Segunda-Feira da Oitava da Ascensão
SEGUNDA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
O REI DOS ANJOS
A realeza sobre os homens não é a única diadema que recebe o nosso triunfador em sua Ascensão. O Apóstolo ensina que Jesus é também “Chefe de todos os Principados e Potestades”1.
Acima do gênero humano elevam-se os graus da hierarquia angélica, a obra mais maravilhosa da criação. Depois da prova suprema, estas nobres e santas milícias, dizimadas pela queda e pela reprovação dos rebeldes, entram no gozo sobrenatural do sumo bem, e começa o cântico sem fim que ressoa ao redor do trono de Deus, no qual exprimem sua adoração, amor e ação de graças.
Mas uma condição faltou até o presente para a sua completa felicidade. Estes inumeráveis espíritos, tão belos e luminosos, cumulados dos dons divinos, esperam um complemento de glória e de felicidade. Crê-se que, depois de sua criação, Deus lhes revelou que devia criar ainda outros seres, de natureza inferior à sua, e que, dentre estes seres compostos de alma e corpo, devia nascer um a quem o Verbo eterno uniria à sua natureza divina em uma só pessoa.
Foi-lhes manifestado que esta natureza humana, cuja glória, juntamente com a do próprio Deus, foi o fim da criação, seria chamada “primogênito de toda criatura”, e que todo anjo, como todo homem, deveria dobrar o joelho diante dela; a qual, depois de ter sido humilhada na terra, seria glorificada no céu. Por fim, chegaria o momento em que todas as hierarquias celestiais, Principados, Potestades, Querubins e Serafins, a teriam por Chefe.
JESUS CRISTO, MEDIADOR DOS ANJOS
Jesus Cristo foi, pois, esperado pelos Anjos, como o foi pelos homens. Foi esperado pelos Anjos como perfeição suprema de suas hierarquias, cuja multiplicidade chegaria por Ele à unidade, e os quais estariam mais estreitamente unidos a Deus por meio deste intermediário, que reuniria em sua pessoa uma natureza divina e uma natureza criada. Foi esperado pelos homens como reparador, tornado necessário pelo pecado que nos havia fechado o céu, e também como o mediador predestinado desde a eternidade para tomar a raça humana desde os limites do nada e reuni-la a Deus, que resolveu comunicar-lhe sua glória.
Assim, enquanto na terra os justos que viveram antes da Encarnação se tornavam agradáveis a Deus unindo-se a este reparador, a este mediador vindouro, do mesmo modo, no céu, as homenagens dos Anjos à majestade divina subiam até ela pela oferta antecipada que lhe apresentavam estes espíritos bem-aventurados, unindo-se a este Chefe cuja missão, ainda não realizada, estava presente nos decretos eternos do Antigo de dias.
Por fim, tendo chegado a plenitude dos tempos2, como diz o Apóstolo, “Deus introduziu na terra o seu Primogênito”3, arquétipo da criação; e, nesta hora sagrada, não são os homens os primeiros a adorar o Chefe de sua raça: o mesmo Apóstolo nos recorda que os Anjos são os primeiros a prestar-lhe homenagem4.
O Salmista o havia predito em seu cântico sobre a vinda do Emanuel5, e era justo que assim fosse; porque a espera dos Anjos havia durado mais tempo. Além disso, Ele não vinha como reparador deles, mas unicamente como mediador esperado com ansiedade, que devia uni-los mais estreitamente à infinita bondade, objeto de suas delícias eternas, e preencher, por assim dizer, o intervalo que até então não havia sido colmado senão pelos desejos de vê-lo ocupar, enfim, o lugar que lhe estava destinado.
Então se cumpriu este ato de adoração ao Deus-Homem, exigido dos espíritos celestiais no princípio de todas as coisas como a prova suprema que devia decidir sua sorte eterna. Com que amor e submissão não vimos cumprido este ato de adoração em Belém pelos Anjos fiéis, quando viram o seu Chefe e o nosso, o Verbo feito carne, reclinado nos braços de sua casta Mãe, e foram anunciar aos homens, representados pelos pastores, a feliz nova da chegada do comum Mediador!
Mas hoje não é na terra que os espíritos celestes contemplam o Filho de Maria; não é no caminho das humilhações e sofrimentos pelo qual lhe foi necessário passar para remover primeiramente o obstáculo do pecado, que nos privava da honra de chegar a ser seus membros ditosos. É no trono preparado à direita do Pai que o viram elevar-se; ali o contemplam doravante; ali se unem a Ele mais estreitamente, proclamando-o seu Chefe e Príncipe.
Neste instante sublime da Ascensão, um estremecimento de felicidade desconhecida percorre toda a sucessão das hierarquias celestiais, descendo e subindo dos Serafins aos Anjos, que estão mais próximos da natureza humana. Uma felicidade nova, que consiste no gozo real de um bem cuja simples esperança já estava cheia de delícias para o coração de uma criatura, opera uma renovação de felicidade nestes seres privilegiados, que se poderia imaginar já chegados ao ápice das alegrias eternas.
Seus olhares se fixam na beleza incomparável de Jesus, e os espíritos imateriais se admiram de ver a carne revestida de um esplendor que supera o seu brilho, pela plenitude da graça que reside nesta natureza humana. Sua vista, para penetrar mais profundamente na luz incriada, atravessa esta natureza inferior à sua, mas divinizada por sua união com o Verbo divino, e penetra em profundidades que ainda não havia sondado.
Seus desejos são mais ardentes, seu voo mais rápido, seus cânticos mais melodiosos; porque, assim como canta a santa Madre Igreja, os Anjos e Arcanjos, Potestades e Dominações, Querubins e Serafins louvam doravante a majestade do Pai celestial por Jesus Cristo, seu Filho: por quem os Anjos louvam a vossa majestade.
Mas quem poderá descrever os transportes dos espíritos celestiais à chegada desta multidão de habitantes da terra, membros como eles do mesmo Chefe, apressando-se e colocando-se, segundo as diversas hierarquias, ali onde a queda dos anjos maus deixou lugares vazios?
A ressurreição geral ainda não restituiu a estas almas os corpos aos quais estiveram unidas; mas, entretanto, não está já glorificada a sua carne na de Jesus? Mais tarde, na hora marcada, estas almas bem-aventuradas recobrarão sua veste terrestre, desde agora destinada à imortalidade.
Então os santos Anjos reconhecerão, com entusiasmo fraternal, nos traços de Adão, os de seu Filho Jesus, e nos traços de Eva, os de sua filha Maria; mas esta semelhança será mais perfeita no céu que no Paraíso terrestre. Venha, pois, este glorioso dia em que o magnífico mistério da Ascensão será realizado em suas últimas consequências; dia em que as duas criações, angélica e humana, se abraçarão pela eternidade na unidade de um mesmo Chefe.
1. Cl. 1, 16, 20.
2. Gl. 4, 4.
3. Hb. 1, 6.
4. Ibid.
5. Sl. 96, 7.


