Oratório São José

Terça-Feira da III semana depois da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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TERÇA-FEIRA
DA
III SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA

O MILAGRE. — A palavra divina impõe a fé à criatura que a escuta; mas essa palavra não se revela sem vir acompanhada de todos os sinais que demonstram sua procedência divina. Jesus não Se chamou Filho de Deus sem provar que o era verdadeiramente; não exigiu fé em sua palavra sem garanti-la com um argumento irrefragável. Esse argumento é o milagre: o milagre pelo qual Deus dá testemunho de Si mesmo. Quando o milagre acontece, o homem presta atenção; pois sabe que somente a vontade do Criador pode derrogar as leis sobre as quais se fundamenta a natureza. Se Deus declara sua vontade depois do milagre, tem direito à obediência do homem. Israel sentiu que Deus o conduzia quando o mar se abriu para lhe dar passagem, ao estender Moisés a mão sobre as águas.

Assim, pois, Jesus, “autor e consumador de nossa fé”, não exigiu nossa crença nas verdades que vinha trazer-nos senão depois de testemunhar com milagres sua missão divina. “As obras que faço — dizia — dão testemunho de mim; se não quereis crer em mim, crede em minhas obras” (São João, V, 36; X, 38).

Quer-se saber quais são as obras cuja autoridade invoca desse modo? João envia-Lhe a pergunta: “Sois Vós aquele que deve vir, ou devemos esperar outro?”. Em resposta, Jesus diz aos enviados: “Ide e dizei a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (São Lucas, VII, 22).

Tal é o fundamento de nossa fé. Jesus agiu como Senhor da natureza e, depois de mostrar-Se Filho de Deus em suas obras, exigiu que O reconhecêssemos como tal em suas palavras. Oh! quão “crível é o seu testemunho”! (Sl. XCII). Em quem creremos, se não crermos n’Ele? E que responsabilidade para os que se recusarem a crer! Escutemo-Lo quando fala àqueles espíritos soberbos que, à vista de seus milagres, não se fizeram dóceis aos seus ensinamentos: “Se eu não tivesse feito entre eles obras que ninguém jamais fez, não teriam pecado” (São João, XV, 24). Sua incredulidade os perdeu; mas essa incredulidade tornou-se manifesta quando, sendo testemunhas dos milagres realizados diante de seus olhos, por exemplo, a ressurreição de Lázaro, renegaram Aquele cuja divindade tais obras testemunhavam.

O TESTEMUNHO DA HISTÓRIA. — Mas Jesus ressuscitado está para subir ao céu dentro de alguns dias; os milagres que operava deixarão de realizar-se na terra. Sua palavra, objeto de nossa fé, ficará, pois, sem testemunho? Não se deve pensar tal coisa. Não sabemos acaso que os monumentos da história, quando certos e comprovados, trazem tanta luz ao nosso espírito acerca dos fatos acontecidos longe de nosso tempo, como se esses fatos tivessem ocorrido diante de nossos olhos? Não é uma das leis de nossa inteligência, um dos fundamentos de nossa certeza racional, assentir ao testemunho de nossos semelhantes, quando reconhecemos com evidência que não foram nem enganadores nem enganados? Os prodígios realizados por Jesus, em confirmação da doutrina que veio impor à nossa crença, chegarão até a última geração humana rodeados de uma certeza superior àquela que garante os fatos mais incontestáveis da história, fatos sobre os quais ninguém ousaria duvidar sem passar por insensato. Não teremos sido testemunhas dessas maravilhas; mas elas estarão de tal modo asseguradas que a adesão de nossa fé as seguirá com a mesma certeza, com a mesma docilidade, como se tivéssemos assistido às cenas do Evangelho.

A PERPETUIDADE DO MILAGRE. — Contudo, Jesus, que nada estima tanto quanto a certeza de seus milagres, quer fazer ainda mais em favor de nossa fé, da qual o milagre é o fundamento. Vai perpetuar o milagre na terra por meio de seus discípulos, para que nossa fé se fortaleça sem cessar em sua divina fonte. Nestes dias que comemoramos, cercado de seus Apóstolos, indica-lhes nestes termos a sua missão: “Ide — lhes diz — por todo o mundo; pregai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo; aquele que não crer será condenado” (São Marcos, XVI, 15). Mas em que se apoia essa fé? Já o dissemos; porém, isso não é tudo. Escutai-O logo em seguida: “Eis — continua Jesus — os prodígios que acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, dominarão serpentes; se beberem algum veneno, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os enfermos, e os enfermos ficarão curados” (São Marcos, XVI, 17). Eis, pois, o poder dos milagres confiado aos discípulos de Jesus.

Postos para exigir a fé divina dos que os ouvirem, estão já dotados de um poder sobre a natureza que os mostrará aos homens como enviados do Onipotente. Sua palavra já não será, doravante, sua palavra, mas a de Deus; serão os intermediários entre o Verbo encarnado e os homens; mas nossa fé não se deterá neles: elevar-se-á até Aquele que os enviou e que os autentica diante de nós pelo mesmo meio de que Se serviu para autenticar-Se a Si mesmo.

Isso ainda não é tudo. Ponderai as palavras do Salvador e observai que o dom dos milagres que lhes concede não se detém neles. Sem dúvida, a história está aí para assegurar-nos que Jesus foi fiel à sua promessa e que os Apóstolos, ao reclamar a fé dos povos nos dogmas que lhes propunham, justificaram sua missão com toda sorte de prodígios; mas o divino Ressuscitado prometeu mais. Não disse: “Eis os prodígios que acompanharão os meus Apóstolos”; mas: “Eis os prodígios que acompanharão os que crerem”. Assegurava à sua Igreja, por essas palavras, o dom dos milagres até o fim; fazia desse dom um dos principais caracteres, um dos fundamentos de nossa fé. Antes de sua Paixão, chegou a dizer: “Aquele que crer em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores” (São João, XIV, 12).

Nestes dias, põe a sua Igreja na posse dessa nobre prerrogativa; e, desde então, não deveríamos surpreender-nos de ver seus santos operarem por vezes maravilhas mais assombrosas do que as que Ele mesmo operou. Compromete-Se a isso e empenhou a sua palavra. Tanto estima que a fé que procede do milagre se mantenha, se alimente e frutifique em sua Igreja! Longe, pois, de todo filho da Igreja, o temor, o embaraço ou a indiferença que alguns demonstram quando se deparam com um fato milagroso. Uma só coisa deve preocupar-nos: o valor das testemunhas. Se são sinceras e esclarecidas, o verdadeiro católico se inclina com alegria e gratidão; dá graças a Jesus, que Se dignou lembrar-Se de sua promessa e que vela do alto do céu pela conservação da fé.

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