Oratório São José

III Domingo do Advento

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO

Neste domingo, a alegria da Igreja aumenta ainda mais. Ela suspira continuamente pelo Senhor; mas agora sente que Ele se aproxima e julga poder mitigar um pouco a austeridade deste tempo de penitência com a inocente alegria das pompas litúrgicas. Em primeiro lugar, este Domingo recebeu o nome de Gaudete pela primeira palavra de seu Introito; mas, além disso, nele também se observam as práticas características do quarto Domingo da Quaresma, chamado Laetare. Toca-se o Órgão na Missa; os paramentos são de cor rosa; o Diácono volta a usar a dalmática, e o Subdiácono, a túnica; nas Catedrais, o Bispo assiste com a mitra preciosa. ¡Admirável condescendência da Igreja, que sabe unir tão harmonicamente a seriedade de sua doutrina com a graciosa poesia das formas litúrgicas! Entremos em seu espírito e regozijemo-nos hoje por causa da proximidade do Senhor. Amanhã, nossos gemidos retomarão o seu voo; porque, embora não tardará, ainda não chegou.

A Estação celebra-se em São Pedro do Vaticano. Este sagrado templo, que contém o sepulcro do Príncipe dos Apóstolos, é o asilo universal do povo cristão; é natural que seja testemunha das tristezas e das alegrias da Igreja.

O Ofício noturno começa com um novo Invitatório: o grito da Igreja é um grito de alegria; todos os dias, até a Vigília de Natal, ela começa as suas Matinas com estas magníficas palavras:

O Senhor está já próximo: vinde, adoremos-Lo.

Tomemos agora o livro do Profeta e leiamos com a Santa Igreja; Do Profeta Isaías.

Confiança em Deus: Ele humilha os soberbos

Naquele dia, cantar-se-á este cântico na terra de Judá:

Temos uma cidade forte, o Senhor nos dará a sua ajuda por muralha e fortaleza. Abri as portas para que entre um povo justo que guarde a fidelidade. Esperança inabalável, tu nos conservarás a paz, porque em ti reina a confiança. Tende sempre confiança no Senhor; porque o Senhor é um refúgio eterno. Ele destruiu os moradores das alturas, lançou por terra a cidade soberba; humilhou-a até o chão, arrojou-a no pó, e ela foi pisoteada pelos pés do pobre e do mendigo.

O justo espera o reinado da justiça e permanece fiel a Deus

A vereda do justo está em linha reta; a senda que Tu abres ao justo não se desvia dela. Com efeito, na senda dos teus juízos, pusemos, ó Senhor, a nossa confiança; o teu nome e a tua memória são o desejo da alma.

Minha alma te desejou na noite e os meus mais íntimos suspiros te buscarão. (Is. XXVI, 1-9.)

Ó santa Igreja Romana, nossa cidade forte!, eis-nos aqui reunidos dentro dos teus muros, ao redor do sepulcro deste pescador cujas cinzas te amparam na terra, enquanto, com a sua doutrina inconcussa, ele te ilumina desde o céu. Mas, se és forte, tu o és pelo Salvador que está para chegar. Ele é a tua muralha; porque é Ele quem cerca todos os teus filhos com a sua misericórdia; Ele é a fortaleza invencível; graças a Ele, jamais os poderes infernais prevalecerão contra ti. Alarga as tuas portas, para que possas acolher dentro de ti todos os povos; pois és mestra da santidade e guardiã da verdade. ¡Termine o quanto antes o antigo erro que se opõe à fé e difunda-se la paz sobre todo o teu rebanho! Ó Santa Igreja Romana! Tu puseste para sempre a esperança no Senhor; e Ele, por sua vez, fiel à sua promessa, humilhou diante de ti as alturas da soberba e as cidades do orgulho. Onde estão os Césares que julgaram ter te afogado em teu próprio sangue? Onde os Imperadores que quiseram violar a inviolável virgindade da tua fé? Onde os sectários que em cada século, por assim dizer, combateram sucessivamente todos os artigos da tua doutrina? Onde aqueles príncipes ingratos que se empenharam em escravizar-te, quando foste tu quem os exaltou? Onde está o Império do Crescente (da Meia-Lua) que tantas vezes se enfureceu contra ti, e cujas orgulhosas conquistas tu, desarmada, repeliste para tão longe? Onde estão os Reformadores que tentaram fundar um Cristianismo sem ti? Onde estes modernos sofistas, aos olhos dos quais tu não passavas de um impotente e carcomido fantasma? Onde estarão, dentro de um século, esses reis perseguidores da Igreja, esses povos que buscam a liberdade fora da Igreja? Terão passado, como uma torrente, em seu fracasso; e tu, tu estarás sempre tranquila, sempre jovem, sempre sem rugas, ó Santa Igreja Romana!, sentada sobre a rocha inabalável. O teu caminho através dos séculos terá sido reto como o do justo; e sempre te voltarás a encontrar semelhante a ti mesma, como o foste durante dezenove séculos, sob o sol que, fora de ti, só ilumina as vicissitudes humanas. De onde te vem essa solidez senão dAquele que é a própria Verdade e a justiça? ¡Glória seja a Ele em ti! Todos os anos Ele te faz a sua visita; todos os anos renova os teus dons, para ajudar-te a terminar a tua peregrinação; até o fim dos séculos virá igualmente visitar-te, renovar-te, não apenas pela virtude daquele olhar com o qual renovou a Pedro, mas enchendo-te de Si mesmo, como encheu a Virgem gloriosa, objeto dos teus mais doces amores depois do de teu Esposo. Contigo suplicamos, ó Mãe nossa, dizendo: Vem, Senhor Jesus! “O teu nome e a tua memória são a ânsia de nossas almas; na noite elas te desejam e os nossos mais íntimos suspiros te buscam.”

MISSA

Enquanto todo o povo está atento, a voz dos cantores entoa a melodia gregoriana, e ouve-se o eco destas consoladoras palavras do Apóstolo:

INTROITO – Alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez vos digo: alegrai-vos. Que a vossa felicidade seja conhecida de todos os homens; porque o Senhor está perto. Não vos preocupeis com nada. Pelo contrário, em todas as vossas orações apresentai a Deus as vossas petições. Salmo. Abençoastes, Senhor, a vossa terra; libertastes Jacó do cativeiro. — V. Glória ao Pai.

A Igreja pede, na Coleta, a graça da visita que traz consigo a luz e dissipa as trevas. As trevas fazem a alma tremer; pelo contrário, a luz conforta e regozija o coração.

COLETA – Oremos. Dignai-Vos, Senhor, ouvir as nossas súplicas e dissipai as trevas do nosso espírito com a graça da vossa visita. Vós, que viveis e reinais.

 

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Ap. S. Paulo aos Filipenses. 

Irmãos: Alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez vos digo: alegrai-vos. Que a vossa felicidade seja conhecida de todos os homens: o Senhor está perto. Não vos preocupeis com nada. Pelo contrário, em todas as vossas orações e rogos, apresentai a Deus as vossas petições, acompanhadas de ações de graças. E a paz de Deus, que supera todo o sentido, guarde os vossos corações e as vossas inteligências em Nosso Senhor Jesus Cristo. Com efeito, devemos alegrar-nos no Senhor; o Profeta e o Apóstolo estão de acordo em avivar as nossas ânsias pelo Salvador: um e outro nos anunciam a paz. Estejamos, pois, tranquilos: O Senhor está perto; está perto de sua Igreja; está perto de cada uma de nossas almas. Será possível que estejamos junto a um fogo tão ardente e permaneçamos gelados? Será que já não sentimos a sua vinda, através de todos os obstáculos que lhe opunham a sua excelsa dignidade, a nossa profunda miséria e os nossos numerosos pecados?

Mas Ele tudo arrasta. Mais alguns passos e estará entre nós. Saiamos-Lhe ao encontro por meio destas orações, súplicas e ações de graças de que nos fala o Apóstolo. Dupliquemos o nosso fervor e zelo para nos unirmos à Santa Igreja, cujos desejos vão dirigir-se cada dia mais inflamados para Aquele que é a sua luz e o seu amor. Repitamos agora com ela:

GRADUAL – Senhor, Vós que Vos assentais sobre os querubins, despertai o vosso poder e vinde. — V. Vós que regeis Israel, escutai: Vós que conduzis José como uma ovelha. Aleluia, aleluia. — V. Senhor, despertai o vosso poder e vinde para nos salvar. Aleluia.

 

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São João.

Naquele tempo, os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a João, para que lhe perguntassem: Tu, quem és? E ele confessou e não negou; pelo contrário, declarou: Eu não sou o Cristo. E perguntaram-lhe: O que és, então? És Elias? E disse: Não sou. És o Profeta? E respondeu: Não. Disseram-lhe: Quem és, então? Para que demos resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o Profeta Isaías. E os que tinham sido enviados eram dos Fariseus. E perguntaram-lhe e disseram-lhe: Por que batizas, pois, se não és o Cristo, nem Elias, ni o Profeta? João respondeu-lhes dizendo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está Quem vós não conheceis. Este é O que virá depois de mim, O que existiu antes de mim e do qual não sou digno de desatar a correia da sandália. Estas coisas aconteceram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João batizava.

No meio de vós está Quem vós não conheceis, diz São João Batista aos enviados dos Judeus. Pode, por conseguinte, o Senhor estar perto; pode inclusive ter vindo e, não obstante isso, permanecer desconhecido para muitos. Este Cordeiro divino é o consolo do santo Precursor, o qual considera uma grande honra ser simplesmente a Voz que convida os homens a preparar os caminhos do Redentor. Nisto é São João o símbolo da Igreja e de todas as almas que buscam a Jesus Cristo. A sua alegria pela chegada do Esposo é completa; mas ao seu redor existem homens para quem este divino Salvador não significa nada. Pois bem, já estamos na terceira semana deste santo tempo do Advento; estarão todos os corações comovidos pela grande notícia da chegada do Messias? Os que não querem amá-Lo como Salvador, temem-No ao menos como Juiz? Foram endireitados os caminhos tortuosos? Pensam as colinas em humilhar-se? Foram a sensualidade e a concupiscência seriamente combatidas no coração dos cristãos? O tempo urge: ¡O Senhor está perto! Se estas linhas caíssem sob os olhos daqueles que dormem, em vez de vigiar esperando o divino Infante, nós os conjuraríamos a abrir os olhos e a não adiar por mais tempo o tornarem-se dignos de uma visita que será para eles um grande consolo no tempo e um refúgio seguro contra os terrores do último dia. ¡Ó Jesus! enviai-lhes a vossa graça com abundância ainda maior; obrigai-os a entrar, para que não se diga do povo cristão o que São João dizia da Sinagoga: No meio de vós está Quem vós não conheceis.

Durante o ofertório, podemos unir-nos ao desejo da Igreja, pedindo com ela o fim do cativeiro em que os nossos pecados nos retêm, e a chegada do Salvador.

OFERTÓRIO – Abençoastes, Senhor, a vossa terra, libertastes Jacó do cativeiro, perdoastes a iniquidade do vosso povo.

 

SECRETA – Fazei, Senhor, que Vos imolemos sempre o sacrifício da nossa devoção, o qual realize o fim sagrado para o qual foi instituído e opere, ao mesmo tempo, maravilhosamente em nós a vossa salvação. Por Nosso Senhor.

As palavras que a Igreja canta durante a comunhão são tomadas do Profeta Isaías; tratam de infundir confiança no coração do homem fraco e pecador. Não temais, pois, ó cristãos! é Deus quem vem; mas vem para salvar, para dar-Se à sua criatura.

COMUNHÃO – Dizei: Pusilânimes, confortai-vos e não temais; eis que o vosso Deus virá e nos salvará.

Na Oração seguinte, a santa Igreja pede que a visita privada que o seu Esposo acaba de lhe fazer a prepare para a outra mais solene que há de realizar-se na festa do Natal.

PÓS-COMUNHÃO – Imploramos, Senhor, a vossa clemência, para que estes divinos alimentos nos purifiquem dos vícios e nos preparem para as futuras festas. Por Nosso Senhor.

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