Segunda-Feira dentro da Oitava de Corpus Christi
SEGUNDA-FEIRA DA INFRAOITAVA DO CORPUS
A CEIA, O CALVÁRIO E A MISSA
O SACRIFÍCIO PERMANENTE
O Sacrifício da Cruz domina os séculos e enche a eternidade. Um só dia, entretanto, O viu oferecer-Se na sucessão dos tempos, assim como um só lugar no espaço. E, apesar disso, em nenhum lugar e em nenhum tempo pode o homem prescindir do Sacrifício, efetuado sem cessar, renovado continuamente diante de seus olhos; porque, como vimos, o Sacrifício é o centro necessário de toda religião, e o homem não pode prescindir da religião, que o une a Deus e forma o primeiro dos laços sociais.
Assim como, para corresponder a esta imperiosa necessidade, a Sabedoria estabeleceu desde o princípio aquelas oferendas simbólicas que anunciavam o único Sacrifício e dele tomavam o seu valor, do mesmo modo, a oblação da grande Vítima, uma vez efetuada, deve também socorrer as necessidades das nações e prover o mundo de um Sacrifício permanente: memorial, e não mais figura; verdadeiro Sacrifício que, sem destruir a unidade daquele da Cruz, aplica seus frutos cada dia aos novos membros das gerações vindouras.
INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA
Não relataremos aqui a Ceia do Senhor nem a instituição do novo sacerdócio. Na Quinta-feira Santa, isso foi descrito detalhadamente. Então a Sabedoria, no termo de suas aspirações eternas, cum facta esset hora1, nesta hora tão diferida, senta-Se ao banquete da aliança com aqueles doze homens, representantes da humanidade inteira.
Encerrando o ciclo das figuras na última imolação do Cordeiro pascal, exclama: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco”2, como querendo, neste momento supremo, aliviar seu coração das longas vicissitudes que seu amor sofreu.
E, de repente, antecipando-Se aos judeus, imola sua Vítima, o Cordeiro divino figurado por Abel, predito por Isaías, assinalado por João, o Precursor3. E, por uma maravilhosa antecipação, o cálice sagrado já contém o seu Sangue, que correrá amanhã sobre o Calvário; e sua divina mão já apresenta aos discípulos o pão mudado em seu Corpo, convertido em resgate do mundo: “Comei, bebei todos; e, assim como neste momento antecipei para vós a minha morte, quando Eu tiver desaparecido deste mundo, fazei isto em memória de Mim”4.
A aliança, doravante, está feita. Selado com sangue, como o antigo, o Novo Testamento é proclamado; e, se somente tem valor em previsão da morte real do testador5, é porque Cristo, Vítima entregue por todos à suprema vingança, convinha em sublime pacto com o Pai6 não associar a redenção universal senão ao drama do dia seguinte.
Cabeça da humanidade pecadora e responsável pelos crimes de sua raça, quer, para destruir o pecado, submeter-Se às severas leis da expiação e manifestar em seus tormentos, à face do mundo, os direitos da eterna justiça7. Mas a terra já está de posse do cálice que deve proclamar a morte do Senhor até que Ele venha8, comunicando9 a cada membro do gênero humano o verdadeiro Sangue de Cristo derramado por seus pecados10.
E certamente convinha que nosso Pontífice, longe do aparato de violência exterior que em breve iria desiludir seus discípulos, Se oferecesse por Si mesmo ao Pai em verdadeiro Sacrifício, a fim de manifestar claramente a espontaneidade de sua morte11 e afastar o pensamento de que a traição, a violência ou a iniquidade de alguns homens pudessem ser o princípio e a causa da salvação comum12.
Por isso, elevando os olhos ao Pai e dando graças, disse no presente, segundo a força do texto grego: “Este é o meu Corpo entregue por vós; este é o meu Sangue derramado por vós”13. Estas palavras, que transmite com seu poder aos depositários de seu sacerdócio, operam aquilo que significam.
Cada vez, pois, que sobre o pão de trigo e o vinho da vide caem da boca de um sacerdote estas palavras, comparáveis àquelas que tiraram do nada o universo, qualquer que seja, no espaço ou no tempo, a distância que separa o mundo da Cruz, a terra possuirá a augusta Vítima. Una na Ceia e sobre a Cruz, permanece una na oblação feita ao Pai em todos os lugares, pelo único Pontífice que toma e faz suas as mãos e a voz dos sacerdotes escolhidos pelo Espírito Santo para este sublime ministério.
O NOVO SACERDÓCIO
Quão excelsos devem ser estes homens, escolhidos, pela imposição das mãos, dentre seus irmãos! Novos Cristos, identificados com o Filho da Virgem puríssima, serão os privilegiados da divina Sabedoria, estreitamente unidos, pelo amor, ao seu poder, associados, como o próprio Jesus, à grande obra que Ele prossegue através dos séculos: a imolação da Vítima e a mistura do cálice14, onde a humanidade, unida à sua Cabeça em um mesmo sacrifício, vem ao mesmo tempo beber e unir-se intimamente à sua divindade¹³.
Cristo confia a oblação que deve ampliar seu Sacrifício, imortalizando-o, às mãos ainda frágeis daqueles a quem Se digna chamar seus amigos15 e irmãos16. Sua nobre mão estendeu-se, oferecendo em libação o sangue das uvas; derrama-o na base do altar que já se eleva, e o odor sobe dali até o Altíssimo.
Neste momento, e desde o próprio Cenáculo, ouviu os futuros cantos de triunfo que exaltariam o divino memorial e a salmodia sagrada que encheria a Igreja de incessante e suave harmonia; viu os povos prostrados, adorando o Senhor seu Deus em sua presença e rendendo ao Onipotente uma homenagem doravante perfeita. Então Se levantou da mesa do festim; saiu e renovou sua oblação, consumando seu Sacrifício com o sangue, querendo manifestar pela Cruz a virtude de Deus17.
O SACRIFÍCIO DA IGREJA
Bendita hora a do Sacrifício, quando o desterro parece menos pesado à Esposa de Cristo! Ainda sobre a terra, ela já honra a Deus com digna homenagem e vê afluírem em seu seio os tesouros do céu. Porque a Missa é seu bem, seu dote de Esposa; a ela compete regular a oblação, precisar as fórmulas e os ritos, e receber seus frutos.
O sacerdote é seu ministro; ela reza; ele imola a Vítima e dá à sua oração um poder infinito. O caráter eterno do sacerdócio, impresso por Deus na fronte do sacerdote, faz dele depositário do poder divino e coloca acima de toda força humana a validade do Sacrifício oferecido por suas mãos; mas ele não pode cumprir legitimamente esta oblação senão na Igreja e com ela.
Com que fidelidade a Igreja guarda o testamento que lhe legou, no Sacrifício, a eterna e viva memória da morte de Cristo na última Ceia! Se Ele Se dá a ela todo inteiro no mistério do amor, o estado de imolação em que Se apresenta a seus olhos a adverte de que deve pensar menos em regozijar-se com sua doce presença do que em aperfeiçoar e continuar sua obra, imolando-se com Ele.
A Igreja coloca os Mártires debaixo do altar, porque sabe que a Paixão de Cristo pede um complemento em seus membros18. Nascida na Cruz, de seu lado aberto, Ele a desposou na morte; e este primeiro abraço que, desde seu nascimento, colocou em seus braços o Corpo ensanguentado de seu Esposo, fez passar à alma da nova Eva o amor em cujo seio adormeceu o Adão celeste no Calvário.
Mãe dos viventes, a grande família humana acorre a ela com toda sorte de misérias e sem número de necessidades. A Igreja saberá valorizar o talento que lhe foi confiado: a Missa supre todas as necessidades; a Igreja satisfaz por ela seus deveres de Esposa e de Mãe. Identificando-se cada dia mais com a Vítima universal, que a reveste de sua infinita dignidade, adora a Majestade suprema e Lhe dá graças, implora o perdão das faltas antigas e novas de seus filhos, e pede para eles bens temporais e espirituais. O Sangue divino salta de seu altar sobre as almas padecentes, tempera a chama expiadora e as conduz ao lugar de refrigério, luz e paz19.
O CALVÁRIO E A MISSA
É tal a maravilhosa virtude do Sacrifício oferecido na Igreja, que os quatro fins em que se resume a religião inteira — adoração, ação de graças, propiciação e impetração — são alcançados independentemente das disposições do sacerdote ou daqueles que o rodeiam. Porque é a Hóstia que dá o valor; e a Hóstia do altar é a mesma do Calvário, Hóstia divina, igual ao Pai, que Se oferece a Si mesma como na Cruz, em uma só oblação, pelos mesmos fins.
O Criador do espaço e do tempo não é escravo deles; mostra-o neste mistério: “Do mesmo modo que oferece o Sacrifício em muitos lugares, e é um mesmo Corpo, e não muitos — diz São João Crisóstomo —, assim sucede com a unidade do Sacrifício nas diversas idades”20. Só o modo é distinto na Cruz e no altar. Cruento na Cruz, incruento no altar, a oblação permanece una21 em sua aplicação, não obstante esta diversidade.
A imolação da augusta Vítima apareceu na Cruz em seu sublime horror; mas a violência dos verdugos ocultava aos olhares o Sacrifício oferecido a Deus pelo Verbo encarnado na espontaneidade de seu amor. A imolação se oculta aos olhos no altar; mas a religião do Sacrifício aqui se manifesta e se desenvolve em todo o seu esplendor.
O Sangue divino deixou sobre a terra que o bebeu a maldição do deicídio; o cálice da salvação que a Igreja tem entre as mãos traz consigo a bênção do mundo. Por que o mundo, que antigamente se levantava depois das tempestades, lamenta agora uma decadência universal, onde a força só existe nos castigos de Deus? Agita-se em vão, sentindo ceder com ele, a cada passo, o braço de carne que se oferece para levar sua decrepitude. O Sangue do Cordeiro, sua antiga fortaleza, já não corre sobre a terra com a mesma abundância.
E, no entanto, o mundo ainda permanece de pé, e o está graças a este Sacrifício que, embora desprezado e diminuído, se oferece continuamente em muitíssimos lugares; e subsistirá até que, em um acesso de demência furiosa, faça cessar aqui na terra o Sacrifício eterno22.
1. Lc. 22, 14.
2. Ibid. 15.
3. São Gregório; Morales. 29, 31.
4. I Cor. 11, 24-25.
5. Hb. 9, 16-18.
6. Ibid. 12, 2.
7. Rm. 3, 25-26.
8. I Cor. 3, 25-26.
9. Ibid. 10, 16.
10. Lc. 22, 20.
11. Jo. 10, 18.
12. São Gregório Nacianceno, Orac. I sobre a ressurreição de Cristo.
13. Lc. 22, 19-20.
14. Prov. 9, 2.
15. Jo. 15, 15.
16. Ibid. 20, 17.
17. Ecl. 1, 15-28.
18. Cl. 1, 24.
19. Canon da Missa.
20. Homília 17 sobre a Epístola aos Hebreus.
21. Heb. 10, 14.
22. Dn. 10, 3-11.


