, mas à qual podemos resistir.
A salvação do homem realiza-se, pois, “com temor e tremor”, como ensina o Apóstolo23; mas este temor, que é um dom do Espírito Santo, não é um sentimento vil que se limitaria a lançar-nos no espantoso pensamento dos castigos eternos. Ele nos mantém na compunção do coração, ainda que nossos pecados tenham sido perdoados há muito; impede-nos de esquecer que somos pecadores, que tudo devemos à misericórdia divina e que só estamos salvos em esperança24.
Este temor de Deus não é um temor servil; é, pelo contrário, a fonte dos sentimentos mais delicados. Pode unir-se ao amor, porque é um sentimento filial que detesta o pecado por causa da injúria feita a Deus. Inspirado pelo respeito à majestade divina e pelo sentimento de sua santidade infinita, coloca a criatura em seu verdadeiro lugar; e São Paulo nos ensina que, purificado deste modo, contribui “para completar a santificação”25.
Assim ouvimos este grande Apóstolo, que havia sido arrebatado até o terceiro céu, confessar que é rigoroso consigo mesmo “para não ser condenado”26.
O espírito de independência e de falsa liberdade que reina atualmente torna pouco comum o temor de Deus, e esta é a chaga dos nossos tempos. A familiaridade com Deus substitui muitas vezes esta disposição fundamental da vida cristã; e, desde então, todo progresso se detém, a ilusão introduz-se na alma e os Sacramentos, que no momento do retorno a Deus haviam operado com tanto poder, tornam-se estéreis.
É que o dom de Temor de Deus foi sufocado pela vã complacência da alma em si mesma. A humildade extinguiu-se; um orgulho secreto e universal paralisou os movimentos desta alma. Ela chega, sem o saber, a não conhecer a Deus, pelo próprio fato de não tremer em sua presença.
Conservai em nós, Espírito divino, o dom de Temor de Deus que nos concedestes no Batismo. Este temor assegurará a nossa perseverança no fim, detendo os progressos do espírito de orgulho. Seja como um dardo que atravesse a nossa alma de parte a parte e permaneça sempre nela como nossa salvaguarda. Abata a nossa soberba e preserve-nos da moleza, revelando-nos sem cessar a grandeza e a santidade d’Aquele que nos criou e que nos há de julgar.
Sabemos, Espírito divino, que este feliz temor não sufoca o amor; antes, retira os obstáculos que impediriam o seu desenvolvimento. As Virtudes celestiais veem e amam o soberano Bem com ardor; estão embriagadas d’Ele por toda a eternidade; contudo, tremem diante de sua tremenda majestade: tremunt Potestates.
E nós, cobertos das cicatrizes do pecado, cheios de imperfeição, expostos a mil ardis, obrigados a lutar contra tantos inimigos, não havemos de sentir que é necessário estimular, por um temor ao mesmo tempo forte e filial, a nossa vontade, que tão facilmente adormece, e o nosso espírito, cercado de tantas trevas?
Preservai em nós a vossa obra, divino Espírito; conservai o precioso dom que vos dignastes conceder-nos; ensinai-nos a conciliar a paz e a alegria do coração com o temor de Deus, segundo a advertência do Salmista: “Servi ao Senhor com temor, e exultai de alegria, tremendo diante d’Ele”27.
1. At. 2, 1.
2. Ver Mística do Tempo Pascal, p. 24.
3. Jo. 3, 8.
4. Resposta a Quinta-feira de Pentecostes.
5. Tract. 22, sup. Jo.
6. Sl. 45.
7. At. 2, 14-36.
8. Jo. 7, 39.
9. Jo. 4, 10.
10. Mt. 6, 24.
11. Jo. 1, 5.
12. I Pe. 2, 9.
13. Jo. 1, 13.
14. Sl. 103, 30.
15. Jo. 15, 26.
16. Jo. 6, 64.
17. I Cor. 2, 8.
18. Jo. 1, 26.
19. Ez. 36, 25-28.
20. Jo. 6, 33.
21. Jo. 6, 56.
22. Is. 11, 2-3.
23. Fl. 2, 12.
24. Rm. 8, 24.
25. II Cor. 7, 1.
26. I Cor. 9, 27.
27. Sl. 2, 11.


