Sábado da Oitava da Ascensão
SÁBADO
DA OITAVA DA ASCENSÃO
O MISTÉRIO DA NOSSA ASCENSÃO
Subiu ao Céu o homem que possuía a terra e que reunia em si toda a santidade. Não é, pois, estéril para o Céu esta terra, apesar de maldita; a porta dos céus, fechada à nossa raça, pôde abrir-se para deixar passar um filho de Adão. Tal é o mistério da Ascensão; mas isto não é senão uma parte: é preciso conhecê-lo por inteiro. Ouçamos o que nos diz o Apóstolo das nações: “Deus, que é rico em misericórdia, movido pela excessiva caridade com que amou aqueles que estávamos mortos pelos nossos pecados, deu-nos vida com Jesus Cristo; ressuscitou-nos com Ele e nos fez sentar nos céus em Cristo Jesus”1.
Deste modo, assim como celebramos a Ressurreição do nosso Salvador como a nossa própria ressurreição, o Apóstolo nos convida a celebrar a Ascensão deste divino Redentor como se fosse também a nossa. Meçamos a força da expressão: “Deus nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo”. Nesta Ascensão não é só Ele quem sobe aos céus: nós subimos com Ele; não é somente Ele quem está entronizado na glória: nós o estamos com Ele.
E, de fato, o Filho de Deus não veio revestir-se da nossa natureza para que a carne recebida de Maria fosse unicamente ela coroada na glória eterna; veio para ser o nosso Chefe, mas um Chefe que reclama os seus membros, em cuja adesão consiste a integridade do seu corpo. “Ó Pai — disse na Última Ceia —, aqueles que me destes quero que estejam onde eu estou, para que vejam a glória de que me fizestes participante”2. E que glória deu o Pai ao seu Filho? Ouçamos Davi, que cantou o dia da Ascensão: “O Senhor disse ao meu Senhor: senta-te à minha direita”3. Sobre o próprio trono do Pai, à sua direita, veremos eternamente Aquele a quem o Apóstolo chama “nosso precursor”[4], e nos uniremos a Ele como membros do seu corpo, de sorte que a sua glória seja a nossa e que nós reinemos com Ele por toda a eternidade; Ele tudo compartilhou conosco, pois quis que fôssemos “seus coerdeiros”4.
OS ELEITOS NO CÉU. — Daí se segue que o augusto mistério da Ascensão, aberto hoje, continua-se a cada instante, até que, depois de ter subido aos céus o último dos eleitos, o corpo místico do Emmanuel tenha alcançado a sua inteira plenitude. Considerai essa multidão inumerável de almas santas que se apressa em segui-lo neste dia: à frente, os nossos primeiros pais, os patriarcas, os profetas, os justos de todas as raças, que desde muitos séculos antes se preparavam para este triunfo. Cativos até há pouco nos limbos, brilhantes agora de esplendor, seguem com a rapidez da águia Aquele a quem servem de coroa no triunfo. São os seus troféus, ao mesmo tempo que formam o seu cortejo no trajeto da terra ao Céu. Seguindo-os com o olhar, exclamemos, pois, com o salmista: “Reinos da terra, cantai ao Senhor, cantai a Deus que se eleva sobre os céus dos céus, para o Oriente!”5.
Por sua parte, as milícias angélicas agrupam-se diante de Cristo, e então começa o diálogo que Davi ouviu e que nos transmitiu de antemão. A legião inumerável que segue e acompanha o Emmanuel exclama aos guardas da Jerusalém celeste: “Príncipes, levantai as vossas portas; portas eternas, elevai-vos; o Rei da glória vai entrar”. E os anjos respondem: “E quem é este Rei da glória?”. “É o Senhor — respondem os eleitos da terra —, o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso nas batalhas”, como o atestam as vitórias que conquistou sobre Satanás, sobre a morte e sobre o inferno, vitórias das quais nós somos o feliz troféu6.
Depois de outra interpelação que dá ocasião a exaltar pela segunda vez as suas grandezas, as portas eternas se elevam, e o Cristo vencedor penetra nos céus com o seu glorioso cortejo.
Nunca mais se nos tornarão a fechar essas portas eternas que deram entrada ao nosso Libertador: nisto se nos manifesta a incomunicável grandeza do mistério da Ascensão. Este mistério abre-se hoje: Jesus o inaugurou subindo da terra ao Céu, mas não o encerrou; quis que fosse permanente, que se cumprisse sucessivamente em todos os seus eleitos, quer subam do lugar das expiações, quer se elevem da terra. Salve, pois, ó glorioso mistério, para o qual tantos outros mistérios prepararam o caminho, termo e cumprimento do desígnio eterno de Deus; mistério que foi suspenso durante séculos pela nossa queda, mas que hoje retoma o seu curso no Emmanuel, para não mais interrompê-lo senão no momento solene em que a voz do anjo exclamar: “Acabou-se o tempo”7. Até então permaneces aberto para nós, e a esperança de que tu hás de consumar-te em nós vive em nosso coração.
SÚPLICA. — Dignai-vos permitir-nos, ó Jesus, tomar para nós esta palavra que dissestes: “Vou preparar-vos um lugar”8. Tudo dispusestes para este fim, e viestes ao mundo para abrir-nos o caminho que vós mesmo trilhasteis hoje. A Igreja, vossa Esposa, manda-nos levantar os olhos; mostra-nos o Céu aberto e o sulco luminoso que traçam até nós as almas que sobem a cada instante para se unir a vós. Nossos pés ainda se pousam sobre a terra; mas o olhar da nossa fé vos descobre no termo deste caminho, “ao Filho do homem, sentado à direita do Pai eterno”9.
Mas como transpor o espaço que nos separa de vós? Nós não podemos, como vós, elevar-nos por nossa própria força; é preciso que nos atraiais para vós. Vós o prometestes10, e nós esperamos esse momento.
Maria, vossa Mãe, que quer permanecer ainda conosco, também o espera com submissão e amor: ela o esperou na fidelidade e no trabalho, vivendo convosco sem ainda vos ver. Dai-nos, Senhor, algo desta fé e deste amor de nossa Mãe comum, para que possamos aplicar a nós este dito do Apóstolo: “Já somos salvos pela esperança”11. Assim será, se vos dignardes, segundo a vossa promessa, enviar-nos o vosso Espírito, que esperamos com ardor; pois Ele virá confirmar em nós tudo o que a sucessão dos vossos mistérios já preparou e ser o penhor seguro da nossa ascensão gloriosa.
1. Ef. 2, 4-6.
2. Jo. 17, 24.
3. Hb. 6, 20.
4. Rm. 8, 17.
5. Sl. 68, 33-34.
6. Sl. 23, 7-10.
7. Ap. 10, 6.
8. Jo. 14, 2.
9. Dn. 7, 13.
10. Jo. 7, 32.
11. Rm. 8, 24.


