Oratório São José

Terça-Feira da II semana do Advento.

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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TERÇA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA DO ADVENTO

Do Profeta Isaías.

Seu tempo está próximo de chegar; seus dias não se retardarão. Porque o Senhor se compadecerá de Jacó, escolherá ainda Israel e os reconduzirá à sua própria terra; os estrangeiros se juntarão a eles e se unirão à casa de Jacó. Os povos os hospedarão e os levarão até seu país; e a casa de Israel os possuirá como servos e servas na terra do Senhor. Farão cativos aqueles que os haviam cativado, e mandarão sobre seus opressores.

Então, quando o Senhor te conceder o descanso de teus trabalhos, de tuas penas e da dura escravidão a que havias sido submetido, entoarás este cântico contra o rei da Babilônia e dirás: Como desapareceu o tirano e terminou a opressão? O Senhor despedaçou o cetro dos malvados, a vara dos opressores! Aquele que açoitava os povos sem descanso, com golpes iracundos; aquele que oprimia colérico as nações sob um jugo sem entranhas1.

Como caíste do céu, ó luzeiro, filho da aurora! Foste lançado por terra, tu que dizias em teu coração: “Subirei aos céus; colocarei meu trono acima das estrelas de Deus. Sentar-me-ei sobre o monte santo, ao lado do Setentrião. Elevarei minha altura acima das nuvens, serei igual ao Altíssimo!” Pois bem, agora desces ao Inferno, ao mais profundo do abismo! (Is., XIV, 12-15)2.

Tua ruína está efetivamente consumada, ó Lucifer! Ao recusares humilhar-te diante de Deus, foste lançado aos Infernos. Depois, procurando em tua soberba achar compensação para uma queda tão profunda, tramaste a ruína do gênero humano, por ódio a Deus e à sua obra. Conseguiste infundir no filho do pó a mesma soberba que causou tua degradação.

Por teu intermédio entrou o pecado no mundo, e com o pecado a morte; o gênero humano parecia uma presa abandonada à tua raiva eterna. Obrigado a renunciar à tua esperança de reinar no céu, pensavas dominar ao menos no Inferno e devorar a criação assim que ela saísse das mãos de Deus.

Mas hoje foste vencido. Teu reino estava no orgulho; somente a ele deverias tua corte e teus súditos. Mas eis que vem o soberano Senhor de tudo para solapar teu império em seus próprios fundamentos, dando Ele mesmo exemplo de humildade às suas criaturas. Vem ensiná-la, não por meio de leis promulgadas com o aparato deslumbrante do Sinai, mas praticando Ele mesmo, no silêncio, essa divina humildade que parece ser o único meio de levantar os caídos pela soberba. Treme, Lucifer! Teu cetro vai quebrar-se entre tuas mãos.

Em tua altivez desprezas esta doce e humilde Virgem de Nazaré, que guarda em silêncio o segredo de tua ruína e de nossa salvação. Desprezas de antemão o Menino que ela leva em seu seio e que dará à luz dentro de pouco. Tem em conta que Deus não O despreza, porque também é Deus esse Menino que ainda não nasceu; um só ato de adoração e de entrega que Ele faça a seu Pai no seio de Maria dá mais glória à Divindade do que a que poderia roubar-lhe todo o teu orgulho crescendo eternamente.

Instruídos desde agora por um Deus sobre o poder do grande remédio da humildade, os homens saberão recorrer a ele. Em vez de se levantarem como tu, em louco e criminoso orgulho, hão de humilhar-se com amor e alegria; e quanto mais humildes forem, mais Deus se comprazerá em exaltá-los; quanto mais necessitados se proclamarem, tanto mais Deus quererá cumular seus desejos. É o que nos diz a Santíssima Virgem em seu belo Cântico.

Glória seja a Ela, Mãe tão doce para seus filhos e tão terrível para ti, Lucifer, que te retorces inutilmente sob sua planta vitoriosa!


 

1. Para entender essa profecia, é importante lembrar que os israelitas foram mantidos cativos na Babilônia por aproximadamente 70 anos, no século VI a.C. O profeta anuncia aos prisioneiros o fim do exílio: “O tempo deles está próximo”, significando que a Babilônia está prestes a cair nas mãos dos medo-persas. Isso ocorreu em 538 a.C.

2. Esses versículos, que descrevem o orgulho e a arrogância do rei da Babilônia, são frequentemente aplicados (como D. Guéranger faz aqui com eficácia) à rebelião e ao castigo de Satanás. Observemos, porém, que, em seu sentido literal e histórico, eles se referem ao rei da Babilônia. Por adaptação, o que foi dito sobre o tirano caldeu foi aplicado a Lúcifer. Essa aplicação a Satanás pode ser sustentada e justificada, e parece legítima. A Babilônia, embora permanecesse a capital do império caldeu, também representava, aos olhos do Profeta, as nações pagãs, inimigas do povo de Deus; era a luta do mundo contra a teocracia. Portanto, nada é mais natural do que ver, nesta passagem, que descreve a ambição e a ruína do soberano da Babilônia, a imagem da luta entre o Príncipe deste mundo e o chefe supremo da teocracia… dando ao diabo o nome de Lúcifer — que traduzimos aqui como estrela da manhã — e que para o Profeta representava o monarca caldeu. Ele era um mero instrumento de Satanás, e o orgulho que precipitou sua ruína foi um mero efeito daquilo que levou à queda do príncipe dos anjos. “O rei da Babilônia”, diz Teodoreto, “não estava sozinho ao formular tais planos; por trás dele estava seu mestre.” (Tobac, Os Profetas II, 82-83.)

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