Oratório São José

Sábado da IV semana do Advento

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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A VIGÍLIA DE NATAL

Por fim, diz São Pedro Damião em seu sermão para este dia, “eis-nos já chegados do alto-mar ao porto, da promessa à realidade, do desespero à confiança, do trabalho ao descanso, do desterro à pátria. Tinham-se sucedido os mensageiros da divina promessa, mas traziam consigo apenas a renovação dessa mesma promessa. Por esta razão, o Salmista já se havia deixado dominar pelo sono, de sorte que os últimos acentos de sua lira manifestam a demora do Senhor. Tu nos rejeitaste, dizia ele, tu nos abandonaste, e adiaste a vinda do teu Ungido. Depois, passando da queixa à audácia, havia exclamado com voz imperiosa: Manifesta-te, pois, Tu que estás sentado sobre os Querubins! Sentado sobre o trono do teu poder, rodeado de batalhões de Anjos voadores, desdenharás lançar teu olhar sobre os filhos dos homens, vítimas, é certo, do pecado cometido por Adão, mas por Ti permitido? Lembra-te de nossa natureza criada à tua semelhança; porque, embora seja certo que todo mortal é vaidade, não o é enquanto é tua imagem. Deixa, pois, as alturas e desce; inclina os céus de tua piedade sobre os desgraçados que te suplicam, e não os esqueças eternamente.”

“Isaías, por sua vez, no ímpeto de seus desejos, exclamava: Por Sião não me calarei, e por Jerusalém não descansarei até que se levante em seu esplendor o Justo esperado. Rasga, pois, os céus e desce.” Finalmente, todos os Profetas, cansados de tanto esperar, continuaram lançando suas súplicas, gemidos e até, por vezes, seus gritos de impaciência. Já ouvimos e repetimos por bastante tempo suas palavras; é hora de que se retirem. Para nós não há alegria nem consolo até que o Salvador, honrando-nos com o beijo de sua boca, nos diga Ele mesmo, em pessoa: Fostes atendidos.

Mas que é que acabamos de ouvir? Santificai-vos, ó filhos de Israel, e estai preparados, porque amanhã descerá o Senhor. Somente o que resta deste dia, e apenas meia noite, nos separam já da gloriosa visita, e ainda nos ocultam o Filho de Deus e seu admirável Nascimento. Apressai-vos, horas velozes; terminai depressa vossa corrida, para que possamos ver quanto antes o Filho de Deus no berço e honrar essa Natividade, que é a salvação do mundo.

Eu suponho, meus irmãos, que sois verdadeiros filhos de Israel, e que estais purificados de todas as impurezas da carne e do espírito, bem preparados para os mistérios de amanhã, impacientes por dar mostras de vossa devoção. Ao menos assim o posso esperar, dado o modo como passastes os dias dedicados à preparação do Advento do Filho de Deus. Mas se, apesar de tudo, tivessem caído em vosso coração algumas gotas do bafo da corrupção, apressai-vos hoje a secá-las e cobri-las com o branco linho da confissão. Eu vo-lo garanto pela bondade do Menino que vai nascer: quem confessar contrito o seu pecado merecerá que a Luz do mundo nasça nele; dissipar-se-ão as falazes trevas, e lhe será comunicado o verdadeiro esplendor.

Pois como se haveria de negar misericórdia aos desgraçados na noite em que nasce o Senhor misericordioso? Abatei, pois, o orgulho de vossos olhares, a ousadia de vossa língua, a crueldade de vossas mãos, a sensualidade de vossos desejos; afastai vossos pés das veredas tortuosas, e depois vinde e vede se o Senhor não rasga esta noite os céus e desce até vós, lançando todos os vossos pecados ao fundo do mar.

Este santo dia é, com efeito, um dia de graça e de esperança, e devemos passá-lo em santa alegria. A Igreja, deixando de lado seus costumes habituais, quer que, se a Vigília de Natal cair em domingo, o Ofício e a Missa da Vigília prevaleçam sobre o Ofício e a Missa do quarto domingo do Advento; tão solenes lhe parecem estas últimas horas que precedem imediatamente o Nascimento do Senhor. Nas demais festas, por importantes que sejam, a solenidade só começa nas primeiras Vésperas; até elas, a Igreja guarda silêncio, celebrando os Ofícios divinos e a Missa segundo o rito quaresmal. Hoje, pelo contrário, a grande festa já começa desde o amanhecer, no Ofício de Laudes. A entoação solene deste Ofício nos anuncia um rito duplo, cantando-se as antífonas antes e depois de cada salmo ou cântico. Na Missa, embora se conserve a cor roxa, não se deve ficar de joelhos como nas demais férias do Advento, nem há mais que uma só Coleta, em vez das três que se costumam dizer numa Missa menos solene.

Participemos do espírito da santa Igreja e preparemo-nos, com o coração transbordante de alegria, para sair ao encontro do Salvador, que vem a nós. Pratiquemos com fidelidade o jejum, que tornará mais leves nossos corpos e facilitará nossa marcha; pensemos já desde a madrugada que não voltaremos a deitar-nos sem haver visto nascer, numa hora sagrada, Aquele que vem iluminar todas as criaturas; porque é obrigação de todo fiel filho da Igreja Católica celebrar com ela esta feliz noite, na qual todo o mundo, apesar do arrefecimento da piedade, ainda honra a vinda de seu Salvador, como último rescaldo da piedade antiga, que não se haveria de apagar sem grande prejuízo para a terra.

Repassemos, em espírito de oração, as partes principais do Ofício desta Vigília. Primeiramente, a santa Igreja começa por um chamado de atenção que serve de Invitatorio nas Matinas, e de Introito e Gradual na Missa. São as palavras de Moisés ao anunciar ao povo o celestial Maná que Deus lhe enviará no dia seguinte. Também nós esperamos nosso Maná, Jesus Cristo, Pão da vida, que vai nascer em Belém, a Casa do Pão.

INVITATÓRIO

Hoje sabereis que virá o Senhor; e amanhã vereis a sua glória.

Os Responsórios transbordam majestade e doçura. Nada há de mais lírico e comovente que sua melodia nesta noite que precede a própria noite em que o Senhor há de vir pessoalmente.

Santificai-vos hoje e estai preparados, porque amanhã vereis a majestade de Deus no meio de vós.
℣. Hoje sabereis que virá o Senhor; e amanhã vereis a majestade de Deus no meio de vós.

Permanecei constantes: vereis vir sobre vós o auxílio do Senhor. Ó Judeia e Jerusalém, não temais! Amanhã sereis libertadas, e o Senhor estará convosco.
℣. Santificai-vos, filhos de Israel, e estai preparados. Amanhã sereis libertados, e o Senhor estará convosco.

℟. Santificai-vos, filhos de Israel, diz o Senhor, porque amanhã descerá o Senhor e tirará de vós toda languidez.
℣. Amanhã será apagada a iniquidade da terra, e reinará sobre nós o Salvador do mundo.
℟. E tirará de vós toda languidez.

Nos Cabidos e Mosteiros faz-se neste dia, durante o Ofício de Prima e com extraordinária solenidade, o anúncio da festa de Natal. O leitor, que deverá ser uma das dignidades do coro, canta em tom majestoso o seguinte trecho do Martirológio, ouvido de pé pelos assistentes, até o momento em que a voz do leitor deixa ouvir o nome de Belém. Então todos se prostram por terra, até que tenha terminado completamente o pregão da boa nova.

NO OITAVO DIA DAS CALENDAS DE JANEIRO

No ano da criação do mundo, quando no princípio Deus criou o céu e a terra, cinco mil cento e noventa e nove; do dilúvio, o ano dois mil novecentos e cinquenta e sete; do nascimento de Abraão, o ano dois mil e quinze; de Moisés e da saída do povo de Israel do Egito, o ano mil quinhentos e dez; da unção do rei Davi, o ano mil e trinta e dois; na semana sexagésima quinta, segundo a profecia de Daniel; na Olimpíada centésima nonagésima quarta; da fundação de Roma, o ano setecentos e cinquenta e dois; de Otaviano Augusto, o ano quarenta e dois; estando todo o universo em paz; na sexta idade do mundo: Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do Pai eterno, querendo consagrar o mundo com sua misericordiosíssima vinda, tendo sido concebido do Espírito Santo, e havendo transcorrido nove meses depois da concepção, nasce em Belém de Judá, feito homem, da Virgem Maria: a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne.

Diante de nós foram desfilando sucessivamente todas as gerações1. Calaram-se quando lhes perguntamos se tinham visto passar Aquele que esperamos, até que, tendo sido ouvido o nome de Maria, foi proclamada a Natividade de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem.

“Uma voz de alegria ressoou em nossa terra — diz a este propósito São Bernardo em seu primeiro sermão sobre a Vigília de Natal —; uma voz de triunfo e de salvação nas tendas dos pecadores. Acabamos de ouvir uma doce palavra, uma palavra de consolo, uma frase cheia de encanto, digna de ser recolhida com o mais solícito cuidado. Montes, fazei ressoar os louvores; aplaudi, árvores do bosque, à vista do Senhor, porque eis que Ele vem. Escutai, ó céus; atende, ó terra; pasmai e cantai louvores, ó criaturas; mas sobretudo tu, ó homem: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém de Judá! Que coração, por mais de pedra que fosse, que alma não se derreteria ao ouvir estas palavras? Há notícia mais doce? Há pregão mais deleitoso? Ouviu-se jamais coisa semelhante? Recebeu o mundo algum dia dom parecido? Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém de Judá. Ó breve frase que nos anuncia o Verbo aniquilado! Quão carregada estás de doçura! O encanto de tão melíflua suavidade nos convida a comentá-la; mas faltam as palavras. É, com efeito, de tal condição a graça desta frase que, se tento mudar uma só letra, diminuo-lhe o sabor: Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém de Judá.”

MISSA

INTROITO – Hoje sabereis que vem o Senhor e nos salvará; e amanhã vereis a sua glória.
Salmo: Do Senhor é a terra e a sua plenitude: o orbe das terras e todos quantos nele habitam.
℣. Glória.

Na Coleta, a Igreja parece ainda preocupada com a vinda de Cristo Juiz; mas é a última vez que fará alusão a este último Advento. Doravante, entregar-se-á completamente a este Rei pacífico, a este Esposo que vem a ela; seus filhos devem imitar sua confiança.

COLETA – Oremos. Ó Deus, que nos alegrais com a anual expectação da festa de nossa redenção, fazei que, assim como recebemos agora, jubilosos, o vosso Unigênito como Redentor, assim também vejamos depois, sem temor, voltar como Juiz Nosso Senhor Jesus Cristo. O qual vive convosco.

Na Epístola, o Apóstolo São Paulo, dirigindo-se aos Romanos, anuncia-lhes a grandeza e a santidade do Evangelho, isto é, da Boa Nova que os Anjos farão ressoar na próxima noite. Ora, o protagonista do Evangelho não é outro senão o Filho de Deus, da linhagem de Davi segundo a carne, e que vem para ser na Igreja o princípio da graça e do apostolado, meios pelos quais somos também nós associados às alegrias de tão excelso Mistério, depois de tantos séculos passados.

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos.

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado Apóstolo, separado para o Evangelho de Deus, que Ele antes havia prometido por seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, feito da descendência de Davi segundo a carne, e predestinado Filho de Deus em poder, segundo o espírito de santificação, por sua ressurreição dentre os mortos. Por Ele recebemos a graça e o apostolado, para poder pregar a fé, em virtude de seu nome, a todos os povos, entre os quais estais também vós, os chamados de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

GRADUAL – Hoje sabereis que vem o Senhor e nos salvará; e amanhã vereis a sua glória.
℣. Vós, que governais Israel, atendei; Vós, que conduzis José como uma ovelha; Vós, que estais sentado sobre os Querubins, manifestai-vos diante de Efraim, Benjamim e Manassés.

Se a Vigília cai em domingo, diz-se também o seguinte:

ALELUIA  – Aleluia, aleluia.
℣. Amanhã será apagada a iniquidade da terra, e reinará sobre nós o Salvador do mundo. Aleluia.

No Evangelho desta Missa, São Mateus nos conta a inquietação de São José e a visão do Anjo. Era conveniente que não passasse despercebida na Liturgia esta história, um dos prelúdios do Nascimento do Salvador. Até agora não se havia apresentado momento oportuno para propô-la. Por outro lado, esta leitura é muito própria da Vigília de Natal, por causa das palavras do Anjo, que assinalam o nome de Jesus, a ser imposto ao Filho da Virgem, e anunciam que este maravilhoso Menino salvará seu povo do pecado.

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.

Estando Maria, Mãe de Jesus, desposada com José, antes que se ajuntassem, achou-se ter concebido do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não querendo infamá-la, pensou abandoná-la secretamente. E, enquanto pensava nisso, eis que o Anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, porque o que nela nasceu é do Espírito Santo. E ela dará à luz um filho, e lhe chamarás Jesus, pois Ele salvará seu povo de seus pecados.

 

OFERTÓRIO – Príncipes, abri vossas portas; e elevai-vos, portas eternas, e entrará o Rei da glória.

 

SECRETA – Suplicamo-vos, ó Deus onipotente, que façais que, assim como antecipamos a adorável Natividade de vosso Filho, assim também recebamos jubilosos seus dons eternos. O qual vive e reina convosco.

Durante a Comunhão, a Igreja se alegra por poder saborear já, no Sacramento da Eucaristia, Aquele cuja carne purifica e alimenta nossa própria carne, tirando do consolo que este divino manjar lhe proporciona a fortaleza para esperar até o momento supremo em que os Anjos a chamarão à Gruta do Messias.

COMUNHÃO – Revelar-se-á a glória do Senhor, e toda carne verá a salvação de nosso Deus.

 

PÓS-COMUNHÃO – Suplicamo-vos, Senhor, que nos façais respirar com a anunciada Natividade de vosso Filho, cujo celestial Sacramento comemos e bebemos. Pelo mesmo Senhor.


1. Neste único dia e sob esta única circunstância, a Igreja adota a cronologia da Septuaginta, que situa o nascimento de Jesus nesta data. do Salvador após o ano 5000, enquanto a Vulgata indica apenas 4000 anos até esse grande evento; no que concorda com o texto hebraico. Este não é o lugar apropriado para explicar tal divergência cronológica; basta reconhecer o fato, como prova da liberdade que a Igreja nos deixa nesta questão. do Salvador após o ano 5000, enquanto a Vulgata indica apenas 4000 anos até esse grande evento; no que concorda com o texto hebraico.

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