Segunda-Feira de Pentecostes
SEGUNDA-FEIRA DE PENTECOSTES
O ESPÍRITO SANTO E A CONVERSÃO DO MUNDO
O Espírito Santo tomou ontem posse do mundo, e os primeiros momentos da missão que recebera do Pai e do Filho anunciaram seu poder e preludiaram, com ostentação, suas futuras conquistas. Vamos seguir seu caminho e suas ações sobre a terra que Lhe foi confiada; a sucessão dos dias de tão solene Oitava nos permitirá assinalar, uma após outra, suas obras na Igreja e nas almas.
ISRAEL E A GENTILIDADE
Jesus é o Rei do mundo; recebeu de seu Pai as nações por herança. Ele mesmo nos declarou que “todo1 poder Lhe foi dado no Céu e na terra”2. Mas subiu ao Céu antes que seu império se estabelecesse neste mundo. O povo de Israel, a quem fez ouvir sua palavra, e diante de cujos olhos realizou os prodígios que atestavam sua missão, desprezou-O e deixou de ser seu povo3. Somente alguns de seus membros O receberam e ainda O receberão; mas a massa de Israel subscreve a exclamação sacrílega de seus pontífices: “Não queremos que reine sobre nós”4.
Também a gentilidade estava muito longe de receber o Filho de Maria por seu Senhor. Desconhecia sua pessoa, sua doutrina e sua missão. As antigas tradições da religião primitiva foram-se apagando gradualmente. O culto da matéria invadiu tanto o mundo civilizado como o mundo bárbaro, e prodigalizou-se adoração a toda criatura.
A moral estava alterada até em suas fontes mais sagradas e invioláveis. A razão obscureceu-se até naquela minoria imperceptível que se gloria com o nome de filósofos: “desvaneceram-se em seus pensamentos, e obscureceu-se o seu coração insensato”5. As raças humanas emigradas misturaram-se sucessivamente pela conquista. Tantas perturbações não deixaram nos povos senão a ideia da força, e o colossal império romano de César cai com todo o seu peso sobre a terra.
É o momento que o Pai celeste escolheu para enviar seu Filho a este mundo. Não há lugar para um rei das inteligências e dos corações; contudo, é necessário que Jesus reine sobre os homens e que seu reino seja recebido.
O PRÍNCIPE DESTE MUNDO
Entretanto, apresentou-se outro senhor, e os povos o acolheram. É Satanás, e seu império se estabeleceu com tanto poder que o próprio Jesus o chama Príncipe deste mundo. É preciso “lançá-lo fora”6; trata-se de expulsá-lo de seus templos, dos costumes, do pensamento, da literatura, das artes e da política, porque ele possui tudo.
Não é somente a humanidade depravada que resiste; é o forte armado7 que a guarda como seu domínio, e que não cederá diante de uma força criada.
Tudo está, pois, contra o reino de Cristo, e nada a seu favor. De que serve à impiedade moderna dizer, contra a evidência dos fatos, que o mundo estava preparado para uma revolução tão completa? Como se todos os vícios e todos os erros fossem preparação para todas as virtudes e todas as verdades! Como se bastasse ao homem vicioso sentir a miséria para compreender que sua desgraça provém de estar no mal, e resolver-se de repente, à custa de todos os sacrifícios, a tornar-se herói de virtude!
Não; para que Jesus reinasse sobre este mundo perverso, era necessário um milagre, e o maior de todos: um prodígio que, como disse Bossuet, não tem termo de comparação senão com o ato criador que fez sair os seres do nada.
Além disso, quem realizou este prodígio senão o Espírito Santo? Foi Ele quem quis que nós, que não vimos Nosso Senhor Jesus Cristo, estivéssemos tão certos de sua natureza divina e de sua missão de Salvador como se tivéssemos sido testemunhas de seus milagres e ouvintes de seus ensinamentos.
Com este fim, operou este prodígio dos prodígios, esta conversão do mundo, na qual “Deus escolheu o que era mais fraco no mundo para confundir o forte, e o que nada é para destruir o que é”8. Neste fato imenso e mais luminoso que o sol, o Espírito Santo tornou visível a sua presença e deu testemunho de si mesmo.
AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO SOBRE OS APÓSTOLOS
Vejamos de que meio Ele se serviu para assegurar o reino de Jesus sobre o mundo. Voltemos de novo ao Cenáculo. Considerai estes homens agora revestidos da força do Alto. Que eram eles pouco antes? Gente sem influência, de condição humilde, sem letras, de conhecida fraqueza.
Não é verdade que o Espírito Santo fez deles imediatamente homens eloquentes e do mais alto valor, homens que o mundo em breve conhecerá e que obterão sobre ele uma vitória diante da qual empalidecerão as dos mais gloriosos conquistadores? Também é necessário que a incredulidade o confesse: o fato é evidente demais. O mundo foi transformado, e esta transformação é obra destes pobres judeus do Cenáculo. Receberam o Espírito Santo no dia de Pentecostes, e este Espírito Santo cumpriu neles aquilo que devia fazer.
Deu-lhes três coisas naquele dia: a palavra, figurada pelas línguas; o ardor do amor, representado pelo fogo; e o dom dos milagres, que logo exercem. A palavra é a espada de que estão armados; o amor é o alimento da coragem que os fará desafiar tudo; e pelo milagre atrairão a atenção dos homens.
Tais são os meios diante dos quais o Príncipe deste mundo será obrigado a capitular; por eles o reino do Emanuel se estabelecerá em seu domínio, e todos estes meios procedem do Espírito Santo.
AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO SOBRE TODOS OS HOMENS
Mas o Espírito Santo não limita aí a sua ação. Não basta que os homens ouçam ressoar a palavra, admirem a coragem e vejam os prodígios. Não basta que vejam o esplendor da verdade, sintam a beleza da virtude e reconheçam a vergonha e o crime de sua situação.
Para chegar à conversão do coração, para reconhecer Deus neste Jesus que lhes será pregado, para amá-Lo e oferecer-se a Ele no Batismo, e até mesmo no martírio, é necessário que o Espírito Santo intervenha. Só Ele, como diz o Profeta, pode tirar de seu peito o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, capaz de experimentar o sentimento sobrenatural da fé e do amor.
O Espírito divino acompanhará sempre seus enviados: para eles, a ação visível; para Ele, a ação invisível; e a salvação do homem resultará desta colaboração. Será necessário que ambas as ações se exerçam sobre cada indivíduo, que a liberdade de cada um aceite e se entregue à pregação exterior do Apóstolo e à moção interior do Espírito.
Certamente, é grande obra levar a raça humana a confessar Jesus como seu Rei e Senhor; a vontade perversa resistirá por muito tempo; mas, passados três séculos, o mundo civilizado se colocará sob a Cruz do Redentor.
A CONVERSÃO DOS JUDEUS
Era justo que o Espírito Santo e seus enviados se dirigissem primeiro ao povo de Deus. Este povo “recebera em depósito os oráculos divinos”9. Fornecera o sangue da Redenção. Jesus havia declarado que fora enviado “às ovelhas perdidas da casa de Israel”¹10.
Pedro, seu vigário, devia herdar a glória de ser o Apóstolo do povo circuncidado, embora a gentilidade, na pessoa do centurião Cornélio, devesse ser por ele introduzida na Igreja, e a emancipação dos gentios batizados proclamada por ele na assembleia de Jerusalém.
Mas a honra era devida em primeiro lugar à família de Abraão, de Isaac e de Jacó. Por isso, o primeiro Pentecostes é judaico, porque nossos primeiros antepassados nesse dia são judeus. O Espírito Santo reparte primeiro seus dons à raça de Israel.
Vede agora partir de Jerusalém estes judeus que receberam a palavra e cujo Batismo fez verdadeiros filhos de Abraão. Terminada a solenidade, voltam às províncias da gentilidade em que habitam, levando em seus corações Jesus, a quem reconheceram por Messias, Rei e Salvador.
Saudemos estas primícias da Igreja, estes troféus do Espírito, estes portadores da boa nova. Não tardarão em ver chegar os homens do Cenáculo, que se voltarão para os gentios depois da inútil intimação feita à orgulhosa e ingrata Jerusalém.
Uma fraca minoria da nação judaica consentiu, pois, em reconhecer o Filho de Davi como herdeiro do Pai de família; a massa permaneceu rebelde e corre obstinadamente para a própria perdição. Como qualificar seu crime? Estêvão, o Protomártir, no-lo ensina. Dirigindo-se a estes indignos filhos de Abraão, disse-lhes: “Homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos, resistis continuamente ao Espírito Santo”11.
Tão culpável recusa de obedecer, na nação privilegiada, dá o sinal da migração dos Apóstolos para a gentilidade. O Espírito Santo não os abandona mais, e doravante, sobre os povos sentados nas sombras da morte, espalhará as torrentes da graça que Jesus mereceu aos homens por seu Sacrifício na Cruz.
A CONVERSÃO DOS PAGÃOS
Estes portadores da palavra de vida chegam às regiões pagãs. Tudo se une contra eles, mas eles triunfam de tudo. O Espírito que os anima fecunda neles seus dons. Age, ao mesmo tempo, sobre as almas de seus ouvintes; a fé em Jesus se estende rapidamente, e logo Antioquia, depois Roma e Alexandria, veem surgir em seu seio uma população cristã.
A língua de fogo percorre o mundo; não se detém nem nos limites do império romano, predestinado, segundo os Profetas, a servir de base ao império de Cristo. A Índia, a China, a Etiópia e cem povos distantes ouvem a voz dos Evangelistas da paz.
Mas não lhes basta dar testemunho pela palavra à dignidade real de um Senhor; devem-Lhe também o testemunho do sangue. Não tardarão. O fogo que os abrasou no Cenáculo os consome no holocausto do martírio.
Admiremos aqui o poder e a fecundidade do Espírito divino. A estes primeiros enviados sucede uma nova geração. Os nomes mudam, mas a ação continua e continuará até o fim dos tempos, porque é necessário que Jesus seja reconhecido por Salvador e Senhor da humanidade, e que o Espírito Santo tenha sido enviado para operar este reconhecimento sobre a terra.
A DERROTA DE SATANÁS
O Príncipe deste mundo, “a antiga serpente”12, agita-se com violência para impedir as conquistas dos enviados do Espírito. Crucificou Pedro, cortou a cabeça de Paulo e imolou seus companheiros; mas, quando os chefes desapareceram, seu orgulho foi submetido a uma prova ainda mais dura.
O mistério de Pentecostes produziu um povo inteiro; a semente apostólica germinou em proporções gigantescas. A perseguição de Nero pôde derrubar os chefes judaicos do Novo Testamento; mas eis a gentilidade estabelecida na Igreja. Como cantávamos ontem, “o Espírito do Senhor encheu toda a terra”13.
Vemos, desde o fim do primeiro século, a espada de Domiciano fartar-se até mesmo nos membros da família imperial. Logo os Trajanos, os Adrianos, os Antoninos, os Marco Aurélios, espantados diante do competidor Jesus Nazareno, lançam-se sobre seu rebanho; mas em vão. O Príncipe deste mundo os havia armado com a política e com a filosofia; o Espírito Santo desfaz estes falsos prestígios, e a verdade se estende sobre a face do mundo.
A estes sábios sucedem tiranos furiosos: um Severo, um Décio, um Galo, um Valeriano, um Aureliano, um Maximiano. A carnificina se estende por todo o império, porque há cristãos por toda parte. Enfim, o esforço supremo do Príncipe deste mundo está na horrorosa perseguição decretada por Diocleciano e pelos ferozes Césares que partilham com ele o poder. Haviam decretado o extermínio do cristianismo, e são eles que, depois de derramar torrentes de sangue, afundam-se no desespero e na ignomínia.
Quão magníficos são os vossos triunfos, divino Espírito! Quão sobre-humano é o império do Filho de Deus, quando o estabeleceis assim contra todas as resistências da fraqueza e da malignidade humanas, diante de Satanás, cujo reino parecia consolidado para sempre na terra!
Mas amais o futuro rebanho do Redentor e estendeis a milhões de almas o atrativo por uma verdade que exige tão tremendos sacrifícios. Derrubastes os pretextos de uma vã razão com prodígios inumeráveis e, abrasando depois pelo amor estes corações arrancados da concupiscência e do orgulho, enviais-os, cheios de um entusiasmo tranquilo, à morte e às torturas.
A VITÓRIA DOS MÁRTIRES
A promessa de Jesus cumpriu-se quando seus fiéis compareciam diante dos ministros do Príncipe deste mundo. Ele havia dito: “Não vos preocupeis com o que haveis de falar ou dizer. Naquela hora vos será dado o que deveis dizer, porque não sereis vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é que falará por vós”¹⁴.
Podemos ainda julgá-lo lendo as Atas de nossos mártires, acompanhando estes interrogatórios e estas respostas simples e sublimes que escapam em meio aos tormentos. É a voz do Espírito que luta e que triunfa. Os presentes diziam: “Grande é o Deus dos cristãos!” E mais de uma vez se viu que os verdugos, seduzidos por tão elevada eloquência, declaravam-se discípulos de Deus tão poderoso e colocavam-se subitamente entre as vítimas que pouco antes dilaceravam.
Sabemos, pelos monumentos contemporâneos, que a arena do martírio foi a tribuna da fé, e que o sangue dos mártires, unido à beleza de sua palavra, foi semente de cristãos.
Três séculos depois destas maravilhas do divino Espírito, a vitória foi completa. Jesus era declarado Rei e Salvador do mundo, Doutor e Redentor dos homens. Satanás era expulso do domínio que havia usurpado; o politeísmo, do qual fora autor, era substituído pela fé em um só Deus; e o baixo culto da matéria tornava-se objeto de vergonha e desprezo.
Assim, tal vitória, que teve por primeiro teatro o império romano, e que não deixou de estender-se, de século em século, a tantas nações infiéis, é obra do Espírito Santo. A maneira milagrosa com que se cumpriu, contra todas as previsões humanas, é um dos principais argumentos sobre os quais repousa a fé.
Não vimos nem ouvimos o Senhor Jesus; mas O confessamos como nosso Deus, por causa do testemunho que d’Ele deu tão visivelmente o Espírito Santo que nos foi enviado. Glória seja para sempre a este divino Espírito, reconhecimento e amor de toda criatura, porque nos pôs em posse da salvação que o Emanuel nos havia trazido.
MISSA
Hoje a estação é na Basílica de São Pedro ad vincula. Esta igreja, chamada também Basílica de Eudóxia, pelo nome da imperatriz que a erigiu, conserva precisamente as cadeias com que São Pedro foi preso em Jerusalém por ordem de Herodes e, em Roma, por ordem de Nero.
A reunião do povo em seu recinto recorda a força com que o Espírito Santo revestiu os Apóstolos no dia de Pentecostes. Pedro deixou-se prender para servir a seu Mestre Jesus, e gloriou-se de suas cadeias. Este Apóstolo, que havia tremido à voz de uma criada, depois de receber o dom do Espírito Santo marchou para as cadeias. O Príncipe deste mundo julgou que poderia acorrentar a palavra divina; mas esta palavra estava livre mesmo entre ferros.
O Intróito faz alusão aos neófitos que acabam de ser batizados e estão ali presentes com suas vestes brancas. Ao saírem da fonte, foram alimentados com o pão da vida, que é a flor fina do alimento celestial. Foi-lhes dado provar a doçura do mel que sai da pedra.
A Pedra é Cristo, diz-nos o Apóstolo14, e Cristo admitiu Simão, filho de Jonas, na participação deste nobre símbolo. Disse-lhe: “Tu és Pedra”, e as sagradas cadeias que ali se encontram mostram bem com que fidelidade Simão compreendeu o unir-se ao seguimento de seu Mestre. O mesmo Espírito que o fortaleceu na luta repousa agora sobre os neófitos de Pentecostes.
INTRÓITO – Alimentou-os com a flor do trigo, aleluia; e saciou-os com mel da rocha, aleluia, aleluia.
Salmo: Exaltai a Deus, nosso auxílio; cantai jubilosos ao Deus de Jacó.
℣. Glória ao Pai.
Na Coleta, a Igreja recorda a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e, dando graças a Deus, que se dignou infundir o dom da fé nos novos cristãos, pede para eles o dom da paz que Jesus ressuscitado trouxe a seus discípulos.
COLETA – Ó Deus, que destes a vossos Apóstolos o Espírito Santo: concedei ao vosso povo o efeito de sua piedosa petição; para que, àqueles a quem destes a fé, deis também a paz. Por Nosso Senhor… na unidade do mesmo Espírito Santo.
EPÍSTOLA – Leitura dos Atos dos Apóstolos.
Naqueles dias, Pedro, abrindo a boca, disse: Varões irmãos, o Senhor nos ordenou pregar ao povo e atestar que Ele mesmo foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. Dele dão testemunho todos os profetas, dizendo que todos os que creem recebem, por seu nome, o perdão dos pecados. Ainda Pedro dizia estas palavras, quando desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E ficaram pasmados os fiéis da circuncisão que tinham vindo com Pedro, porque a graça do Espírito Santo se derramava também sobre as nações. Pois os ouviam falar em línguas e glorificar a Deus. Então respondeu Pedro: Acaso pode alguém negar a água, para que não sejam batizados estes que receberam o Espírito Santo como nós? E mandou que fossem batizados em nome do Senhor Jesus Cristo.
O BATISMO DOS PRIMEIROS CRISTÃOS
Esta passagem do livro dos Atos dos Apóstolos tem elevada eloquência em tal dia e em tal lugar. Pedro, o vigário de Cristo, está na presença dos cristãos saídos da Sinagoga; diante de seus olhos reúnem-se muitos gentios, a quem a graça conduziu, pela pregação de Pedro, a reconhecer Jesus por Filho de Deus.
O Apóstolo chegou ao momento solene em que deve abrir a porta da Igreja aos gentios. Para respeitar a suscetibilidade dos antigos judeus, apela a seus profetas. Que disseram estes profetas? Anunciaram que todos os que, sem exceção, cressem em Jesus receberiam a remissão de seus pecados por seu Nome.
De repente, o Espírito Santo interrompe o Apóstolo e decide a questão, infundindo-se, como no dia de Pentecostes, sobre estes gentios humildes e crentes. Os sinais de sua presença arrancam um grito de admiração aos cristãos circuncisos: “Como! — exclamam — a graça do Espírito Santo é também para os gentios!”
Então Pedro, com toda a autoridade do Chefe da Igreja, decide a questão: “Ousaríamos recusar o Batismo a homens que receberam o Espírito Santo como nós O recebemos?” E, sem esperar resposta, ordena conferir imediatamente o Batismo a estes felizes catecúmenos.
Tal leitura, no seio de Roma, centro da gentilidade, numa basílica dedicada a São Pedro, na presença dos neófitos tão recentemente iniciados nos dons do Espírito Santo pelo Batismo, oferecia uma oportunidade que nos é fácil perceber. Tiremos ao mesmo tempo um profundo sentimento de ação de graças para com o Senhor nosso Deus, que se dignou chamar nossos pais do seio da infidelidade e associar-nos aos favores de seu divino Espírito.
ALELUIA – Aleluia, aleluia.
℣. Os Apóstolos falavam em várias línguas as maravilhas de Deus. Aleluia. Aqui se ajoelha.
℣. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.
A Sequência Veni, Sancte Spiritus
EVANGELHO – Continuação do Santo Evangelho segundo São João.
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: Tanto amou Deus o mundo, que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem crê n’Ele não é julgado; mas quem não crê já está julgado, porque não crê no nome do Filho unigênito de Deus. E este é o juízo: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vai para a luz, para que suas obras não sejam reprovadas; mas aquele que pratica a verdade vai para a luz, para que se manifestem as suas obras, porque foram feitas em Deus.
A VIRTUDE DA FÉ
O Espírito Santo cria a fé em nossas almas, e pela fé alcançamos a vida eterna; porque a fé não é a adesão a uma tese racionalmente demonstrada, mas uma virtude que procede da vontade fecundada pela graça.
No tempo em que vivemos, a fé é rara. O orgulho do espírito chegou ao cúmulo, e a docilidade da razão aos ensinamentos da Igreja falta em grande número de pessoas. Alguém se julga cristão e católico, e ao mesmo tempo não está disposto a renunciar com toda simplicidade às suas ideias, se forem desaprovadas pela autoridade, que é a única que tem o direito de nos dirigir na crença.
Permitem-se leituras imprudentes, às vezes más, sem inquietar-se se com isso se contraria sagradas proibições. Pouco se faz para trabalhar numa instrução séria e completa em matéria de religião, de sorte que se conservam no espírito, como veneno oculto, muitas ideias heterodoxas que circulam na atmosfera que se respira.
Com frequência acontece que um homem se conta entre os católicos e cumpre os deveres exteriores da fé por princípio de educação, por tradição de família, por certa disposição natural do coração ou da imaginação. É triste dizê-lo: muitos julgam ter fé, mas ela está extinta neles.
Contudo, a fé é o primeiro laço com Deus. Pela fé, diz-nos o Apóstolo, aproxima-se alguém de Deus15 e permanece unido a Ele. Tal é a importância da fé, que o Senhor nos diz que “quem crê não é julgado”. Com efeito, quem crê no sentido de nosso Evangelho não adere somente a uma doutrina; crê porque se submete de coração e de espírito, porque quer amar aquilo em que crê. A fé opera pela caridade, que a completa, mas é um gosto antecipado da caridade. Por isso, o Senhor já promete a salvação àquele que crê.
Esta fé sofre obstáculos da parte de nossa natureza caída. Acabamos de ouvi-lo: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz”16. Em nosso século, as trevas reinam e se tornam mais densas; também se veem erguer-se falsas luzes; miragens enganadoras extraviam os viajantes; e, repetimo-lo, tornou-se mais rara a fé, esta fé que une a Deus e salva de seus juízos.
Espírito divino, livrai-nos das trevas, corrigi o orgulho de nosso espírito, resgatai-nos desta vã liberdade que se propõe como único fim de tudo e que é tão estéril para o bem das almas. Amamos a luz; desejamos possuí-la, conservá-la e merecer, pela docilidade e simplicidade de crianças, a felicidade de vê-la aberta no dia eterno.
O Ofertório é tirado de um dos mais belos cânticos de Davi. Nele se anuncia o ruído da tempestade que precede a chegada do Espírito. Logo as fontes de água viva se derramam e fertilizam a terra; é o vento impetuoso de Pentecostes e o Batismo que sucede à emissão dos fogos.
OFERTÓRIO – Trovejou desde o Céu o Senhor, e o Altíssimo fez ouvir a sua voz; e apareceram as fontes das águas, aleluia.
Na Secreta, a Igreja pede que não haja senão uma só oferenda sobre o altar, e que, por obra do Espírito Santo, ela seja formada ao mesmo tempo dos elementos sagrados e dos corações dos fiéis.
SECRETA – Suplicamo-Vos, Senhor, que santifiqueis propício estes dons; e, aceita a oblação desta hóstia espiritual, fazei que nós mesmos sejamos para Vós um dom eterno. Por Nosso Senhor.
A antífona da Comunhão é formada pelas palavras de Cristo ao anunciar a seus discípulos o ministério que o Espírito Santo realizará sobre a terra. Ele presidirá o ensinamento das verdades que o próprio Jesus revelou.
COMUNHÃO – O Espírito Santo vos ensinará, aleluia, tudo quanto Eu vos disse, aleluia, aleluia.
Na Pós-comunhão, a Santa Igreja se preocupa com a sorte de seus neófitos. Acabam de participar do Mistério celestial; mas, além disso, graves provas os aguardam: Satanás, o mundo, os perseguidores. A Mãe comum intervém junto a Deus para obter que seus novos filhos sejam tratados com os cuidados proporcionados à sua idade ainda tenra.
PÓS-COMUNHÃO – Suplicamo-Vos, Senhor, que assistais o vosso povo; e àquele que instruístes com vossos celestiais Mistérios, defendei-o do furor dos inimigos. Por Nosso Senhor.
O DOM DE PIEDADE
O dom de Temor de Deus está destinado a curar em nós a chaga do orgulho; o dom de Piedade é derramado em nossas almas pelo Espírito Santo para combater o egoísmo, que é uma das más paixões do homem caído e o segundo obstáculo à sua união com Deus.
O coração do cristão não deve ser frio nem indiferente; é preciso que seja terno e dócil. De outro modo, não poderia elevar-se no caminho ao qual Deus, que é amor, se dignou chamá-lo.
O Espírito Santo produz, pois, no homem o dom de Piedade, inspirando-lhe um retorno filial para com seu Criador. “Recebestes o Espírito de adoção — diz-nos o Apóstolo — e por este Espírito clamamos a Deus: Pai! Pai!”17.
Esta disposição torna a alma sensível a tudo quanto diz respeito à honra de Deus. Faz com que o homem nutra em si mesmo a compunção de seus pecados, à vista da infinita bondade que se dignou suportá-lo e perdoá-lo, e diante do pensamento dos sofrimentos e da morte do Redentor.
A alma iniciada no dom de Piedade deseja constantemente a glória de Deus; quereria conduzir todos os homens a seus pés, e os ultrajes que Ele recebe lhe são particularmente sensíveis. Alegra-se ao ver os progressos das almas no amor e os sacrifícios que este amor lhes inspira por Aquele que é o soberano Bem. Cheia de submissão filial para com este Pai universal que está nos Céus, está pronta a cumprir todas as suas vontades. Resigna-se de coração a todas as disposições da Providência.
Sua fé é simples e viva. Mantém-se amorosamente submetida à Igreja, sempre pronta a renunciar às ideias mais queridas se elas se afastarem de seu ensinamento ou de sua prática, tendo horror instintivo à novidade e à independência.
Esta oferenda a Deus que o dom de Piedade inspira, ao unir a alma a seu Criador pelo afeto filial, une-a com afeto fraterno a todas as criaturas, porque são obra do poder de Deus e porque Lhe pertencem.
Em primeiro lugar, entre os afetos do cristão animado pelo dom de Piedade, colocam-se as criaturas glorificadas, nas quais Deus se regozija eternamente e que n’Ele se regozijam para sempre. Ama com ternura Maria e é zeloso de sua honra; venera com amor os santos; admira com efusão os mártires e os atos heroicos de virtude realizados pelos amigos de Deus; ama seus milagres e honra religiosamente as sagradas relíquias.
Mas seu afeto não é somente para as criaturas coroadas no Céu; também as que ainda estão aqui têm grande acolhida em seu coração. O dom de Piedade o faz encontrar nelas o próprio Jesus. Sua benevolência para com seus irmãos é universal. Seu coração está disposto ao perdão das injúrias, a suportar as imperfeições dos outros e a desculpar as faltas do próximo.
É compassivo com o pobre, solícito com o enfermo. Uma doçura afetuosa revela o fundo de seu coração; e, em suas relações com os irmãos da terra, vê-se sempre disposto a chorar com os que choram e a alegrar-se com os que se alegram.
Tal é, Espírito divino, a disposição dos que cultivam o dom de Piedade que derramastes em suas almas. Por este benefício inefável, neutralizais o triste egoísmo que murcha seu coração; livrais-os dessa aridez odiosa que torna o homem indiferente para com seus irmãos e fechais sua alma à inveja e ao rancor.
Por isso o homem teve necessidade desta piedade filial para com seu Criador. Ela enterneceu seu coração, e este coração se fundiu num vivo afeto por tudo o que sai das mãos de Deus.
Fazei frutificar em nós tão precioso dom; não permitais que seja sufocado pelo amor a nós mesmos. Jesus nos animou dizendo que seu Pai celeste “faz nascer o seu sol sobre bons e maus”18. Não consintais, Paráclito divino, que tão paternal indulgência seja um exemplo perdido, e dignai-Vos desenvolver em nossas almas este germe de sacrifício, de benevolência e de compaixão que nelas colocastes quando tomáveis posse delas pelo Batismo.
1. Sl. 2, 8.
2. Mt. 28, 18.
3. Dn. 9, 26.
4. Lc. 19, 14.
5. Rm. 1, 21.
6. Jo. 12, 31.
7. Lc. 11, 21.
8. I Cor. 1, 27.
9. Rm. 3, 2.
10. Mt. 15, 24.
11. At. 7, 51.
12. Ap. 12, 9.
13. Introíto da festa de Pentecostes tomado do livro de sabedoria.
14. Mt. 10, 20.
15. I Cor. 10, 4.
16. Hb. 11, 6.
17. Rm. 8, 15.
18. Mt. 28, 18.


