Oratório São José

Terça-Feira dentro da Oitava do Sagrado Coração

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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TERÇA-FEIRA DA INFRAOITAVA DO S. C.

O DEVER DA REPARAÇÃO

UMA DÍVIDA DE JUSTIÇA E DE AMOR

Ao dever da consagração está anexa, como consequência natural, outra obrigação: a de oferecer ao amor esquecido e desprezado de nosso Deus uma compensação pelas indiferenças, ofensas e injúrias que Lhe inflige o gênero humano. Isto é o que se chama reparação.

Duplo é o motivo — diz a Encíclica Miserentissimus Redemptor — que nos obriga à reparação: um de justiça, a fim de que a ofensa feita a Deus por nossos crimes seja expiada, e que a ordem violada seja restabelecida pela penitência; outro de amor, que nos inclina a participar do sofrimento de Cristo, doloroso e saturado de opróbrios, e a procurar-Lhe, segundo o permita a nossa pequenez, algum consolo.

Obrigação de justiça e de amor; certamente, o pecado não é apenas a violação de uma lei que tem Deus por autor e guardião; é, além disso, uma injúria pessoal contra Ele e um desprezo prático de seu amor. É, pois, natural que Deus, como requisito para alcançar o perdão, exija uma reparação que seja o reconhecimento de sua grandeza e de seu amor.

E o homem, longe de se estranhar desta exigência divina, deveria antecipar-se por si mesmo e persuadir-se da necessidade que tem de fazer esquecer, em certo sentido, a Deus a ingratidão de que é culpado; e, fixos os olhos no Crucifixo, na chaga do lado do Salvador, vendo aquele Coração traspassado, deveria decidir-se a reparar diante da justiça divina todo o mal, por meio de obras exteriores de penitência.

Ora, todos pecamos, e a todos incumbe o dever da expiação. Mas, por nós mesmos, não podemos oferecer a Deus uma reparação suficiente. Criaturas de poderes muito limitados, somos incapazes de saldar uma dívida, em certo sentido, infinita.

E por isso o Verbo, em sua misericórdia, quis tomar uma natureza humana para resgatar, pela virtude de seu Sacrifício, toda a raça humana: “Carregou nossas enfermidades e dores; por nossas iniquidades esteve coberto de chagas; levou nossos pecados em seu corpo sobre a cruz, para que, mortos ao pecado, vivêssemos para a justiça.” Mas Ele quis deixar voluntariamente sua obra incompleta: tendo-nos resgatado sem nós, não quis salvar-nos sem nós, e devemos completar em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo.

FAZER PENITÊNCIA

Que fazer, em consequência? Diz-nos São Pedro, como o disse aos judeus de Jerusalém: “Fazei penitência!” E qual é a primeira penitência que se nos impõe?

“A penitência de que fala o Príncipe dos Apóstolos certamente não exclui as obras aflitivas das quais se serve o homem para castigar em sua própria carne o pecado e evitar o seu retorno; mas seu pensamento se estende mais longe: tende à mudança de vida, à renúncia de toda disposição e costume reprovados por Deus”1.

Este é também o pensamento de São Paulo quando nos pede “que levemos em nossos corpos a mortificação de Jesus”2, e que “crucifiquemos nossa carne com suas concupiscências”3, e “rejeitemos a corrupção da concupiscência que reina no mundo”.

E por que isto? “Para que a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos”4, e para que, unidos à imolação da única Vítima, feitos participantes do sacerdócio eterno do Sumo Sacerdote, ofereçamos a Deus “dons e sacrifícios pelos pecados”5.

É também o pensamento do Papa quando nos diz: “Quanto mais perfeitamente nossa oblação e nosso sacrifício corresponderem ao Sacrifício do Senhor, isto é, quanto mais perfeita for a imolação de nosso amor-próprio e de nossa concupiscência; quanto maior for a crucifixão de nossa carne, essa crucifixão mística de que nos fala o Apóstolo, tanto mais abundantes serão os frutos propiciatórios e expiatórios que alcançaremos para nós e para os demais.

Eis, sem dúvida, a intenção do misericordioso Jesus quando nos descobriu seu Coração, aureolado com os emblemas da Paixão e rodeado de chamas: queria que, depois de termos considerado a malícia infinita do pecado e admirado o amor infinito do Redentor, detestássemos energicamente o pecado e Lhe retribuíssemos, com fervor mais ardente, amor por amor.”

ATO DE DESAGRAVO

Animados por este espírito, podemos fazer-Lhe este ato de desagravo, redigido pelo Pe. Croiset. Escrevendo-lhe Santa Margarida Maria a respeito desta oração, dizia-lhe: “Estou certa de que Jesus Cristo o ajudou em seu trabalho, pois tudo, se não me engano, é tão de seu agrado que não creio que haja algo a mudar.”

“Adorabilíssimo e amantíssimo Jesus, sempre cheio de amor para conosco, sempre comovido por nossas misérias, sempre animado pelo desejo de nos fazer participantes de vossos tesouros e de Vos dar a Vós mesmo a nós; Jesus, Senhor e Deus uno, que, por um excesso do mais ardente e prodigioso dos amores, permanecestes em estado de Vítima na adorável Eucaristia, onde Vos ofereceis por nós em sacrifício milhões de vezes ao dia: quais devem ser os vossos sentimentos neste estado, quando não encontrais nos corações da maior parte dos homens senão frieza, esquecimento, ingratidão e desprezo?

Não Vos bastou, meu Salvador, ter escolhido para nos salvar o caminho mais espinhoso, podendo testemunhar-nos vosso excessivo amor com menor custo para Vós? Não Vos bastou ter-Vos abandonado uma vez a esta cruel agonia e a esta mortal prostração que Vos causou o horrível espetáculo oferecido por nossos pecados, dos quais Vos havíeis carregado?

Por que, pois, quereis ainda expor-Vos diariamente a todas as irreverências de que é capaz a malícia dos homens e dos demônios? Ah, meu Deus e meu amabilíssimo Redentor! Quais foram os sentimentos de vosso Sagrado Coração ao contemplar tanta ingratidão e pecado? Qual foi a vossa amargura, quando vosso Coração sofreu tantos sacrilégios e ultrajes?

Arrependido sinceramente de todas estas indignidades, eis-me aqui, Senhor, prostrado e confundido diante de vossa divindade, para fazer um ato de desagravo, aos olhos do céu e da terra, por todas as irreverências e ultrajes que recebestes em nossos altares desde que foi instituído este divino Sacramento.

Com coração humilde e contrito, peço-Vos uma e mil vezes perdão por todas essas irreverências. Quem me dera, meu Deus, inundar com minhas lágrimas e regar com meu próprio sangue todos os lugares em que vosso Coração foi tão horrivelmente ultrajado, e os sinais de vosso amor divino recebidos com indiferença tão desdenhosa!

Oxalá pudesse eu, por um novo gênero de homenagem, de humilhação e de aniquilamento, expiar tanto sacrilégio e profanação! Quem pudesse ser, ainda que por um só momento, senhor de todos os corações humanos, para compensar, de certo modo, pelo sacrifício que Vos ofereceria, o esquecimento e a indiferença de todos aqueles que não quiseram conhecer-Vos, ou que, tendo-Vos conhecido, não Vos amaram!

Mas, ó amabilíssimo Salvador, o que mais me enche de confusão e me faz chorar amargamente é pensar que eu mesmo fui do número desses ingratos. Meu Deus, que vedes o fundo de meu coração, Vós conheceis a dor que sinto por minhas ingratidões e a pena de Vos ver tratado tão indignamente.

Estou disposto a sofrer tudo para apagá-las. Eis-me aqui, Senhor, com o coração transpassado de dor, humilhado e prostrado, pronto a aceitar de vossa mão tudo quanto exigirdes de mim. Feri, Senhor, feri; bendirei e beijarei cem vezes a mão que exercer sobre mim um castigo tão justo.

Oxalá fosse eu uma vítima própria para reparar tantas injúrias! Seria feliz se pudesse, por toda sorte de tormentos, indenizar-Vos de tanto desprezo e impiedade! E se não mereço esta graça, aceitai ao menos o meu desejo.

Recebei, Pai eterno, este ato de desagravo, em união com aquele que este Sagrado Coração Vos fez no Calvário e que Maria Vos ofereceu ao pé da cruz de seu Filho; e, pela oração que Vos dirige seu Coração, perdoai-me tão grande número de irreverências e indignidades cometidas, e tornai eficaz, por vossa graça, o meu desejo e resolução de não poupar fadiga para amar ardentemente e honrar, por todos os meios possíveis, o meu Soberano, o meu Salvador e o meu Juiz, que confesso realmente presente na adorável Eucaristia.

Nela quero mostrar, doravante, com minha conduta respeitosa diante de sua presença e por minha assiduidade em visitá-Lo, que O creio realmente presente. E assim como faço profissão de honrar de modo especial o seu Sacratíssimo Coração, nesse mesmo Coração quero passar o resto de minha vida. Concedei-me a graça que Vos peço: exalar meu último suspiro nesse mesmo Coração na hora de minha morte. Assim seja.”


 

1. Dom Delatte, Epitres de S. Paulo, I, 33.

2. II Cor. 4, 10.

3. Gl. 5, 24.

4. II Cor. 4, 10.

5. Hb. 5, 1.

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