História do Tempo Pascal
História do Tempo Pascal
DEFINIÇÃO DO TEMPO PASCAL. — Dá-se o nome de Tempo Pascal ao período de semanas que decorre desde o Domingo de Páscoa até o sábado depois de Pentecostes. Esta parte do Ano litúrgico é a mais sagrada, aquela para a qual converge todo o ciclo. Compreender-se-á isto facilmente, se se considerar a grandeza da festa da Páscoa, que a antiguidade cristã embelezou com o nome de Festa das festas, Solenidade das solenidades, à maneira — diz-nos o Papa São Gregório em sua homilia sobre este grande dia — do que havia de mais augusto no Santuário, chamado o Santo dos Santos, e do Cântico dos cânticos, nome dado ao sublime epitalâmio do Filho de Deus que se une à Santa Igreja. Certamente, é no dia da Páscoa que a missão do Verbo encarnado alcança o fim que até então vinha desejando ardentemente.
CRISTO VENCEDOR. — O Natal nos havia dado um Homem-Deus; há três dias recolhemos o seu Sangue, de preço infinito, para o nosso resgate. Mas no dia da Páscoa já não contemplamos uma vítima imolada e vencida pela morte; contemplamos um vencedor que aniquila a morte, filha do pecado, e proclama a vida, a vida imortal que nos conquistou. Já não é a humildade dos panos, nem as dores da agonia e da Cruz; é a glória, primeiro para Ele, depois para nós. No dia da Páscoa, Deus recupera, no Homem-Deus ressuscitado, a sua obra primeira: a passagem pela morte não deixou nele vestígio algum, assim como tampouco o deixara o pecado, cuja semelhança se dignara assumir o Cordeiro divino; e não é somente Ele quem volta à vida imortal: é todo o gênero humano. “Assim como por um homem veio a morte ao mundo — diz-nos o Apóstolo —, por um homem deve vir também a ressurreição dos mortos. E assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados.”
1 Cor 15, 21-22.
A PREPARAÇÃO DA PÁSCOA. — Assim, pois, o aniversário deste acontecimento constitui, a cada ano, o grande dia, o dia da alegria, o dia por excelência; para ele converge todo o Ano litúrgico e sobre ele está fundado. Mas, como este dia é santo entre todos, já que nos abre as portas da vida celeste, onde entraremos ressuscitados como Cristo, a Igreja não quis que ele brilhasse sobre nós antes que tivéssemos purificado os nossos corpos pelo jejum e corrigido as nossas almas pela compunção. Com este fim instituiu a penitência quaresmal, e também nos advertiu desde a Septuagésima que havia chegado o tempo de aspirar às serenas alegrias da Páscoa e de nos dispormos aos sentimentos que a sua vinda deve despertar. Já terminamos esta preparação, e o Sol da Ressurreição se eleva sobre nós.
SANTIDADE DO DOMINGO. — Mas não basta festejar o dia solene que contemplou Cristo-Luz fugir das sombras do sepulcro; a outro aniversário devemos tributar o culto da nossa gratidão. O Verbo encarnado ressuscitou no primeiro dia da semana, o dia em que o Verbo incriado do Pai havia começado a obra da criação, ao tirar a luz do seio do caos e separá-la das trevas, inaugurando assim o primeiro dos dias. Portanto, na Páscoa o nosso divino Ressuscitado santifica pela segunda vez o domingo, e desde então o sábado deixa de ser o dia sagrado. A nossa ressurreição em Jesus Cristo, realizada no domingo, completa a glória deste primeiro dos dias; o preceito divino do sábado é abolido juntamente com toda a lei mosaica; e os Apóstolos mandarão doravante a todo fiel celebrar como dia sagrado o primeiro dia da semana, no qual a glória da primeira criação se une à da regeneração divina.
DATA DA FESTA DA PÁSCOA. — A ressurreição do Homem-Deus, realizada no domingo, exigia que não se a solenizasse anualmente em outro dia da semana. Daí a necessidade de separar a Páscoa dos cristãos da dos judeus, que, fixada de modo irrevogável no décimo quarto dia da lua de março, aniversário da saída do Egito, caía sucessivamente em cada um dos dias da semana. Essa Páscoa não era senão uma figura; a nossa é a realidade, diante da qual a sombra desaparece. Era necessário, pois, que a Igreja rompesse este último laço com a sinagoga e proclamasse a sua emancipação celebrando a mais solene das festas num dia que jamais coincidisse com aquele em que os judeus celebrassem a sua Páscoa, doravante estéril de esperanças. Os Apóstolos determinaram que desde então a Páscoa dos cristãos não seria mais no décimo quarto dia da lua de março, ainda que esse dia caísse em domingo, mas que se celebraria em todo o universo no domingo seguinte ao dia em que o calendário caducado da sinagoga continuava a fixá-la.
Contudo, em consideração ao grande número de judeus que haviam recebido o batismo e que formavam então o núcleo da Igreja cristã, para não ferir a sua sensibilidade, determinou-se que se aplicasse com prudência e paulatinamente a lei relativa ao dia da nova Páscoa. Além disso, Jerusalém não tardaria a sucumbir sob as águias romanas, segundo o vaticínio do Salvador; e a nova cidade que se ergueria sobre as suas ruínas e abrigaria a colônia cristã teria também a sua Igreja, mas uma Igreja completamente desligada do elemento judaico, que a justiça divina havia visivelmente reprovado naqueles mesmos lugares. A maior parte dos Apóstolos não teve de lutar contra os costumes judaicos em suas pregações em terras distantes, nem na fundação das Igrejas que estabeleceram em tantas regiões, mesmo fora dos limites do império romano; suas principais conquistas se davam entre os gentios. A Igreja de Roma, que chegaria a ser Mãe e Mestra de todas as demais, jamais conheceu outra Páscoa senão aquela que une ao domingo a lembrança do primeiro dia do mundo e a memória da gloriosa ressurreição do Filho de Deus e de todos nós, que somos seus membros.
O COSTUME DA ÁSIA MENOR. — Uma só província da Igreja, a Ásia Menor, recusou durante muito tempo associar-se a este acordo. São João, que passou muitos anos em Éfeso e ali terminou a sua vida, julgou não dever exigir dos numerosos cristãos que, vindos das sinagogas, haviam passado para a Igreja naquelas regiões, a renúncia ao costume judaico na celebração da Páscoa; e os fiéis saídos da gentilidade, que vieram aumentar a população daquelas florescentes cristandades, chegaram a apaixonar-se em excesso pela defesa de um costume que remontava às origens da Igreja da Ásia Menor. Como consequência, com o correr dos anos, esta anomalia degenerava em escândalo; ali respiravam-se eflúvios judaizantes, e a unidade do culto cristão sofria uma divergência que impedia os fiéis de viverem unidos nas alegrias da Páscoa e nas santas tristezas que a precedem.
O Papa São Vítor, que governou a Igreja desde o ano 185, aplicou todo o seu zelo contra esse abuso e julgou que havia chegado o momento de fazer triunfar a unidade exterior num ponto tão essencial e tão central do culto cristão. Anteriormente, com o Papa São Aniceto, por volta do ano 150, a Sé Apostólica havia tentado, por meio de negociações amistosas, atrair as Igrejas da Ásia Menor à prática universal; não foi possível triunfar sobre um preconceito fundado numa tradição considerada inviolável naquelas regiões. São Vítor acreditou que teria mais êxito do que os seus predecessores; e, a fim de influir sobre os asiáticos pelo testemunho unânime de todas as Igrejas, ordenou que se reunissem concílios nos diversos países em que o Evangelho havia penetrado e que se examinasse neles a questão da Páscoa. A unanimidade foi perfeita em toda parte; e o historiador Eusébio, que escrevia século e meio depois, atesta que ainda no seu tempo se conservava a lembrança das decisões que haviam tomado, nessa investigação, além do concílio de Roma, os da Gália, da Acaia, do Ponto, da Palestina e de Osroena, na Mesopotâmia. Somente o concílio de Éfeso, presidido por Polícrates, bispo daquela cidade, resistiu às insinuações do Pontífice e ao exemplo da Igreja Universal.
São Vítor, julgando que essa oposição não podia ser tolerada por mais tempo, publicou uma sentença pela qual separava da comunhão da Santa Sé as Igrejas refratárias da Ásia Menor. Essa pena severa, que não se impunha por parte de Roma senão depois de prolongadas insistências destinadas a extirpar os preconceitos asiáticos, despertou a compaixão de muitos bispos. Santo Irineu, que então ocupava a sé de Lião, intercedeu junto do Papa em favor dessas Igrejas, que não haviam pecado, segundo ele, senão por falta de esclarecimento; e obteve a revogação de uma medida cujo rigor parecia desproporcionado à falta. Essa indulgência produziu o seu efeito: no século seguinte, Santo Anatólio, bispo de Laodiceia, atesta em seu livro sobre a Páscoa, escrito em 276, que as Igrejas da Ásia Menor se haviam adaptado finalmente, já há algum tempo, à prática romana.
A OBRA DO CONCÍLIO DE NICEIA. — Por uma coincidência estranha, aproximadamente na mesma época, as Igrejas da Síria, da Cilícia e da Mesopotâmia deram o escândalo de uma nova desavença na celebração da Páscoa. Deixaram o costume cristão e apostólico para adotar o rito judaico do décimo quarto dia da lua de março. Esse cisma na liturgia afligiu a Igreja; e um dos primeiros cuidados do concílio de Niceia foi promulgar a obrigação universal de celebrar a Páscoa no domingo. O decreto restabeleceu a unanimidade; e os Padres do concílio ordenaram “que sem controvérsia os irmãos do Oriente solenizassem a Páscoa no mesmo dia que os romanos, os alexandrinos e todos os demais fiéis”.1 A questão parecia tão grave, por sua conexão com a própria essência da liturgia cristã, que Santo Atanásio, resumindo as razões que haviam motivado a convocação do concílio de Niceia, aponta como motivos de sua reunião a condenação da heresia ariana e o restabelecimento da união na solenidade da Páscoa2.
O concílio de Niceia regulamentou também que o bispo de Alexandria fosse encarregado de mandar fazer os cálculos astronômicos que ajudassem, a cada ano, a determinar o dia preciso da Páscoa, e que enviasse ao Papa o resultado das descobertas realizadas pelos sábios daquela cidade, tidos por os mais seguros em seus cálculos. O Pontífice romano dirigiria depois a todas as Igrejas cartas intimando a celebração uniforme da magna festa do cristianismo. Desta maneira, a unidade da Igreja tornava-se visível pela unidade da liturgia; e a Sé Apostólica, fundamento da primeira, era ao mesmo tempo o meio da segunda.
Além disso, já antes do concílio de Niceia o Pontífice romano tinha por costume dirigir todos os anos a todas as Igrejas uma encíclica pascal na qual indicava o dia em que deveria celebrar-se a solenidade da Ressurreição. É o que nos mostra a carta sinodal dos Padres do concílio de Arles, em 314, dirigida ao papa São Silvestre. “Antes de tudo — dizem os Padres — pedimos que a observância da Páscoa do Senhor seja uniforme quanto ao tempo e quanto ao dia em todo o mundo, e que dirijais a todos cartas para este fim, segundo o costume.” 3
Contudo, este uso não perseverou por muito tempo depois do concílio de Niceia. A carência de meios astronômicos acarretava perturbações na maneira de calcular o dia da Páscoa. É verdade que essa festa ficou definitivamente fixada no domingo; nenhuma Igreja ousou dali em diante celebrá-la no mesmo dia que os judeus; mas, por se desconhecer a data precisa do equinócio da primavera, acontecia que o dia próprio da solenidade variava em alguns anos segundo os lugares. Pouco a pouco foi-se abandonando a regra dada pelo concílio de Niceia de considerar o dia 21 de março como o dia do equinócio. O calendário exigia uma reforma que ninguém estava preparado para realizar; multiplicavam-se calendários contraditórios entre si, de maneira que Roma e Alexandria nem sempre chegavam a entender-se. Por esse motivo, de tempos em tempos a Páscoa foi celebrada sem a unanimidade absoluta que o concílio de Niceia procurara; mas procedia-se de boa-fé de ambas as partes.
A REFORMA DO CALENDÁRIO. — O Ocidente agrupou-se em torno de Roma, que acabou triunfando sobre algumas oposições na Escócia e na Irlanda, cujas Igrejas se haviam deixado extraviar por ciclos errôneos. Finalmente, a ciência fez progressos consideráveis no século XVI e permitiu a Gregório XIII empreender e concluir a reforma do calendário. Tratava-se de restabelecer o equinócio em 21 de março, conforme a disposição do concílio de Niceia. Por uma bula de 24 de fevereiro de 1581, o Pontífice tomou essa medida suprimindo dez dias do ano seguinte, de 4 a 15 de outubro; desse modo restabelecia a obra de Júlio César, que em seu tempo também havia tomado medidas acertadas quanto aos cálculos astronômicos. Mas a Páscoa era a ideia fundamental e o fim da reforma implantada por Gregório XIII. As lembranças do concílio de Niceia e as suas normas dominavam sempre esta questão capital do Ano litúrgico; e assim, mais uma vez, o Romano Pontífice assinalava a celebração da Páscoa ao universo, não só para um ano, mas para longos séculos.
As nações hereges experimentaram, a seu pesar, a autoridade divina da Igreja nessa promulgação solene que influía ao mesmo tempo na vida religiosa e na vida civil; e protestaram contra o calendário como haviam protestado contra a regra da fé. A Inglaterra e os Estados luteranos da Alemanha preferiram conservar ainda por muito tempo o calendário errôneo que a ciência rejeitava, antes que aceitar das mãos de um Papa uma reforma reconhecida pelo mundo como indispensável. Hoje é a Rússia a única nação europeia que, por ódio à Roma de São Pedro, persiste em conservar o seu calendário atrasado dez ou doze dias em relação ao que se usa no mundo civilizado.
FATOS MILAGROSOS. — Todos estes pormenores, que damos em síntese, mostram a grande importância que tem a data da festividade da Páscoa; e o céu manifestou mais de uma vez, por meio de prodígios, que esta sagrada data não lhe era indiferente. Na época em que a confusão dos ciclos e a imperfeição dos meios astronômicos lançavam tanta incerteza sobre a data exata do equinócio da primavera, em certas ocasiões os fatos milagrosos supriram as indicações que nem a ciência nem a autoridade podiam fornecer com certeza.
Pascasino, bispo de Lilibeu, na Sicília, atesta em carta dirigida a São Leão Magno, em 444, que, no pontificado de São Zósimo, sendo cônsul Honório pela décima primeira vez e Constâncio pela segunda, uma intervenção celeste veio revelar o autêntico dia da Páscoa numa povoação humilde e religiosa. Num lugar esquecido da Sicília escondia-se entre montanhas inacessíveis e densos bosques uma aldeia chamada Meltina. A sua igreja era das mais pobres, mas Deus abaixou-se até ela em sua bondade; porque cada ano, durante a noite pascal, no momento em que o sacerdote se dirigia ao batistério para benzer a água, a fonte sagrada encontrava-se milagrosamente cheia, sem que houvesse canal algum nem outra fonte próxima que a alimentasse. Terminada a administração do batismo, a água desaparecia por si mesma e a pia ficava seca. Ora, sucedeu no referido ano que, tendo-se reunido o povo durante a noite que, enganado por um falso cálculo, julgava ser a da Páscoa, quando, acabada a leitura das profecias, o sacerdote foi com seus fiéis ao batistério, viu-se a pia seca, sem água. Os catecúmenos esperaram em vão a presença do líquido pelo qual lhes devia ser conferida a regeneração, e retiraram-se ao amanhecer. No dia 22 de abril seguinte, o décimo antes das calendas de maio, a fonte apareceu cheia até as bordas, atestando que aquele dia era a verdadeira Páscoa daquele ano.
Cassiodoro, escrevendo em nome do rei Atalarico a uma personagem chamada Severo, refere outro prodígio que se realizava anualmente com o mesmo fim, na noite de Páscoa, na Lucânia, perto da pequena ilha de Leucoteia, num lugar chamado Marcilianum. Havia ali uma grande fonte escolhida para a administração do batismo na noite pascal. Mal o sacerdote havia começado as solenes preces da bênção sob a abóbada natural que cobria a referida fonte, a água, como querendo participar dos transportes da alegria pascal, cresceu no tanque; de modo que, se antes se elevava até o quinto degrau, agora via-se subir até o sétimo, como antecipando-se às maravilhas da graça, da qual ela seria instrumento; mostrando Deus, desse modo, que até a natureza insensível pode associar-se, quando Ele o permite, às santas alegrias do maior dos dias do ano4.
São Gregório de Tours fala de uma fonte que existia em seu tempo numa certa igreja da Andaluzia, num lugar chamado Osen, na qual ocorria um fato milagroso que também servia para comprovar o verdadeiro dia da Páscoa. Todos os anos o bispo se dirigia com seu povo a essa igreja na Quinta-feira Santa. O seio da fonte tinha forma de cruz e era adornado de mosaicos. Verificava-se se estava inteiramente seca; e, depois de algumas preces, todos saíam da igreja, e o bispo selava a porta com o seu selo. No Sábado Santo o bispo voltava cercado de seu povo; abriam-se as portas depois de se haver verificado a integridade do selo, e, ao entrar no recinto sagrado, contemplavam a fonte cheia de água até acima da superfície do chão, sem jamais transbordar. O bispo pronunciava os exorcismos sobre aquela água milagrosa e derramava sobre ela o crisma. Depois batizavam-se os catecúmenos; e, quando o sacramento havia sido conferido a todos, a água desaparecia imediatamente, sem que se soubesse para onde ia5.
Também os cristãos do Oriente foram testemunhas de prodígios semelhantes. João Mosco fala, no século VII, de uma fonte batismal da Lícia que se enchia de água todos os anos na vigília da festa da Páscoa; mas permanecia cheia durante os cinquenta dias completos e se esgotava de repente depois da festa de Pentecostes6.
Na História do Tempo da Paixão recordamos as leis dos imperadores cristãos que proibiam os processos civis e criminais durante todo o curso da quinzena pascal, isto é, desde o Domingo de Ramos até a oitava da Ressurreição. Santo Agostinho, num sermão pronunciado nesta oitava, exorta os fiéis a estender a todo o resto do ano a suspensão dos processos, querelas e inimizades, que a lei civil queria suspender ao menos durante esses quinze dias.
O DEVER DA COMUNHÃO. — A Igreja impõe a todos os seus filhos a obrigação de receber a Sagrada Eucaristia em tempo pascal; e este dever se funda na intenção do Salvador, que, embora não tenha fixado por si mesmo a época do ano em que os cristãos deviam aproximar-se deste augusto sacramento, deixou à sua Igreja o cuidado e a obrigação de determiná-la. Nos primeiros séculos, a comunhão era frequente, e até diária, segundo os lugares. Mais tarde, os fiéis esfriaram em relação a este divino mistério; e vemos, segundo o cânon 18 do concílio de Agde, em 506, que nas Gálias muitos cristãos haviam decaído do seu primitivo fervor. Declarou-se então que os leigos que não comungassem no Natal, na Páscoa e em Pentecostes não seriam considerados católicos.
Essa disposição do concílio de Agde foi adotada como lei quase geral na Igreja do Ocidente. Encontramo-la noutros lugares nos regulamentos de Egberto, arcebispo de York, e no terceiro concílio de Tours. Contudo, em diversos lugares vemos prescrita a comunhão para os domingos da Quaresma, para os três últimos dias da Semana Santa e para a festa da Páscoa.
No começo do século XIII, no IV concílio geral de Latrão, em 1215, a Igreja, considerando a tibieza que invadia constantemente a sociedade, determinou, muito a seu pesar, que os cristãos não estariam estritamente obrigados a fazer mais do que uma só comunhão por ano, e que essa comunhão se faria na Páscoa. A fim de fazer compreender aos fiéis que esta condescendência é o limite máximo que pode conceder-se à sua negligência, o santo concílio declara que àquele que ousar infringir esta lei poderá ser proibida a entrada na igreja durante toda a sua vida, e ser-lhe negada a sepultura eclesiástica depois de sua morte, como se ele mesmo houvesse renunciado ao vínculo exterior da unidade católica7.
Mais tarde, o papa Eugênio IV, na constituição Fide digna, dada no ano de 1440, declarou que esta comunhão anual podia fazer-se desde o Domingo de Ramos até o Domingo de Quasimodo, inclusive.
Estas disposições de um concílio ecumênico mostram a grande importância do dever que com elas se sancionava; ao mesmo tempo, fazem-nos avaliar com dor o lamentável estado de uma nação católica onde milhões de cristãos desafiam, todos os anos, as ameaças da Igreja, sua Mãe, recusando submeter-se a um dever cujo cumprimento constitui a vida de suas almas, ao mesmo tempo em que é a profissão essencial de sua fé. E quando se torna necessário também excluir do número dos que não se mostram surdos à voz da Igreja e vêm sentar-se ao banquete pascal aqueles para os quais a penitência quaresmal é como se não existisse, é preciso temer e inquietar-se quanto ao destino desse povo, se alguns indícios não vierem de tempos em tempos levantar as esperanças e prometer um futuro de gerações mais cristãs do que a nossa.
RITOS LITÚRGICOS. — O período de cinquenta dias que separa a festa da Páscoa da de Pentecostes foi constantemente objeto de respeito particular na Igreja. A primeira semana, consagrada principalmente aos mistérios da Ressurreição, devia ser celebrada com esplendor especial; mas o restante dos cinquenta dias não deixou de ter também as suas honras. Além da alegria que distingue toda esta parte do ano, e cuja expressão é o Aleluia, a tradição cristã atribui dois usos ao Tempo Pascal que o diferenciam do restante do ano.
O primeiro é a abolição do jejum durante os quarenta dias: é a ampliação do antigo preceito que proíbe o jejum aos domingos; todo este gozoso período devia ser considerado como um só e único domingo. As Regras religiosas, até mesmo as mais austeras, do Oriente e do Ocidente aceitaram esta prática.
A outra prática especial, que se conservou literalmente na Igreja do Oriente, consiste em não dobrar os joelhos nos ofícios de Páscoa a Pentecostes. Os nossos usos ocidentais modificaram este costume, que foi observado entre nós durante muitos séculos. A Igreja latina admitiu, depois de muito tempo, a genuflexão na Missa durante o Tempo Pascal; e os únicos vestígios que conservou da antiga disciplina neste ponto tornaram-se quase imperceptíveis aos fiéis que não estão familiarizados com as rubricas do serviço divino.
Assim, pois, o Tempo Pascal é todo ele como uma festa continuada; já o proclamava Tertuliano no século III quando, ao repreender certos cristãos sensuais pelo sentimento que experimentavam de ter renunciado pelo seu batismo a tantas festas que abrilhantavam o ano pagão, lhes dizia: “Se amais as festas, também as encontrais entre nós: não festas de um só dia, mas de muitos. Entre os pagãos a festa celebra-se uma só vez por ano; para vós agora cada oito dias é festa. Reuni todas as solenidades dos gentios: não chegarão à cinquenta de nosso Pentecostes8.”
Santo Ambrósio, escrevendo aos fiéis sobre este mesmo tema, faz a seguinte observação: “Se os judeus, não contentes com o seu sábado semanal, celebram outro sábado que se prolonga por todo um ano, quanto mais devemos nós fazer para honrar a Ressurreição do Senhor! Por isso nos ensinaram a celebrar os cinquenta dias de Pentecostes como parte integrante da Páscoa. São sete semanas completas, e a festa de Pentecostes dá começo à oitava semana. Durante esses cinquenta dias a Igreja suspende o jejum, como no domingo em que o Senhor ressuscitou; e todos esses dias são como um só e mesmo domingo.9”
1 Spicilegium Solesmense, t. IV, p. 541.
2 Carta a los Obispos de Africa.
3 Conell. Galliae,
4 Casiodoro: Variarum, 1. VII, carta XXXIII.
5 La glória de los mártires, 1. I, c. XXIV.
6 El prado espiritual, c. CCXV.
7 Mais tarde, o Papa Eugênio IV, na constituição Fide dignía, promulgada em 1440, declarou que esta comunhão anual poderia ser recebida desde o Domingo de Ramos até o Domingo de Quasimodo, inclusive.
8 De idolatria c. XIV.
9 Comentário sobre São Lucas. 1. VIII, c. XXV.

