Mística do Tempo do Natal
MÍSTICA DO TEMPO DO NATAL
Tudo é misterioso nos dias que nos ocupam. O Verbo divino, cuja geração é anterior à aurora, nasce no tempo; um Menino é Deus; uma Virgem é Mãe permanecendo Virgem; entrelaçam-se o divino e o humano, e a sublime e inefável antítese expressa pelo discípulo amado naquela frase de seu Evangelho: O VERBO SE FEZ CARNE, repete-se sob todas as formas e tons nas orações da Igreja, resumindo admiravelmente o grande prodígio que acaba de se verificar na união da natureza divina com a humana.
Mistério desconcertante para a inteligência, mas doce ao coração dos fiéis; é a consumação dos desígnios divinos no tempo, motivo de admiração e assombro para os Anjos e Santos na eternidade, e ao mesmo tempo princípio e motivo de sua felicidade. Vejamos como a Igreja o propõe a seus filhos na Liturgia.
O DIA DO NATAL
Eis-nos já chegados, como a um termo desejado, ao dia vinte e cinco de dezembro, depois de quatro semanas de preparação, símbolo dos milhares de anos do mundo antigo. O primeiro que sentimos é um movimento natural de estranheza ao ver que este dia é o único que possui a imutável prerrogativa de celebrar o Nascimento do Salvador; todo o ciclo litúrgico parece fatigar-se, ao contrário, todos os anos, ao tratar de dar à luz esse outro dia variável ao qual está ligada a memória do mistério da Ressurreição.
Já no século IV, Santo Agostinho julgou-se obrigado a explicar esta diferença em sua famosa epístola ad Ianuarium; nela diz que celebramos unicamente o dia do Nascimento do Salvador para comemorar o Nascimento realizado por nossa salvação, sem que o próprio dia em que ocorreu tenha em si algum significado misterioso; ao passo que o dia da semana em que se realizou a Ressurreição foi escolhido, nos decretos eternos, para expressar um mistério do qual se devia fazer expressa comemoração até o fim dos séculos. Santo Isidoro de Sevilha e o antigo comentador dos ritos sagrados, que durante muito tempo se pensou ser Alcuíno, aderem nesta matéria ao parecer do Bispo de Hipona; Durando, em seu Rationale, nada mais faz que explicar suas palavras.
Estes autores fazem notar que, conforme à tradição eclesiástica, tendo ocorrido a criação do homem numa sexta-feira e tendo morrido o Salvador nesse mesmo dia para expiar o pecado dos homens; e tendo-se, por outro lado, realizado a Ressurreição de Jesus Cristo ao terceiro dia, isto é, no Domingo, dia em que o Gênesis assinala a criação da luz, “as solenidades da Paixão e Ressurreição, como diz Santo Agostinho, não têm por objeto somente comemorar os fatos, mas têm, além disso, um sentido sagrado e misterioso”1.
Mas não creiamos que, por não estar ligada a nenhum dia da semana em particular, a celebração da festa de Natal em 25 de dezembro tenha ficado completamente isenta de um significado místico. Em primeiro lugar, poderíamos afirmar, com os antigos liturgistas, que a festa de Natal percorre sucessivamente todos os dias da semana, para santificá-los e absolvê-los da maldição que o pecado de Adão fizera recair sobre cada um deles.
Mas existe outro mistério muito mais sublime a declarar na escolha deste dia; mistério que, se não se refere à divisão do tempo que o próprio Deus traçou e que chamamos semana, relaciona-se do modo mais significativo com o curso do grande astro por cujo meio renascem e se conservam sobre a terra o calor e a luz, isto é, a vida.
Jesus Cristo, nosso Salvador, a luz do mundo2, nasceu no momento em que a noite da idolatria e do pecado mantinha o mundo submerso nas mais densas trevas. E eis que o dia desse nascimento, 25 de dezembro, é precisamente aquele em que este sol material, em luta com as trevas e já próximo de se extinguir, reanima-se de repente e se dispõe ao triunfo.
No Advento, já havíamos notado, com os Santos Padres, a diminuição da luz física como triste símbolo destes dias de espera universal; com a Igreja, suspiramos pelo divino Oriente, pelo Sol de Justiça, o único que nos poderia livrar dos horrores da morte do corpo e da alma. Deus nos ouviu, e no mesmo dia do solstício de inverno, célebre no mundo antigo por seus temores e regozijos, concede-nos juntamente a luz material e a tocha das inteligências.
São Gregório de Nissa, Santo Ambrósio, São Máximo de Turim, São Leão, São Bernardo e os mais célebres liturgistas comprazem-se em assinalar o profundo mistério impresso em sua obra, ao mesmo tempo natural e sobrenatural, pelo Criador do universo; veremos que também fazem alusão a ele as orações da Igreja no Tempo do Natal, como o fizeram no Advento.
“Neste dia que o Senhor fez — diz São Gregório de Nissa em sua Homilia sobre o Natal —, as trevas começam a diminuir e cresce a luz, sendo a noite arrojada para além de suas fronteiras. Em verdade, meus irmãos, isto não sucede por acaso nem por capricho de uma vontade estranha, no dia em que resplandece Aquele que é a vida divina dos homens. É a natureza que, sob este símbolo, revela um segredo aos que têm o olhar penetrante e são capazes de compreender esta circunstância da vinda do Senhor.
Parece-me ouvir dizer: Ó homem!, pensa que, sob as coisas que contemplas, te são revelados mistérios escondidos. A noite, bem o sabes, havia chegado à sua mais longa duração e de repente se detém. Considera a funesta noite do pecado, que havia chegado ao seu cúmulo, reunindo em si toda espécie de culpáveis artifícios; no dia de hoje foi detida a sua carreira. Desde hoje será menor e em breve ficará reduzida a nada. Contempla agora os raios do sol mais vivos, o próprio astro mais elevado no céu, e ao mesmo tempo considera a verdadeira luz do Evangelho que aparece diante de todo o mundo.”
“Alegremo-nos, meus irmãos — exclama por sua vez Santo Agostinho —, porque este dia é sagrado, não por causa do sol visível, mas pelo nascimento do invisível Criador do sol. O Filho de Deus escolheu este dia para nascer, assim como escolheu também uma Mãe, Ele, criador ao mesmo tempo do dia e da Mãe. Este dia, efetivamente, no qual a luz começa a crescer, era apropriado para simbolizar a obra de Cristo, que, por meio de sua graça, renova continuamente o nosso homem interior. Tendo o Criador eterno resolvido nascer no tempo, convinha que o dia de seu nascimento estivesse de acordo com a criação temporal”3.
Em outro sermão sobre a mesma festa, o Bispo de Hipona nos dá a chave de uma misteriosa frase de São João Batista, que confirma maravilhosamente o pensamento tradicional da Igreja. Este admirável Precursor havia dito, falando de Cristo: É necessário que Ele cresça e que eu diminua4. Frase profética que, em seu sentido literal, significava que a missão de São João Batista ia concluir-se, enquanto a do Salvador estava começando; mas podemos ver também nela, com Santo Agostinho, um segundo mistério: “João veio ao mundo quando os dias começam a diminuir; Cristo nasceu no momento em que começam a crescer”5. Deste modo, tudo é misterioso: o aparecimento do Astro Precursor no solstício de verão e a aparição do Sol celestial no tempo das trevas.
A ciência míope e já antiquada dos Dupuis e dos Volney julgava ter derrubado os fundamentos da superstição religiosa por haver descoberto, entre os povos antigos, a existência de uma festa do sol no solstício de inverno; parecia-lhes que uma religião não podia considerar-se divina desde o momento em que seu culto oferecia analogias com fenômenos de um mundo que, se devemos crer na Revelação, não foi criado por Deus senão em vista de Cristo e de sua Igreja. Nós, ao contrário, os católicos, encontramos a confirmação de nossa fé onde esses homens julgaram momentaneamente encontrar a sua ruína6.
Já explicamos, pois, o mistério fundamental desta festiva quarentena, ao descorrer o véu que ocultava, na predestinação eterna, o mistério desse dia vinte e cinco de dezembro, que haveria de ser o dia do Nascimento de Deus sobre a terra. Tratemos agora de descobrir com todo respeito um segundo mistério: o do lugar onde se realizou o Nascimento.
O LUGAR DO NASCIMENTO
Trata-se de Belém. De Belém sairá o chefe de Israel. Dissera-o o Profeta7; sabem-no os Pontífices judeus, e dentro de poucos dias o declararão a Herodes8. Mas por que razão foi escolhida esta obscura cidade, de preferência a outra, para ser o cenário de tão sublime acontecimento? Estai atentos, ó cristãos! O nome da cidade de Davi significa casa do Pão: eis por que a escolheu para nela se manifestar Aquele que é o Pão vivo descido do céu9. Nossos pais comeram o maná no deserto e morreram10; pois eis o Salvador do mundo, que vem alimentar a vida do gênero humano por meio de sua carne, que é verdadeiro alimento11.
Até agora Deus permanecia afastado do homem; doravante, ambos não serão mais que uma só coisa. A Arca da Aliança, que continha somente o maná corporal, é substituída pela Arca da nova Aliança; Arca mais pura e incorruptível que a antiga: a incomparável Virgem Maria, que nos apresenta o Pão dos Anjos, alimento que transforma o homem em Deus; pois, segundo disse Jesus Cristo: Aquele que come a minha carne vive em mim e eu nele12.
JESUS, NOSSO PÃO
Esta é a divina transformação que o mundo esperava há tanto tempo e pela qual suspirou a Igreja durante as quatro semanas do Tempo do Advento. Enfim chegou a hora, e Cristo vai entrar em nós, se quisermos recebê-lo13. Seu desejo é unir-se a nós como já se uniu à natureza humana em geral, e para isso quer fazer-se nosso Pão, nosso alimento espiritual. Não tem outra finalidade sua vinda às almas neste período místico. Não vem julgar o mundo, mas salvá-lo, para que todos tenham vida, e vida mais abundante14.
Não descansará, pois, o divino amigo de nossas almas até que tenha penetrado em nós de tal forma que já não sejamos nós que vivamos, mas Ele em nós; e, para que com mais suavidade se realize o mistério, o doce fruto de Belém dispõe-se a entrar em nós sob a forma de menino, para depois ir crescendo em idade e sabedoria diante de Deus e dos homens15.
E quando nos houver transformado em si, depois de nos ter visitado por sua graça e pelo alimento de seu amor, ainda realizará em nós um novo prodígio. Feitos uma só carne e um só coração com Jesus, Filho do Pai celestial, seremos também, por esse mesmo fato, filhos de seu Pai, de maneira que o discípulo amado possa exclamar: Filhinhos meus, vede que caridade nos fez o Pai, que sejamos chamados filhos de Deus, e o sejamos de fato16. Mas desta suprema felicidade da alma cristã, e dos meios que lhe são oferecidos para mantê-la e aumentá-la, falaremos em outro lugar mais detidamente.
LITURGIA DO NATAL
Resta-nos dizer algumas palavras sobre as cores simbólicas usadas pela Igreja neste tempo. A adotada durante os vinte primeiros dias, que vão até a Oitava da Epifania, é o branco. Somente o abandona para honrar a púrpura dos mártires Estêvão e Tomás de Cantuária, e para associar-se ao luto de Raquel que chora por seus filhos, na festa dos Santos Inocentes; fora destes três casos, a brancura dos ornamentos sagrados manifesta a alegria que os Anjos comunicaram aos pastores, o brilho do nascente Sol divino, a pureza da Virgem Mãe e o candor das almas fiéis que se apinham ao redor do berço do Menino Deus.
Durante os vinte últimos dias, as frequentes festas dos Santos exigem que os ornamentos da Igreja estejam em harmonia, seja com as rosas dos Mártires, seja com as imortais que formam a coroa dos Pontífices e Confessores, seja com os lírios que adornam as Virgens. Aos Domingos, quando não coincide com eles nenhuma festa de rito duplo de segunda classe que imponha a cor vermelha ou branca, e quando a Septuagésima ainda não começou essa série de semanas que precedem a Paixão de Cristo, os ornamentos da Igreja são de cor verde.
A escolha desta cor quer indicar, segundo os liturgistas, que, com o Nascimento do Salvador, que é a flor dos campos17, nasceu também a esperança de nossa salvação e que, passado o inverno da gentilidade e do judaísmo, começa a reverdecer a primavera da graça.
Terminamos aqui a explicação mística das práticas gerais do Tempo do Natal. Sem dúvida, restam-nos ainda numerosos símbolos a esclarecer; mas, como os mistérios a que se referem são próprios de certos dias em particular, mais que do conjunto desta parte do Ano Litúrgico, deles trataremos detalhadamente, dia por dia, sem omitir nenhum.
1. Epist. Ad Ianuarium.
2. Jo. 8, 12.
3. Sermão 3 no Natal do Senhor.
4. Jo. 3, 30.
5. Sermão 11 no Natal do Senhor.
6. Já vimos que a festa do Natal inicialmente não ocupava um lugar uniforme nos vários calendários da Igreja. Muitos autores hoje acreditam que esta festa foi definitivamente fixada em 25 de dezembro para distanciar os fiéis de uma festa pagã muito popular, a festa do solstício, que celebrava o triunfo do sol sobres trevas na noite de 24 para 25 de dezembro. Este sistema de opor uma festa cristã a uma festa pagã muito em voga foi frequentemente empregado pela Igreja nos primeiros séculos e sempre com resultados positivos.
7. Mq. 5, 2.
8. Mt. 2, 5.
9. Jo. 6, 41.
10. Ibid. 6, 49.
11. Ibid. 6, 56.
12. Ibid. 57.
13. Jo. 1, 12.
14. Ibid.. 10, 10.
15. Lc. 2, 40.
16. I Jo. 3, 1.
17. Ct. 2, 1.


