Oratório São José

Oitava da Epifania

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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13 DE JANEIRO

OITAVA DA EPIFANIA

O BATISMO DE CRISTO

Hoje ocupa de modo especial a atenção da Igreja o segundo Mistério da Epifania: o Mistério do Batismo de Cristo no Jordão. O Emanuel manifestou-Se aos Magos depois de Se ter mostrado aos pastores; mas esta manifestação ocorreu no estreito recinto de um estábulo de Belém, e os homens deste mundo não puderam conhecê-la. No Mistério do Jordão, Cristo Se manifesta com maior aparato. Sua vinda é anunciada pelo Precursor; a multidão que se comprime em torno do Batismo de água é testemunha do fato; Jesus vai começar sua vida pública. Mas quem será capaz de descrever a grandeza dos detalhes que acompanham esta segunda Epifania?

O MISTÉRIO DA ÁGUA

A segunda Epifania tem por objeto, assim como a primeira, o bem e a salvação do gênero humano; mas sigamos o curso dos Mistérios. A Estrela conduziu os Magos a Cristo; antes aguardavam, esperavam; agora creem. Começa no seio da gentilidade a fé no Messias. Mas não basta crer para salvar-se; é preciso lavar na água as manchas do pecado. “Quem crer e for batizado será salvo”¹: é, portanto, tempo de que ocorra uma nova manifestação do Filho de Deus, a fim de inaugurar o grande remédio que deve dar à Fé o poder de causar a vida eterna.

Ora, os desígnios da divina Sabedoria haviam escolhido a água como instrumento dessa sublime regeneração da raça humana. Por isso, no princípio do mundo, é-nos mostrado o Espírito divino pairando sobre as águas, para que a natureza destas concebesse já em seu seio um germe de santificação, como canta a Igreja no Sábado Santo. Mas as águas deviam servir à justiça castigando um mundo culpado, antes de serem chamadas a cumprir os desígnios de sua misericórdia. Todo o gênero humano, à exceção de uma só família, desapareceu, por um terrível decreto, sob as ondas do dilúvio.

Contudo, ao fim daquela espantosa cena apareceu um novo indício da futura fecundidade deste elemento predestinado. A pomba que saiu por um momento da arca da salvação voltou a entrar nela, trazendo um ramo de oliveira, símbolo da paz devolvida à terra depois do dilúvio. Mas a realização do mistério anunciado ainda estava distante.

Enquanto se aguardava o dia em que este mistério havia de manifestar-se, Deus multiplicou as figuras destinadas a manter a esperança de seu povo. Assim, fez com que este povo não chegasse à Terra Prometida sem ter atravessado as ondas do Mar Vermelho; durante a misteriosa passagem, uma coluna de fumaça cobria ao mesmo tempo a marcha de Israel e as benditas ondas às quais devia a salvação.

Mas somente o contato com os membros humanos de um Deus encarnado podia comunicar às águas a virtude purificadora pela qual suspirava o homem culpado. Deus dera seu Filho ao mundo não só como Legislador, Redentor e Vítima de salvação, mas também para ser Santificador das águas; no seio, pois, deste sagrado elemento devia dar-Lhe um testemunho divino e manifestá-Lo pela segunda vez.

O BATISMO DE JESUS

Adelanta-Se, pois, Jesus, com trinta anos de idade, em direção ao Jordão, rio já célebre pelos prodígios proféticos operados em suas águas. O povo judeu, reanimado pela pregação de João Batista, acorria em tropel para receber aquele Batismo que, se podia excitar ao arrependimento do pecado, não conseguia apagá-lo. Também nosso divino Rei Se dirige para o rio, não para buscar a santificação, pois é princípio de toda santidade, mas para comunicar às águas a virtude de gerar uma raça nova e santa, como canta a Igreja.

Desce ao leito do Jordão, não como Josué para atravessá-lo a pé enxuto, mas para que o Jordão O envolva com suas ondas e receba d’Ele, para depois comunicá-la a todo o elemento, essa virtude santificadora que já não voltará jamais a perder. Animadas pelos raios divinos do Sol de justiça, tornam-se fecundas as águas quando a cabeça augusta do Redentor se submerge em seu seio, ajudada pela mão trêmula do Precursor.

Mas é necessário que intervenha toda a Trindade neste prelúdio da nova criação. Abrem-se os céus; desce a Pomba, já não simbólica e figurativa, mas anunciadora da presença do Espírito de amor, que dá a paz e transforma os corações. Detém-Se e repousa sobre a cabeça do Emanuel, pairando ao mesmo tempo sobre a humanidade do Verbo e sobre as águas que banhavam seus sagrados membros.

O TESTEMUNHO DO PAI

Mas ainda não havia sido manifestado com suficiente relevo o Deus humanado; era preciso que a voz do Pai ressoasse sobre as águas e removesse até o mais profundo de seus abismos. Então se deixou ouvir aquela Voz que Davi havia cantado: Voz do Senhor que retumba sobre as águas, trovão do Deus majestoso que derruba os cedros do Líbano — orgulho dos demônios —, que apaga o fogo da ira divina, que comove o deserto e anuncia um novo dilúvio — Salmo XXVIII —, um dilúvio de misericórdia; esta Voz clamava agora: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências.”

Deste modo se manifestou a Santidade do Emanuel com a presença da celestial Pomba e com a voz do Pai, assim como sua realeza o havia sido com o mudo testemunho da Estrela. Realizado o mistério, dotado o elemento da água de sua nova virtude purificadora, Jesus sai do Jordão e sobe à margem, levando atrás de Si, segundo a opinião dos Padres, a humanidade regenerada e santificada, e deixando ali submersos todos os seus crimes e pecados.

COSTUMES

Sem dúvida, é importante a festa da Epifania, cujo objeto é honrar tão altos mistérios; não devemos admirar-nos de que a Igreja do Oriente tenha feito deste dia uma das datas para a solene administração do Batismo. Os antigos monumentos da Igreja das Gálias indicam que este era também o costume entre nossos antepassados; mais de uma vez, no Oriente, segundo conta João Mosco, viu-se o sagrado batistério encher-se com uma água milagrosa no dia desta festividade, e esvaziar-se por si mesmo depois da administração do Batismo.

A Igreja Romana, desde os tempos de São Leão, insistiu para que se reservasse às festas da Páscoa e de Pentecostes a honra de serem os únicos dias consagrados à solene administração do primeiro dos Sacramentos; mas, em muitos lugares do Ocidente, conservou-se e ainda se conserva a prática de benzer a água com especial solenidade no dia da Epifania.

A Igreja do Oriente conservou zelosamente este costume. A função desenvolve-se ordinariamente na igreja; mas, às vezes, o Pontífice se dirige às margens de um rio, acompanhado dos sacerdotes e ministros revestidos de seus mais ricos ornamentos, e seguido por todo o povo. Depois de recitar orações de grande beleza, que lamentamos não poder citar, o Pontífice submerge nas águas uma cruz engastada em pedrarias que representa Cristo, imitando desta sorte a ação do Precursor.

Em São Petersburgo, a cerimônia realizava-se outrora sobre o Neva, introduzindo o Metropolita a cruz nas águas através de uma abertura praticada no gelo. Este rito é observado de modo semelhante nas Igrejas do Ocidente que conservaram o costume de benzer a água na festa da Epifania.

Os fiéis se apressam a tirar do rio a água santificada, e São João Crisóstomo, em sua Homilia vinte e quatro sobre o Batismo de Cristo, afirma, tomando seus ouvintes por testemunhas, que esta água não se corrompia. Idêntico prodígio foi muitas vezes observado no Ocidente.

Demos, pois, glória a Cristo pela segunda manifestação de seu caráter divino, e agradeçamos-Lhe com a Igreja por nos haver dado, juntamente com a Estrela da Fé que nos ilumina, a Água capaz de apagar nossas culpas. Admiremos, agradecidos, a humildade do Salvador, que Se inclina sob a mão de um mortal para realizar toda justiça, como Ele mesmo diz: porque, tendo tomado para Si a forma de pecador, era necessário que assumisse também as humilhações para levantar-nos de nossa prostração.

Agradeçamos-Lhe a graça do Batismo, que nos abriu as portas da Igreja da terra e da Igreja do Céu. Finalmente, renovemos os compromissos contraídos na fonte sagrada, os quais foram condição do novo nascimento.

MISSA DA OITAVA DA EPIFANIA

Introito, Epístola, Gradual, Verso do Aleluia, Ofertório e Comunhão são os mesmos do dia da Epifania.

INTROITO – Eis que vem o Senhor Dominador: e em sua mão estão o reino, o poder e o império.
Salmo: Ó Deus, dai o vosso juízo ao Rei, e a vossa justiça ao Filho do Rei.

Na Coleta, a Igreja pede para seus filhos a graça de se tornarem semelhantes a Jesus Cristo, manifestado no Jordão, cheio do Espírito Santo, objeto das complacências do Pai celestial, mas revestido de nossa natureza e fiel no cumprimento de toda justiça.

COLETA – Ó Deus, cujo Unigênito apareceu na substância de nossa carne: suplicamo-Vos que façais que, por Aquele que conhecemos semelhante a nós no exterior, sejamos interiormente reformados. Ele que vive e reina convosco.

EPÍSTOLA – Leitura do Profeta Isaías.

Levanta-te, ilumina-te, Jerusalém, porque chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e a sua glória será vista em ti. E as gentes caminharão à tua luz, e os reis ao resplendor do teu astro. Ergue os olhos ao redor e vê: todos estes se reuniram, vieram a ti; teus filhos virão de longe, e tuas filhas surgirão de todas as partes. Então verás e brilharás, e teu coração se admirará e se dilatará, quando se houver voltado para ti a multidão do mar e houver acorrido a ti a força das gentes. Cobrir-te-á uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e tributando louvores ao Senhor.

GRADUAL – Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e tributando louvores ao Senhor.
— V. Levanta-te e ilumina-te, Jerusalém, porque a glória do Senhor nasceu sobre ti.

ALELUIA – Aleluia, aleluia.
— V. Vimos a sua estrela no Oriente e viemos com dons adorar o Senhor. Aleluia.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São João.

Naquele tempo, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado do mundo. Este é Aquele de quem eu disse: Depois de mim vem um Varão que foi feito antes de mim, pois existia antes de mim. E eu não O conhecia; mas, para que fosse manifestado a Israel, por isso vim eu batizando com água. E João deu testemunho, dizendo: Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e repousar sobre Ele. E eu não O conhecia; mas Aquele que me enviou a batizar com água disse-me: Sobre Aquele em quem vires descer o Espírito e repousar, esse é o que batiza no Espírito Santo. E eu O vi, e dei testemunho de que esse é o Filho de Deus.

Ó Cordeiro celestial! Descestes ao rio para purificá-lo; a divina Pomba veio do céu unir a sua doçura à vossa, e depois saístes à margem. Mas, ó prodígio da vossa misericórdia!, os lobos desceram depois de Vós às águas santificadas e saíram transformados em cordeiros. Todos nós, manchados pelo pecado, ao sair da fonte sagrada tornamo-nos tão brancos como as ovelhas do vosso divino Cântico, que sobem do banho todas fecundas e nem uma só estéril; como essas puras pombas que parecem banhadas em leite e que puseram o seu ninho junto às fontes cristalinas.

Tal é a poderosa virtude purificadora dada por vosso divino contato a estas águas! Conservai em nós, ó Jesus, essa brancura que vem de Vós; e, se a perdemos, devolvei-no-la pelo Batismo da Penitência, o único que pode restituir-nos o candor de nossa primeira veste.

Alargai ainda mais este rio de amor, ó Emanuel! Que suas ondas vão buscar, até o fundo de seus desertos selvagens, aqueles que ainda não gozaram de seu contato; inundai a terra como prometestes. Lembrai-Vos da glória com que fostes manifestado no Jordão; esquecei os pecados que, há tanto tempo, impedem a pregação do vosso Evangelho nessas regiões desoladas; o Pai dos céus ordena a todas as criaturas que Vos escutem: falai, pois, a todos, ó Emanuel!

OFERTÓRIO – Os reis de Társis e das Ilhas oferecerão dons; os reis da Arábia e de Sabá trarão presentes; e todos os reis da terra O adorarão: todas as gentes O servirão.

Na Secreta, a Igreja proclama ainda a divina Manifestação e suplica ao Cordeiro, que nos alcançou por seu Sacrifício o poder de oferecer a Deus uma Hóstia pura, que aceite também esta Hóstia em sua misericordiosa clemência.

SECRETA – Nós Vos oferecemos, Senhor, estas hóstias pela aparição de vosso Filho, suplicando-Vos humildemente que, assim como Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o autor de nossos dons, assim seja também o seu misericordioso aceitador. Ele que vive e reina convosco.

COMUNHÃO – Vimos a sua estrela no Oriente e viemos com dons adorar o Senhor.

Ao dar graças pelo celestial alimento que acaba de receber, a Santa Igreja implora a proteção contínua desta Luz divina que apareceu sobre ela e que a tornará capaz de contemplar a pureza do Cordeiro e de amá-Lo como merece a sua doçura.

PÓS-COMUNHÃO – Suplicamo-Vos, Senhor, que nos precedais sempre e em toda parte com a vossa luz celeste, para que vejamos com olhos puros e percebamos com digno afeto o Mistério do qual quisestes fazer-nos participantes. Pelo Senhor.

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