Oratório São José

Quarta-Feira da Septuagésima

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUARTA-FEIRA DA SEPTUAGÉSIMA

A SENTENÇA CONDENATÓRIA. — Comparecem os culpados diante do soberano Senhor a quem ultrajaram e, longe de confessar sua falta, procura cada um atribuí-la ao outro. A justiça divina virá a seu tempo, e a sentença ressoará até a mais longínqua posteridade humana.

O crime foi cometido por dois seres cumulados de todos os dons da natureza e da graça. A inclinação ao mal, a ignorância, a distração que obscurecem a inteligência do homem decaído, não existiam neles; uma atroz ingratidão os precipitou no mal. Tinham, logo de início, vacilado, quando deveriam vencer fugindo; pouco a pouco, o mal foi perdendo sua fealdade a seus olhos, e começaram a entrever o próprio interesse. Substituindo, por fim, com o amor de si mesmos aquele que deviam a Deus, quiseram declarar sua independência. O Senhor, contudo, teve compaixão deles em atenção à sua descendência.

Os anjos, criados todos em um mesmo instante, foram submetidos individualmente à prova que devia ser a condição de sua bem-aventurança eterna: cada um deles teve ocasião de escolher a fidelidade ou a rebelião, e eternamente cairá a maldição sobre os que se declararam contra Deus. A misericórdia divina, pelo contrário, digna-se resplandecer sobre a linhagem humana, contida inteira em nossos primeiros pais, e arrastada por eles e com eles ao abismo da reprovação.

Tríplice sentença sai da boca do Senhor; a mais severa é contra a serpente. A maldição que já a oprime é agravada, e o perdão prometido à humanidade será anunciado hoje em forma de anátema contra o espírito malvado que ousou perseguir o próprio Deus em sua obra.

A PROMESSA. — “Porei inimizade entre ti e a mulher, e ela te esmagará a cabeça.” Tal é a vingança de Deus contra seu inimigo. O troféu de que este se ufanava transforma-se em sua vergonha e proclama sua derrota. Como era astuto, não se lançou, de início, contra o homem; preferiu haver-se com um ser fraco e crédulo, esperando, ai!, com demasiado fundamento, que uma condescendência demasiado terna decidiria o homem a trair a Deus.

Mas eis que o próprio Senhor acende no coração da mulher um ódio implacável contra o inimigo d’Ele e nosso. Em vão levantará a serpente sua altaneira cabeça até conseguir a adoração dos homens; chegará um dia em que o pé de uma mulher esmagará essa cabeça que se recusou a dobrar-se diante de Deus. Essa filha de Eva, a quem todas as gerações proclamarão bem-aventurada, será, através dos séculos, figurada por outras mulheres: Débora, Judite, Ester, célebres por suas vitórias contra a serpente; será seguida, até o fim dos tempos, pelo séquito de virgens e esposas cristãs, que, em sua própria fraqueza, se mostrarão poderosas cooperadoras de Deus, de modo que “o homem infiel será santificado pela mulher fiel”1.

Assim Deus quebrantará o orgulho da serpente. Antes de pronunciar contra Adão e Eva a merecida sentença, declarou sua clemência para com a posteridade deles, e fez brilhar um doce raio de esperança em seus corações.


1. I Cor. 7, 14.

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