Quarta-Feira da III semana depois da Páscoa
QUARTA-FEIRA
DA III SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA
A HUMILDADE E A FÉ DIANTE DA PREGAÇÃO APOSTÓLICA. — Acabamos de ouvi-Lo: o Filho de Deus, ao dispor-Se a ir para o Pai, disse a seus Apóstolos: “Ide, ensinai todas as nações; pregai o Evangelho a toda criatura”. Assim, as nações não ouvirão a palavra imediata do Homem-Deus; Ele nos falará por meio de intérpretes. A glória e a felicidade de ouvi-Lo diretamente foram reservadas a Israel; e até mesmo a pregação de Jesus não durou mais que três anos. O ímpio disse em seu orgulho: “Por que homens entre Deus e eu?”. Deus poderia responder-lhe: “Com que direito querias tu obrigar-Me a falar-te Eu mesmo, quando podes estar tão seguro de minha palavra como se a tivesses ouvido?”. Deveria, pois, o Filho de Deus permanecer na terra até o fim dos séculos, para conquistar a obediência de nossa razão aos seus ensinamentos? Aquele que medir a distância que separa o Criador da criatura horrorizá-se-á de semelhante blasfêmia. “Se recebemos o testemunho dos homens, não é o testemunho de Deus ainda mais digno de nosso respeito?” (São João, V, 9). Há testemunho humano como o dos Apóstolos, que se apresentam aos homens e lhes oferecem como garantia de sua veracidade o poder que seu Mestre lhes deixou sobre a natureza, que só obedece a Deus? Mas o orgulho da razão pode rebelar-se, pode discutir e recusar crer nos homens que falam em nome de Deus. Quem duvida disso? O Filho de Deus vivo não encontrou mais incrédulos do que crentes? Por quê? Porque Se dizia Deus e não mostrava senão aparências humanas. Era preciso, pois, fazer um ato de fé n’Ele quando o próprio Jesus falava; o orgulho podia, pois, rebelar-se e dizer: “Não crerei”, do mesmo modo como o dirá quando os Apóstolos falarem em nome de seu Mestre.
A explicação é a mesma. Deus exige de nós, nesta vida, a fé; mas a fé não é possível senão com a humildade. Deus apoia sua palavra com o milagre; mas sempre é possível ao homem resistir; e eis por que a fé é virtude.
Se alguém perguntasse por que Deus, ao retirar o seu Filho da terra, não encarregou os Anjos de exercer aqui embaixo a função de doutores em seu nome, em vez de confiar a homens frágeis e mortais tão alta missão em relação aos seus semelhantes, poder-se-ia responder-lhe que, não podendo o homem ser levantado da queda a que seu orgulho o conduzira senão pela submissão e pela humildade, era justo que o ministério do ensinamento divino nos fosse dispensado por órgãos cuja natureza, não sendo superior à nossa, não estivesse em condição de adular a nossa vaidade. Fiando-nos na palavra da serpente, tivemos o orgulho de crer que nos era possível chegar a ser como deuses; o Criador, para salvar-nos, deu-nos a lei de nos submetermos doravante aos homens que falam em seu nome.
Esses homens “pregarão, pois, o Evangelho a toda criatura”, e “aquele que não crer será condenado”. Ó palavra divina, semente maravilhosa confiada ao campo da Igreja, quão fecunda és! Dentro de pouco tempo a messe branquejará no campo. A fé estará por toda parte; em toda parte encontrar-se-ão fiéis. E como acolheram a fé? “Pelo ouvido”, responde-nos o grande Apóstolo das gentes (Rom., X, 17). Escutaram a palavra e creram. Ó dignidade e superioridade do ouvido durante a nossa vida mortal! Escutai, a este respeito, a linguagem admirável de São Bernardo; ninguém expôs melhor do que ele, neste mundo, o destino desse nosso sentido privilegiado.
“À primeira vista pareceria mais digno que a verdade entrasse em nossa alma pela vista, que é o sentido mais nobre; mas Deus reservou isso para a outra vida, quando O veremos face a face, dispondo sabiamente que agora entre o remédio por onde entrou o mal e que nos venha a vida pelos passos da própria morte; que a luz nos venha pelas trevas e o antídoto da verdade pelo caminho que seguiu o veneno da serpente. Assim, o olho enfermo será curado. O ouvido foi a primeira porta por onde entrou a morte, e deve ser o primeiro a abrir-se para dar passagem à vida. Compete, por sua vez, ao ouvido dispor para a vista; porque, se não começarmos por crer, não poderemos compreender. Porque, se não crermos nos mistérios, não os compreenderemos depois. Vê-se, pois, que o ouvido é meio indispensável para alcançar o mérito, e a visão será a recompensa… E, para que saibas que o Espírito Santo observa também essa ordem no progresso da alma e que a forma pelo ouvido antes de alegrá-la com a visão: ‘Ouve — diz —, filha, e vê’; como se dissesse: por que te preocupas com os olhos? Melhor te fora preparar os teus ouvidos. Desejas ver a Cristo? Pois deves primeiro escutar o que Ele diz, escutar o que se diz d’Ele, a fim de que, quando O vires, possas dizer: ‘Como ouvimos, assim vimos’. Sua claridade deslumbra; tua vista é débil, e não poderás suportá-la. Podeis, sim, falar dela, mas vê-la, não… Que a alma seja piedosa, fiel e vigilante; a fé purificará as manchas da impiedade, e a obediência abrirá a porta que a desobediência fechou”.


