Oratório São José

XIV Domingo depois de Pentecostes

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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XIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

MISSA

“Vede, ó Deus, nosso protetor, e contemplai o rosto de vosso Ungido.” Assim começa hoje a Igreja ao aproximar-se do altar. A Igreja é a Esposa do Homem-Deus e sua glória1; mas o Esposo — diz São Paulo — é, ao mesmo tempo, a imagem e a glória de Deus2, e a cabeça da Esposa3. Assim, com toda verdade e como que com plena segurança de ser ouvida, a Igreja, dirigindo-se ao Deus três vezes santo, roga-Lhe que, ao olhá-la, contemple o rosto de seu Ungido.

INTRÓITO – Vede, ó Deus, nosso protetor, e contemplai o rosto de vosso Ungido; porque mais vale um dia em vossos átrios do que mil.
Salmo: Quão amáveis são vossos tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! Minha alma desfalece e suspira pelos átrios do Senhor.
℣. Glória ao Pai.

As glórias futuras, a cujo pensamento a Igreja salta de alegria, e a dignidade da união divina, que já neste mundo a faz verdadeiramente Esposa, não são obstáculo para que ela deixe de sentir a contínua necessidade que tem do socorro do alto.

Em um só instante de desamparo por parte do céu, veria que a fragilidade humana, afastando seus membros das virtudes que o Apóstolo exalta na Epístola, os arrastaria ao abismo do vício descrito no mesmo lugar. Peçamos com nossa Mãe, na Coleta, essa assistência misericordiosa de cada momento, que nos é tão necessária.

COLETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, que guardeis a vossa Igreja com perpétua proteção; e, visto que sem Vós desfalece a humana fragilidade, fazei que, com vossos auxílios, ela sempre se abstenha do que é nocivo e tenda ao que é salutar. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

EPÍSTOLA – Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Gálatas.

Irmãos: Andai no Espírito, e não satisfareis os desejos da carne. Porque a carne cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne; pois ambas as coisas se opõem mutuamente, de modo que não façais tudo quanto quereis. Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Ora, manifestas são as obras da carne, que são: fornicação, impureza, impudicícia, luxúria, idolatria, feitiçarias, inimizades, contendas, ciúmes, iras, rixas, dissensões, seitas, invejas, homicídios, embriaguezes, glutonarias e outras semelhantes a estas; contra as quais vos previno, como já vos preveni outra vez: os que praticam tais coisas não alcançarão o reino de Deus. Mas os frutos do Espírito são: caridade, gozo, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade. Contra estas coisas não há lei. Porque os que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências.

ESPÍRITO E CARNE

Nas linhas que acabamos de ler, o Apóstolo nos fala da relação íntima que, em nossa vida, une estes três elementos: o Espírito, a liberdade e a caridade.

São Paulo, como aos judeus, diz também a nós: não há senão uma lei, a caridade. Quem ama cumpre toda a lei. A lei não é senão a divisão da caridade. A caridade lança fora todo egoísmo e, portanto, toda disputa, toda rivalidade, toda divisão, tudo quanto ameaça ou arruína a alegria e a vida cristã.

Obedeçamos ao Espírito — insiste o Apóstolo —, ao princípio interior de nossa vida sobrenatural, e guardemo-nos dos instintos da carne. Para ele, a carne é o egoísmo, todo o conjunto de disposições e tendências que não se submetem à ação de Deus.

É que trazemos em nós, mesmo depois do batismo e de nossa regeneração espiritual, um foco de desejos e cobiças opostas ao Espírito de Deus. Por isso, em nosso interior existe um conflito entre a carne, que tende a recobrar seu antigo império, e o Espírito, que sustenta o seu; conflito que cessa somente no instante em que, refeitos em Nosso Senhor Jesus Cristo, nos deixamos guiar pelo Espírito, e quando todas as obras do egoísmo perdem seu atrativo para nós.

As obras da carne — diz ele — são as que procedem do amor egoísta; no reino de Deus não há lugar para os que a elas se entregam.

Mas é coisa fácil reconhecer os frutos do Espírito. Estes frutos são obras santas, sadias, vivas, que o Apóstolo designa com o nome de “frutos”, não só porque são o produto final de nossa atividade sobrenatural, mas também porque se realizam com alegria, e porque Deus e nós saboreamos sua doçura e percebemos seu proveito.

São frutos que nos unem a Deus e nos fazem descansar n’Ele; que nos põem em ordem com o próximo; que nos ajudam a conservar o domínio de nós mesmos no meio dos diversos acontecimentos.

“Ora, os que são de Cristo, os que fazem parte de Cristo pelo batismo, deram morte à sua carne e à sua anterior vida adâmica, juntamente com seus desejos, suas tendências e suas cobiças. Foram elevados a uma ordem nova, onde o princípio de sua vida é o Espírito de Deus. Não têm de fazer outro esforço senão o de conservar morto aquilo que foi ferido de morte no dia de seu batismo; e, vivendo do Espírito, agir em tudo e deixar-se guiar pelo Espírito”4.

A Igreja canta no Gradual a alegre confiança que pôs no Senhor, seu Esposo. No versículo aleluiático, convida seus filhos a se alegrarem como ela em Deus, seu Salvador.

GRADUAL – Melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem.
℣. Melhor é esperar no Senhor do que esperar nos príncipes.

 

Aleluia, aleluia.
℣. Vinde, louvemos o Senhor; cantemos jubilosos a Deus, nosso Salvador.
Aleluia.

 

EVANGELHO – Continuação do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois senhores; porque, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamón. Por isso vos digo: não se angustie a vossa alma pelo que haveis de comer, nem o vosso corpo pelo que haveis de vestir. Não vale a alma muito mais que a comida, e o corpo mais que o vestuário? Olhai as aves do céu: não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? E quem de vós, preocupando-se, poderá acrescentar um côvado à sua estatura? E por que vos preocupais com o vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, quanto mais o fará convosco, homens de pouca fé? Não vos angustieis, pois, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos cobriremos? Porque tudo isso os gentios procuram. Pois vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas. Buscai, portanto, primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.

AS TRÊS CONCUPISCÊNCIAS

A vida sobrenatural, para chegar ao seu pleno desenvolvimento nas almas, deve triunfar de três inimigos que São João chamou concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida5.

Acabamos de ver, na Epístola do dia, o obstáculo que o primeiro destes inimigos opõe ao Espírito Santo e a maneira de vencê-lo; a humildade — e sobre ela a Igreja chamou mais de uma vez a atenção nos domingos precedentes — é a destruição do orgulho da vida.

O Evangelho que acabamos de ler tem por objeto a concupiscência dos olhos, isto é, o apego aos bens deste mundo, que não têm de bens senão a falsa aparência.

O BOM USO DAS RIQUEZAS

“Ninguém — diz o Homem-Deus — pode servir a dois senhores”; e estes dois senhores de que fala são Deus e Mamón, isto é, a riqueza.

E não que a riqueza seja má em si mesma. Adquirida legitimamente e empregada segundo a vontade do supremo Senhor, serve para ganhar os verdadeiros bens e ajuntar por antecipação, na pátria eterna, os tesouros que não temem ladrões nem traça6.

Embora a pobreza seja a nobreza dos céus desde que o Verbo divino se desposou com ela, incumbe ao rico uma grande função, colocado em nome do Altíssimo para tornar úteis as diversas porções da criação material. Deus digna-se confiar aos seus cuidados o alimento e o vestuário de seus filhos mais amados, dos membros pobres e pacientes de seu Ungido; chama-o a ser apoio dos interesses de sua Igreja e promotor de obras que lhe mereçam a salvação; confia-lhe o esplendor de seus templos.

Feliz e digno de todo louvor é aquele que, desse modo, ordena diretamente à glória do Criador os frutos da terra e os metais que ela encerra em seu seio! Não tema: não terão sido pronunciados contra ele os anátemas que com tanta frequência saíram da boca do Homem-Deus contra os ricos e afortunados do mundo.

Não tem senão um amo: o Pai celestial, de quem se confessa humilde administrador. Mamón não o domina; antes, ele tem Mamón por escravo e sujeito ao serviço de seu zelo. O cuidado que põe em administrar seus bens segundo a justiça e a caridade não é condenado pelo Evangelho, já que também então obedece à palavra de Jesus Cristo de buscar primeiro o reino de Deus. Por suas mãos passam as riquezas em boas obras, sem distrair seus pensamentos do céu, onde está seu tesouro e seu coração7.

O MAU USO DAS RIQUEZAS

Ocorre o contrário quando as riquezas já não são consideradas como simples meio, mas como fim da existência, até o ponto de descuidar e, às vezes, esquecer por causa delas o nosso último fim.

Os caminhos do avarento roubam sua alma — diz o Espírito Santo8. E é que, com efeito, como explica o Apóstolo a seu discípulo Timóteo, o amor ao dinheiro precipita o homem na tentação e nos laços do diabo, pelo tumulto de desejos perniciosos e vãos que engendra; afunda-o cada vez mais no abismo, até fazê-lo vender sua fé, se necessário9.

E, apesar disso, o avarento, quanto mais acumula, menos gasta. Guardar seu tesouro ciosamente, contemplá-lo10, pensar somente nele quando precisa ausentar-se: nisso está posta toda a sua vida; sua paixão converte-se em idolatria11.

E Mamón, com efeito, já não é para ele apenas um senhor; é um deus diante do qual o avarento, inclinado dia e noite, sacrifica amigos, parentes, pátria e a si mesmo, consagrando sua alma ao seu ídolo e lançando-lhe ainda em vida — diz o Eclesiástico — suas próprias entranhas12.

Não nos admiremos de que o Evangelho represente Deus e Mamón como rivais irreconciliáveis. Quem senão Mamón viu Deus em pessoa sacrificado por trinta moedas de prata sobre seu altar? Haverá algum anjo caído cuja glória espantosa brilhe com fulgor mais sinistro sob as abóbadas infernais do que o demônio do interesse, autor da venda que entregou o Verbo eterno aos carrascos?

O deicídio está por conta dos avarentos; sua miserável paixão, que o Apóstolo qualifica como raiz de todos os males13, reclama legitimamente para si o maior crime que o mundo cometeu.

LIÇÃO DE CONFIANÇA

Mas, sem chegar aos excessos que fizeram os autores inspirados dos livros da Antiga Aliança dizerem: “Nada há mais criminoso que o avarento, nada mais perverso do que amar o dinheiro”14, é fácil deixar-se arrastar, em relação aos bens deste mundo, por um zelo exagerado que ultrapasse aquele que a prudência permite.

O Criador, que cuida dos pássaros do céu e dos lírios do campo, esquecer-se-á de alimentar e vestir o homem, para quem foram criados os lírios e os pássaros?

E, sobretudo, desde que o homem pode dizer a Deus: Pai, a inquietação que a simples razão condena seria, nos cristãos, uma injúria contra Aquele de quem são filhos. Sua baixeza de alma mereceria o desamparo do Senhor de todas as coisas.

Pelo contrário, se, correspondendo à sua nobreza de raça, buscam antes de tudo o reino de Deus, cuja coroa possuirão na verdadeira pátria, os bens do vale do desterro, na medida útil à viagem que os conduz ao céu, lhes estão assegurados pela palavra expressa do Senhor.

O Ofertório, como as outras partes desta Missa, exprime todo ele confiança. O chefe das milícias de Deus, o arcanjo São Miguel, cuja festa já está próxima e a quem a Igreja invoca todos os dias na bênção do incenso neste momento do Sacrifício, não está pronto a defender os que temem o Senhor?

OFERTÓRIO – O Anjo do Senhor acampa ao redor dos que O temem, e os livrará; provai e vede quão bom é o Senhor.

Na Secreta, pedimos que a Hóstia oferecida sobre o altar purifique nossa alma por sua virtude e faça que o poder divino se nos mostre favorável.

SECRETA – Nós Vos suplicamos, Senhor, que esta Hóstia salutar nos alcance a purificação de nossos pecados e a propiciação de vosso poder. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

COMUNHÃO – Buscai primeiro o reino de Deus, e todo o mais vos será dado por acréscimo, diz o Senhor.

Pureza cada vez maior, proteção do céu e perseverança final: tais são os preciosos frutos da frequência aos mistérios. Alcancemo-los, rogando com a Igreja na Pós-comunhão.

PÓS-COMUNHÃO – Purifiquem-nos sempre, ó Deus, e defendam-nos os vossos Sacramentos; e levem a efeito em nós a obra da salvação eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.


 

1. I Cor. 11, 7.

2. Ibid.

3. I Cor. 11, 3; Ef. 5, 23.

4 . Dom Delatte, Epítres de Saint Paul, I, p. 536-538.

5. I Jo. 2, 16.

6. Mt. 6, 19-20.

7. Mt. 6, 21.

8. Prov. 1, 19.

9. I Tm. 6, 9-10.

10. Ecl. 5, 9-10.

11. Ef. 5, 5; Cl. 3, 5.

12. Ecl. 10, 10.

13. I Tm. 6, 10.

14. Ecl. 10, 9-10

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