Prática do Tempo do Natal
PRÁTICA DO TEMPO DE NATAL
IMITAR A IGREJA
Chegou o momento em que a alma fiel vai colher o fruto dos esforços realizados na penosa caminhada do Advento, para preparar uma morada ao Filho de Deus, que deseja nascer nela. Chegou o dia das bodas do Cordeiro, e a Esposa está preparada 1. Ora, esta Esposa é a Santa Igreja; toda alma fiel é esposa. O Deus infinito se dá inteiramente e com uma especial ternura a todo o rebanho e a cada uma de suas ovelhas. Qual será o nosso ornamento para sair ao encontro do Esposo? Quais as pérolas e joias com que decoraremos nossas almas para tão ditosa entrevista? A Santa Igreja nos dá instruções sobre este ponto em sua Liturgia; e sem dúvida, o melhor que podemos fazer é imitá-la em tudo, já que ela é sempre bem ouvida e, por ser nossa Mãe, devemos sempre escutá-la.
Mas antes de falar da vinda mística do Verbo às almas, antes de revelar os segredos desta sublime intimidade entre o Criador e a sua criatura, assinalemos primeiramente com la Igreja os deveres que a natureza humana e cada uma de nossas almas têm que cumprir com o divino Infante, que os céus finalmente nos concederam como um benéfico orvalho. Durante o Advento, unimo-nos aos santos do Antigo Testamento para implorar a vinda do Messias Redentor; agora que Ele já nasceu, consideremos as honras que Lhe devemos prestar.
ADORAÇÃO
Pois bem, neste santo tempo, a Igreja oferece ao Menino Deus o tributo de suas profundas adorações, os transportes de suas inefáveis alegrias, a homenagem de seu agradecimento infinito, a ternura de seu amor incomparável. Esses sentimentos (adoração, alegria, agradecimento, amor) expressam o conjunto de atos que toda alma fiel deve também prestar ao Emanuel em seu berço. As orações da Liturgia lhe emprestarão sua voz pura e perfeita; mas penetremos na natureza desses sentimentos para senti-los melhor e tornar totalmente nossa a forma com que a Santa Igreja os expressa.
Nosso primeiro dever diante do berço do Salvador é a adoração. A adoração é o primeiro dos atos de religião; mas pode-se dizer que, no mistério do Natal, tudo parece contribuir para tornar esse dever ainda mais sagrado. No céu, os anjos cobrem o rosto e se prostram diante do trono de Deus; os vinte e quatro anciãos depõem continuamente suas diademas diante da Majestade do Cordeiro; o que haveremos de fazer nós, pecadores, membros indignos do povo redimido, quando o próprio Deus se humilha e aniquila por nós; quando, pela mais sublime das trocas, os deveres da criatura para com o seu Criador são por Ele mesmo realizados, quando o Deus eterno não apenas se inclina diante da Majestade Infinita, mas diante do homem pecador?
É, pois, justo que, à vista de semelhante espetáculo, procuremos com nossas profundas adorações devolver ao Deus que se humilha por nós uma pequena parte do que Lhe subtrai o seu imenso amor ao homem e a sua fidelidade aos mandatos de seu Pai. Devemos, tanto quanto nos for possível, imitar na terra os sentimentos dos anjos do céu, e nunca nos aproximarmos do divino Menino sem Lhe oferecer o incenso de uma sincera adoração, os protestos de nossa vassalagem e a homenagem do acatamento devido à sua Infinita Majestade, tanto mais digna de nosso respeito quanto mais se rebaixa por nós. Ai de nós se, demasiadamente familiarizados com a aparente fraqueza do divino Infante e com suas ternas carícias, julgássemos poder prescindir dessa primeira obrigação e nos esquecermos do que Ele é e do que somos nós!
O exemplo da Puríssima Virgem Maria nos ajudará muito a conservar em nós essa humildade. Maria era humilde diante de Deus antes de ser Mãe; depois de sê-lo, é ainda mais humilde diante de seu Deus e de seu Filho. Nós, pois, desprezíveis criaturas, pecadores mil vezes perdoados, adoremos com todas as nossas potências Aquele que de tão elevadas alturas desce até a nossa miséria, e tratemos de compensar com nossos atos de humildade esse eclipse de sua glória que se realiza na gruta e nas fraldas.
Mas em vão tentaríamos colocar-nos ao nível de sua humildade; seria preciso ser Deus para chegar às humilhações de um Deus.
ALEGRIA
Mas a Santa Igreja não oferece somente ao Menino Deus o tributo de suas profundas adorações; o mistério do Emanuel, do Deus conosco, é também para ela fonte de inefável alegria. O respeito devido a Deus conjuga-se de um modo admirável, em seus cânticos sublimes, com a alegria que os anjos lhe recomendaram. Tem por honra imitar o regozijo dos pastores que, às pressas e transbordando de contentamento, acudiram a Belém 2, e também a alegria dos Magos quando, à sua saída de Jerusalém, voltaram a ver a estrela 3. É o motivo pelo qual toda a cristandade consciente celebra o divino Natal com cantos alegres e populares, conhecidos com o nome de “Villancicos” (Cânticos de Natal).
Unamo-nos, ó cristãos, a essa jubilosa alegria; não é tempo de lágrimas nem de suspiros: Um Menino nos nasceu4. Chegou Aquele que esperávamos e chegou para morar conosco. Como foi longa a espera, deverá ser inebriante o gozo de possuí-lo. Dia virá, e muito em breve, em que este menino que hoje nasce, feito já homem, será o varão de dores. Então nos lamentaremos com Ele; agora devemos alegrar-nos com a sua vinda e cantar com os anjos junto ao seu berço. Estes quarenta dias passarão velozes; recebamos com o coração dilatado a dita que nos vem do alto como um dom celestial. A Sabedoria divina nos ensina que o coração do justo é uma contínua festa 5, porque nele reside a paz: ora, nestes dias a Paz veio à terra, a Paz aos homens de boa vontade.
AGRADECIMENTO
A esta mística e deliciosa alegria vem, como por si mesmo, unir-se o sentimento de gratidão para com Aquele que, sem se deter diante de nossa indignidade nem diante das considerações devidas à sua infinita Majestade, quis escolher uma Mãe entre as filhas dos homens e um berço num estábulo: tão empenhado estava na obra de nossa salvação, em afastar de si tudo o que pudesse inspirar-nos medo ou timidez e em animar-nos com o seu divino exemplo a seguir o caminho da humildade, por onde devemos caminhar para chegar ao céu, perdido pelo nosso orgulho.
Recebamos, pois, com o coração comovido o precioso presente de um Menino libertador. É o Filho único do Pai, desse Pai que amou o mundo até o extremo de lhe entregar o seu próprio Filho 6; e é o próprio Filho único quem confirma plenamente a vontade de seu Pai, vindo a oferecer-se por nós porque Ele assim o quis 7. Em verdade, ao entregar-no-lo, o Pai não nos deu tudo com Ele, como diz o Apóstolo?8 Ó inestimável dádiva! Poderíamos oferecer um agradecimento equivalente ao presente, quando, no fundo de nossa miséria, somos incapazes de estimar o seu valor? Neste mistério, só Deus e o divino Infante, que guarda o segredo no fundo de seu berço, sabem perfeitamente o que nos dão.
AMOR
Mas, se a gratidão não pode ser proporcionada à dádiva, quem haverá de pagar a dívida? Só o amor será capaz de fazê-lo, porque, por mais limitado que seja, não tem medida, e sempre pode ir em aumento. Por isso a Santa Igreja se sente invadida de uma inefável ternura na gruta, depois de ter adorado, bendito e dado graças, e exclama: Quão formoso és, ó amado meu!9 Ó divino Sol de justiça, quão suave é à minha vista o teu despertar! Quão vivificantes os teus raios para o meu coração! Como se consolida o teu triunfo em minha alma quando a vences com as armas da pobreza, da humildade e da infância! E todas as suas palavras são palavras de amor; a adoração, o louvor, a ação de graças não são em seus Cânticos mais do que a expressão variada e íntima do amor que transforma todos os seus sentimentos.
Siga também nós, ó cristãos, a nossa Mãe a Igreja e levemos nossos corações ao Emanuel. Os Pastores lhe oferecem sua simplicidade, os Magos lhe levam ricos presentes; uns e outros nos ensinam que ninguém deve apresentar-se diante do divino Infante sem oferecer-lhe um dom digno. Ora, é preciso que o saibamos: nenhum tesouro Ele estima tanto quanto aquele que veio buscar. O amor o fez descer do céu; compadeçamo-nos do coração que não Lhe entrega o seu amor!
Estes são os deveres que nossas almas devem prestar a Jesus Cristo na primeira vinda, que fez na carne e na fraqueza, como diz São Bernardo, não para julgar o mundo, mas para salvá-lo.
Sobre o Advento do último dia, envolto em glória e terrível majestade, já meditamos o suficiente nas semanas do Advento. O temor da futura ira deve ter despertado de sua sonolência os nossos corações, dispondo-os a receber humildemente a visita do Salvador nesta vinda intermediária, que se realiza secretamente no fundo das almas, e cujo inefável mistério vamos tratar de esclarecer.
A VIA ILUMINATIVA
Já demonstramos que o Tempo do Advento pertence a essa fase da vida espiritual que a Teologia Mística designa com o nome de Via purgativa, durante a qual a alma se desprende do pecado e das amarras do mesmo, por temor do julgamento de Dios, pela mortificação e pela luta corpo a corpo contra a concupiscência. Supomos, portanto, que toda alma fiel já passou por este vale de amargura antes de ser admitida ao banquete para o qual a Igreja convidava em nome do Senhor e por boca do Profeta Isaías a todos os povos, quando nos convidava a cantar: Eis aqui o nosso Deus; estivemos esperando por Ele; por fim vem salvar-nos; suportamos a sua demora; saltemos de alegria pela salvação que nos traz 10. Pode-se também dizer com verdade que, assim como há muitas moradas na casa do Pai celestial 11, da mesma maneira a Igreja admite nesta solene festa uma grande variedade de sentimentos e disposições entre os seus numerosos filhos que nestes dias se amontoam ao redor da mesa em que se distribui o Pão divino. Uns estavam mortos para a graça e o auxílio do santo tempo do Advento os fez reviver; outros, que já gozavam de vida, reanimaram o seu amor com os seus anseios, e a entrada em Belém foi para eles um acréscimo de vida divina.
Assim, pois, a alma que entrou em Belém, ou seja, na Casa do Pão, unida Àquele que é a Luz do mundo12 não caminha em trevas. O mistério do Natal é um mistério de luz, e a graça que comunica à nossa alma a situa, se permanecer fiel, nesse segundo estado da vida mística conhecido com o nome de Via iluminativa. Doravante não temos que nos afligir esperando o Senhor; Ele já veio e fez luz em nós, e a sua luz não se apagará. Pelo contrário, crescerá à medida que o Ano litúrgico for se desenvolvendo. Oxalá não percamos de vista em nossas almas o crescimento dessa luz, e cheguemos com a sua ajuda ao dom da união divina que coroa ao mesmo tempo o Ano litúrgico e a alma por ele santificada!
Mas, no mistério do Natal e de seus quarenta dias, a luz nos é dada ainda proporcionada à nossa fraqueza. Sem dúvida é o Verbo divino, a Sabedoria do Pai, que se nos propõe ao nosso conhecimento e imitação; mas este Verbo, esta Sabedoria, aparecem sob formas infantis. Nada há, por conseguinte, que nos impeça de nos aproximar. Não se dá aqui um trono, mas um berço; não um palácio, mas um estábulo; não se trata ainda de penas, de suores, de cruz ou de sepultura; mas tampouco de glória e triunfo; só aparecem a doçura, a simplicidade e o silêncio. Approximai-vos, pois, nos diz o Salmista, e sereis iluminados13.
Quem seria capaz de declarar dignamente o mistério da infância de Cristo nas almas, e da infância das almas em Cristo? Este duplo mistério, que se realiza neste santo tempo, foi explicado maravilhosamente por São Leão em seu sexto Sermão sobre a Natividade do Salvador, quando diz: “Embora esta infância, que a majestade do Filho de Dios não desdenhou, tenha dado lugar sucessivamente à idade do homem perfeito, e embora, depois do triunfo da Paixão e da Ressurreição, toda a série de atos de humildade de que o Verbo havia feito gala tenha terminado para nós, a festividade do dia vem renovar-nos o Nascimento de Jesus por meio da Virgem Maria; ao adorar o Nascimento do nosso Salvador, não fazemos mais do que celebrar o nosso próprio nascimento. Efetivamente, esta geração temporal de Cristo é a origem do povo cristão e o nascimento da Cabeça o é também do corpo. Sem dúvida, cada um dos chamados tem o seu posto próprio e os filhos da Igreja se distinguem uns dos outros na sucessão dos tempos; mas o conjunto dos fiéis, saído da fonte batismal, assim como foi crucificado com Cristo em sua Paixão, ressuscitado em sua Ressurreição, colocado à direita do Pai em sua Ascensão, assim também é dado à luz com Ele neste Nascimento. Todo homem, em qualquer parte do mundo crente que habite, é regenerado em Cristo; apaga-se-lhe a antiguidade de sua primeira geração; renasce para um novo homem, e doravante não se achará na filiação de seu pai carnal, mas antes na natureza desse Salvador que se fez Filho do homem para que nós possamos chegar a ser filhos de Deus.”
O NOVO NASCIMENTO
Eis aí o mistério do Natal! Aqui cabe perfeitamente o que nos diz o Discípulo amado na leitura do Santo Evangelho que a Igreja nos propõe na terceira Missa desta grande festa: Aos que quiseram recebê-lO, deu-lhes poder para se tornarem filhos de Deus, aos que creem em seu Nome, que não nasceram da carne nem do sangue, nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus. Por conseguinte, todos os que, depois de terem purificado a sua alma e de terem sido libertados da escravidão da carne e do sangue, depois de terem renunciado a tudo o que do homem pecador tinham, querem abrir o seu coração ao Verbo divino, a essa Luz que brilha nas trevas e que as trevas não compreendem, todos esses nascem com Jesus Cristo, nascem de Deus; começam uma nova vida neste mistério, da mesma forma que o Filho de Deus.
Que belos são estes prelúdios da vida cristã! Quão grande a glória de Belém, isto é, da Santa Igreja, a verdadeira Casa do Pão, em cujo seio nasce nestes dias tamanha multidão de filhos de Deus em todo o mundo! Ó perpétuo viço dos nossos Mistérios que nada é capaz de murchar! O Cordeiro imolado desde o começo do mundo sacrifica-se continuamente após a sua imolação histórica; e vede como, nascido uma vez da Virgem Maria, põe a sua glória em renascer de novo nas almas. E não julguemos diminuir a honra da divina Maternidade pensando que cada um de nós pode chegar à dignidade de Maria. “Longe disso, nos diz o Venerável Beda em seu Comentário sobre São Lucas, é necessário que, no meio da multidão, levantemos a voz como a mulher do Evangelio, que representava a Igreja católica, para dizer ao Salvador: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” Prerrogativa incomunicável, com efeito, e que consagra para sempre Maria como Mãe de Deus e Mãe dos homens. Isto não significa que vamos esquecer a resposta que o Salvador deu à mulher de que fala São Lucas: Mais bem-aventurados ainda, diz, os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática14. “Por meio desta frase, continua o Venerável Beda, Cristo declara feliz não apenas aquela que teve o privilégio de engendrar corporalmente o Verbo divino, mas também todos aqueles que tratam de conceber espiritualmente esse mesmo Verbo pela obediência da fé e que, pela prática das boas obras, O dão à luz em seu próprio coração e no de seus irmãos, cuidando dEle ali com maternal solicitude. Se a Mãe de Deus foi, portanto, chamada com justiça bem-aventurada porque foi ministra da Encarnação do Verbo no tempo, quanto mais bem-aventurada foi permanecendo sempre no seu amor!”
Não é porventura idêntica doutrina a que nos declara o Salvador em outra circunstância, quando diz: Aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe 15. E por que foi enviado o anjo a Maria de preferência a qualquer outra das filhas de Israel, senão porque ela já havia concebido o Verbo divino em seu coração, pela inteireza de seu amor, o profundo de sua humildade e o mérito incomparável de sua virgindade? Do mesmo modo, qual é a causa desse brilho de santidade que resplandece na Mãe de Deus até a eternidade, senão o fato de que esta mulher, bendita entre todas as mulheres, depois de ter concebido e dado à luz segundo a carne o Filho de Deus, O concebe e engendra continuamente segundo o espírito, pela sua fidelidade à vontade do Pai celestial, pelo seu amor à luz incriada do Verbo divino, pela sua união com o Espírito Santo que habita nela?
Mas nenhum humano deve julgar-se deserdado da honra de poder seguir Maria, embora de longe, neste privilégio da maternidade espiritual, quando esta soberana Virgem já realizou a gloriosa missão de abrir-nos o caminho por meio do parto temporal que agora celebramos, e que foi para o mundo a iniciação nos mistérios divinos. Nas semanas do Advento, devemos ter preparado os caminhos do Senhor, e devemos tê-lO concebido em nossas almas; apressemo-nos a dá-lO à luz com as nossas obras, para que o Pai celestial, não nos vendo mais a nós dentro de nós mesmos, mas apenas o seu Verbo desenvolvendo-se em nós, possa dizer-nos, em sua misericórdia, o que em outra ocasião disse com plena verdade: Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho postas as minhas complacências16.
Para consegui-lo, fixemo-nos na doutrina do seráfico São Boaventura, o qual eloquentemente nos declara como se opera o Nascimento de Cristo nas almas. “Este feliz nascimento se realiza, diz o santo Doutor em uma Exortação da festa de Natal, quando a alma preparada por uma longa meditação passa finalmente à ação; quando, estando a carne submetida ao espírito, executa-se também a obra boa; então a paz e a alegria interiores renascem na alma. Neste nascimento não há queixas, dores nem lágrimas; tudo é admiração, emoção e glória. Mas, se este nascimento te agrada, ó alma devota!, pensa em ser Maria. Ora, este nome significa amargura: chora amargamente os teus pecados; significa estrela: sê resplandecente em virtudes; significa, finalmente, senhora: aprende a subjugar as paixões da carne. Então nascerá em ti Cristo, sem dor e sem trabalho. Então a alma conhece e degusta quão doce é o Senhor Jesus. Experimenta esta doçura quando, com santas meditações, alimenta este divino Menino, quando O banha em suas lágrimas, quando O envolve em seus castos desejos, quando O aperta com abraços de santa ternura, quando Lhe dá calor no mais íntimo de seu coração. Ó feliz gruta de Belém! em ti me é dado encontrar o Rei da glória; mas mais feliz ainda do que tu é o coração devoto, que possui espiritualmente Aquele que tu só pudeste possuir corporalmente.”
Ora, para passar da concepção do Verbo ao seu nascimento em nossas almas, quer dizer, para passar do Advento ao Tempo do Natal, é necessário que tenhamos continuamente fixos os olhos do nosso coração nAquele que quer nascer em nós, e no qual volta a nascer a natureza humana. Devemos mostrar-nos zelosos em reproduzir os seus traços com a nossa fraca e distante imitação, e com tanto mais interesse quanto nos diz o Apóstol que o que buscará em nós o Pai celestial, quando se tratar de declarar-nos capazes da divina predestinação, não será outra coisa senão a Imagem de seu Filho17.
Escutemos, pois, a voz dos anjos e passemos até Belém. Eis aí o sinal, diz-nos: encontrareis um menino envolto em fraldas e deitado numa manjedoura 18. Portanto, cristãos, deveis fazer-vos meninos; deveis conhecer novamente as fraldas da infância; deveis descer de vossas alturas e aproximar-vos do Salvador descido do céu, para ocultar-vos também na humildade da gruta. Desta maneira começareis com Ele uma nova vida; e a luz, que continua sempre crescendo até o dia perfeito, vos iluminará sem abandonar-vos já nunca; de sorte que, começando por ver a Deus em seu nascente esplendor, o qual dá lugar ainda à fé, merecereis contemplá-lO na glória de sua Transfiguração divina, e vos preparareis para a dita daquela UNIÃO que não é apenas a luz, mas a plenitude e o descanso do amor.
A CONVERSÃO
Até agora falamos aos membros vivos da Igreja; tivemos em vista os que se aproximaram do Senhor durante o santo tempo do Advento, e os que, vivendo da graça do Espírito Santo ao terminar o Ano litúrgico, começaram o novo esperando, preparando-se e dispondo-se a renascer com o Sol divino; mas não devemos esquecer aqueles de nossos irmãos que voluntariamente estiveram mortos, aos quais nem a proximidade do Emmanuel, nem a expectativa universal conseguiram despertar de seus sepulcros. A eles também devemos anunciar-lhes, no seio dessa morte, voluntária, sim, mas capaz de ressurreição, que a benignidade e a misericórdia de nosso Deus Salvador apareceram no mundo19. Assim, pois, se por acaso caísse o nosso livro em mãos de alguns desses que, convidados a dar-se ao Menino Todo-Poderoso, não o tivessem feito ainda, e que, em vez de suspirar por Ele durante as semanas passadas, tivessem seguido no pecado e na indiferença, a todos esses poderíamos lembrar-lhes o antigo costume da Igreja, confirmado pelo cânone décimo quinto do Concílio de Agda (506), no qual se ordena que todos os fiéis se aproximem da sagrada Eucaristia na festa de Natal, bem como na de Páscoa e Pentecostes, sob pena de não serem considerados como católicos. Agradar-nos-ia poder descrever-lhes a alegria da Igreja que, no mundo inteiro e apesar do esfriamento da caridade, contempla nestes dias inumeráveis fiéis celebrando o Nascimento do Cordeiro que tira os pecados do mundo e comungando no sacramento de seu corpo e de seu sangue.
Entendei bem, pecadores: a festa de Natal é uma festa de perdão e misericórdia, na qual o justo e o pecador se reúnem em torno da mesma mesa. O Pai celestial determinou conceder anistia a muitos culpados, em graça ao Nascimento de seu Filho; mais ainda, não exclui do perdão senão os que voluntariamente se obstinam em rejeitá-lo. Assim, e não de outro modo, deve-se celebrar a vinda do Emmanuel.
De resto, estas frases de convite não as lançamos nós por conta própria e imprudentemente; fazemo-lo em nome da Igreja, que vos convida a começar o edifício de vossa nova vida no dia em que o Filho de Deus começa a carreira de sua vida humana. Tomamo-las de um ilustre e santo bispo da Idade Média, o piedoso Rabano Mauro, que, em uma Homilia sobre o Nascimento do Salvador, não temia convidar os pecadores a vir sentar-se ao lado dos justos, naquele ditoso estábulo onde os brutos animais souberam reconhecer o seu Senhor.
“Rogo-vos, meus queridos irmãos, dizia, recebais em boa disposição as palavras que o Senhor me vai ditar para vós neste dulcíssimo dia, que traz a compunção aos próprios infiéis e pecadores; neste dia que vê o pecador implorando perdão com lágrimas de arrependimento, o cativo não desesperando mais de voltar à sua pátria, o ferido desejando a sua saúde. Neste dia nasce o Cordeiro que tira os pecados do mundo, Cristo nosso Salvador: nascimento que é fonte de deliciosa alegria para aquele cuja consciência está tranquila; que desperta a intranquilidade naquele cujo coração está enfermo; dia verdadeiramente doce e cheio de perdão para as almas arrependidas. Prometo-vos, pois, filhinhos meus, e digo-vos com segurança: todos os que neste dia se arrependerem e não quiserem voltar mais ao vômito de seus pecados, receberão quanto pedirem. Apenas uma condição se lhes impõe: que tenham uma fé cega e que não busquem mais os seus vãos prazeres. Verdadeiramente, como poderia desesperar o pecador no dia mesmo em que é destruído o pecado do mundo inteiro? Neste dia em que nasce o Senhor, façamos promessas, meus queridos irmãos, façamos promessas a este Redentor e guardemo-las, conforme o que está escrito: Vinde ao Senhor Deus vosso e apresentai-lhe os vossos votos. Prometamos em paz e confiança; que Ele nos dará meios para que possamos cumprir nossas promessas. Mas entendei que não se trata aqui de oferecer coisas caducas e terrenas. Devemos oferecer-Lhe o que o Senhor redimiu em nós, isto é, a alma. E se me disserdes: Como oferecer a minha alma ao Salvador se já a tem em seu poder? responder-vos-ei: Oferecereis a alma por meio de vossas piedosas amizades, por vossos castos pensamentos, por vossas obras vivas, afastando-vos do mal e praticando o bem, amando a Deus e ao próximo, operando misericórdia, porque também nós fomos desgraçados antes de receber misericórdia; perdoando aos que nos ofendem, porque também O temos ofendido; arrastando aos nossos pés a soberba, porque foi ela que perdeu o primeiro homem.”
Assim se expressa a piedade da Santa Igreja, que convida os pecadores ao banquete do Cordeiro até que o salão esteja repleto 20. A Esposa de Jesus Cristo vive em alegria, como efeito da graça regeneradora que o Sol divino lhe concede. Começa um novo ano para ela, que, como os anteriores, deverá ser fecundo em flores e frutos. A Igreja renova a sua juventude como a águia; mais uma vez vai dirigir na terra o desenvolvimento do sagrado ciclo, derramando, por sua vez, sobre o povo fiel as graças de que é portadora. Neste momento, oferece-nos o conhecimento e o amor do Menino Deus: sejamos dóceis a esta primeira iniciação para que mereçamos crescer com Cristo em idade e em sabedoria, diante de Deus e dos homens 21. O mistério do Natal é a porta de todos os demais; mas porta da terra e não do céu. “Não podemos ainda, diz San Agostinho (Sermão XI sobre o Nascimento do Senhor), não podemos ainda contemplar o resplendor dAquele que é gerado pelo Pai antes da aurora 22; visitemos Aquele que nasceu de uma Virgem à meia-noite. Impossível compreender como o seu Nome é antes do sol 23; confessemos que pôs a sua tenda naquela que é pura como o sol 24. Não nos é dado ver ainda o Filho que habita no seio do Pai; lembremo-nos do Esposo que sai da câmara nupcial 25. Não estamos ainda maduros para o banquete de nosso Pai; reconheçamos a manjedoura de Jesus Cristo nosso Senhor 26”.
1. Ap. 19, 7.
2. Lc. 2, 16.
3. Mt. 2, 10.
4. Is. 9, 6.
5. Prov. 15, 15.
6. Jo. 3, 16.
7. Is. 53, 7.
8. Rm. 8, 32.
9. Ct. 1, 15.
10. O Sábado da segunda semana do Advento.
11. Jo. 14, 2.
12. Jo. 8, 12.
13. Sl. 33, 6.
14. Lc. 11, 28.
15. Mt. 12, 50.
16. Mt. 3, 17.
17. Rm. 8, 29.
18. Lc. 2, 12.
19. Tito. 3, 4.
20. Lc. 14, 23.
21. Ibid. 2, 52.
22. Sl. 109, 3.
23. Sl. 71, 17.
24. Ibid. 18, 6.
25. Ibid.
26. Is. 1, 3.


