Oratório São José

Sexta-Feira da IV semana depois da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

0:00

SEXTA-FEIRA

DA IV SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA

O SACRAMENTO DA ORDEM. — Contemplamos o Redentor instituindo os auxílios sacramentais pelos quais o homem é elevado e mantido no estado da graça santificante desde o momento de sua entrada neste mundo até aquele de sua passagem para a visão eterna de Deus. Falta-nos agora considerar o sublime Sacramento que Jesus estabeleceu para ser a fonte da qual dimana sobre os homens esta graça divina, que toma todas as formas e se adapta a todas as nossas necessidades.

A Ordem é este Sacramento, e assim se chama porque é comunicada por etapas diferentes aos membros da Igreja que são honrados com ele. Do mesmo modo que no céu os santos anjos estão escalonados segundo diversos graus, distintos em luz e em poder, de maneira que os graus superiores influem sobre aqueles que lhes são inferiores, assim também, no Sacramento da Ordem, tudo está disposto segundo harmonia semelhante, de sorte que o grau superior influi sobre aquele que lhe está abaixo por este poder e esta luz, que são propriedade da Hierarquia eclesiástica.

Hierarquia significa Principado sagrado. Este principado aparece no Sacramento da Ordem em três graus: Episcopado, Presbiterado e Diaconado, no qual devemos compreender as Ordens inferiores que dele foram separadas. A este conjunto dá-se o nome de Hierarquia de Ordem, para distingui-la da Hierarquia de jurisdição. Esta última, destinada ao governo da sociedade cristã, compõe-se do Papa, dos Bispos e dos membros do clero inferior, aos quais eles delegam uma parte de seu poder de governo. Vimos como esta Hierarquia tem sua origem no ato pelo qual Jesus, Pastor dos homens, deu a Pedro as chaves do Reino de Deus. A Hierarquia da Ordem, intimamente ligada à primeira, tem por objeto a santificação dos homens pelos dons da graça, de que é depositária aqui embaixo.

Na tarde da Páscoa — como muitas vezes já recordamos —, Jesus se apresenta a seus Apóstolos e lhes diz: “Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio”. Ora, o Pai enviou seu Filho para que fosse o Pastor dos homens, e ouvimos Jesus dizer a Pedro que apascentasse os cordeiros e as ovelhas. O Pai enviou seu Filho para que fosse o doutor dos homens, e vimos Jesus confiar aos seus Apóstolos o depósito das verdades que serão objeto de nossa fé. Mas o Pai enviou seu Filho também para ser o Pontífice dos homens; é necessário, pois, que Jesus deixe na terra — para ser exercido até o fim dos tempos — este encargo de Pontífice, que Ele mesmo exerceu em toda a sua plenitude.

Quem é, pois, o Pontífice? É o intermediário entre o céu e a terra; é aquele que une o homem a Deus; aquele que oferece o sacrifício para que a majestade divina seja honrada e o pecado do homem reparado; é aquele que purifica a consciência do pecador e o torna justo; é, enfim, aquele que o une a Deus pelos mistérios dos quais é dispensador.

Jesus, nosso Pontífice, realizou tudo isso por ordem do Pai; mas o Pai quer que essas coisas se perpetuem na terra, quando o seu Filho subir aos céus. É necessário, pois, que Jesus comunique a alguns homens a sua qualidade de pontífice por um Sacramento especial, do mesmo modo como conferiu a todos os fiéis a honra de serem seus membros no Batismo. O Espírito Santo operará neste novo mistério, em cada um dos graus do Sacramento. Esta intervenção inteiramente divina produziu a presença do Verbo encarnado no seio da Virgem, e será ela que imprimirá sobre a alma daqueles que forem apresentados o caráter augusto de Jesus, o Sacerdote eterno. Assim vimos o nosso divino Redentor — depois das palavras que acabamos de recordar — soprar sobre os Apóstolos e dizer-lhes: “Recebei o Espírito Santo”, mostrando deste modo que, por uma infusão especial do Espírito do Pai e do Filho, estes homens são colocados em estado “de serem enviados pelo Filho, assim como o Filho foi enviado pelo Pai”.

Mas não será pela insuflação — reservada ao Verbo, princípio de vida — que os Apóstolos e seus sucessores conferirão este novo Sacramento. Eles imporão as mãos sobre aqueles que forem escolhidos para este cargo e esta honra. Nesse momento, o divino Espírito cobrirá com sua sombra aqueles que forem selecionados e destinados a esta iniciação suprema. A transmissão do dom celeste será transmitida deste modo de geração em geração, segundo os graus respectivos, conforme à vontade da Hierarquia pela qual e com a qual o Espírito Santo opera; e, quando Jesus descer para julgar o mundo, encontrará transmitido e intacto sobre a terra este caráter que Ele mesmo imprimiu em seus Apóstolos quando lhes conferiu o seu Espírito.

A HIERARQUIA. — Contemplemos com amor esta escala luminosa da Santa Hierarquia que Jesus ergueu para conduzir-nos ao céu. No cume, dominando os outros degraus, resplandece o Episcopado, que contém em si mesmo a plenitude da Ordem, com a fecundidade para produzir novos Pontífices, novos Sacerdotes e novos Diáconos. O poder de oferecer o Sacrifício reside nele; em suas mãos repousam as chaves para abrir e fechar o céu; tem poder sobre todos os Sacramentos; pertencem-lhe a consagração do crisma e do óleo santo; e não somente abençoa, mas consagra.

Abaixo dele aparece o Sacerdote, que é seu filho, gerado pela imposição de suas mãos; o sacerdote, cujo caráter é tão augusto, mas que, contudo, não possui a plenitude do Homem-Deus. Suas mãos — por santas que sejam — não receberam a fecundidade para produzir outros sacerdotes; abençoa, mas não consagra; recebe do Bispo o sagrado Crisma, que ele é incapaz de confeccionar. Contudo, sua dignidade é grande, porque nele reside o poder de oferecer o Sacrifício, e sua Hóstia divina é a mesma do Pontífice. Perdoa os pecados aos fiéis que o Pontífice colocou sob seus cuidados. Está-lhe confiada a administração solene do Batismo, quando o Bispo não a exerce por si mesmo, e a Extrema-Unção lhe compete de modo próprio.

O grau inferior é o do Diácono, que é o ajudante do sacerdote, conforme à significação do seu nome. Não tendo o sacerdócio, não pode oferecer o sacrifício, não pode perdoar os pecados, não pode dar a Unção aos moribundos; mas assiste e serve ao sacerdote no altar e penetra até a nuvem misteriosa em que se realiza o augusto mistério. Os fiéis o ouvem ler solenemente o santo Evangelho da eminência do ambão. Está confiada à sua guarda a Sagrada Eucaristia e poderia, na falta do sacerdote, distribuí-la ao povo. No mesmo caso, poderia administrar solenemente o Batismo; recebeu o poder de anunciar ao povo a divina palavra.

Estes são os três graus da Hierarquia da Ordem, correspondendo, segundo a doutrina de Dionísio Areopagita, aos três graus pelos quais o homem chega a unir-se com Deus: a purificação, a iluminação e a perfeição. Ao Diácono compete preparar o catecúmeno e o pecador, instruindo-os na divina palavra, que os libertará dos erros do espírito e lhes fará conceber o arrependimento de suas faltas com o desejo de delas se verem livres; ao sacerdote compete iluminar essas almas, torná-las luminosas para o Batismo, para a remissão dos pecados, para a participação na Hóstia sagrada; ao Bispo, derramar nelas os dons do Espírito Santo e elevá-las, pela contemplação daquilo que ele é em si mesmo, até a união com Jesus Cristo, de quem possui o caráter completo de Pontífice. Este é o Sacramento da Ordem, meio essencial de salvação para os homens, canal essencial das graças da Encarnação, e que perpetua sobre a terra a presença e a ação do Redentor.

Demos graças a Jesus por este benefício e honremos, como o tesouro da terra, este novo Sacerdócio que Ele inaugurou em si mesmo e que depois confia aos homens encarregados de continuar em sua plenitude a missão que o Pai lhe havia dado. A ação sacramental é o grande motor do mundo; ela está nas mãos do Sacerdote. Rezemos por aqueles que são estabelecidos nestes graus temíveis; porque estes graus são plenamente divinos, e aqueles que os ocupam não passam de homens. Não formam uma tribo, uma linhagem, como o sacerdócio da antiga Aliança; a imposição das mãos os gera em toda raça, em qualquer família; e, inferiores aos Anjos por natureza, são superiores a eles por suas funções.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *