Vigília da Ascensão
A VIGÍLIA DA ASCENSÃO
Transcorreu a terceira manhã das Rogações; aproxima-se a hora do meio-dia; com ela começa o último dia que o Filho de Deus deve passar sobre a terra com os homens. Dir-se-ia que perdemos de vista, durante estes três dias, o momento tão próximo da separação; contudo, o sentimento da perda que nos ameaça alentava no fundo de nossos corações, e as súplicas que apresentávamos ao Céu, em união com a Santa Igreja, preparavam-nos para celebrar o último dos mistérios do Emmanuel.
OS DISCÍPULOS NO CENÁCULO. — Neste momento, todos os discípulos se reuniram em Jerusalém. Agrupados no Cenáculo, em torno de Maria, esperam a hora em que seu Mestre deve manifestar-Se a eles pela última vez. Recolhidos e silenciosos, repassam em seus corações as provas de bondade e de condescendência que Ele lhes prodigalizou durante estes quarenta dias e os ensinamentos que receberam de seus lábios. Agora O conhecem, sabem que saiu de Deus; aprenderam d’Ele a missão à qual os destinou: ensinar, eles que eram ignorantes, aos povos da terra; mas Ele apressa-Se em abandoná-los: “Ainda um pouco, e já não Me vereis mais.”¹
ORAÇÃO. — Ó Jesus, nosso Criador e nosso Irmão, nós Vos seguimos com os olhos e com o coração desde o vosso nascimento; celebramos na Liturgia, um a um, os vossos passos de gigante,² com especial solenidade; mas, ao ver-Vos subir sempre deste modo, devíamos ter previsto o momento em que iríeis tomar posse do único lugar que Vos convém, do trono sublime no qual Vos sentareis eternamente à direita do Pai.
O resplendor que Vos circunda desde a vossa Ressurreição não é deste mundo; não podeis permanecer por mais tempo entre nós; só permanecestes durante estes quarenta dias para a consolidação de vossa obra, e amanhã a terra que Vos possuiu durante trinta e três anos ficará privada de Vós. Com Maria, vossa Mãe; com vossos dóceis discípulos; com Maria Madalena e suas companheiras, alegramo-nos pelo triunfo que Vos espera; mas, na véspera de perder-Vos, permiti a nossos corações que também se deixem comover pela tristeza; porque Vós sois o Emmanuel, Deus conosco, e partis para ser doravante o astro divino que pairará sobre nós; e já não poderemos ver-Vos, nem ouvir-Vos, nem tocar-Vos com nossas mãos, ó Verbo da vida.¹
Também nós exclamamos: Glória e amor Vos sejam dados!, porque nos tratastes com misericórdia infinita. Nada nos devíeis; éramos indignos de atrair o vosso olhar, e descestes a esta terra manchada pelo pecado; habitastes entre nós, pagastes o nosso resgate com o vosso Sangue, restabelecestes a paz entre Deus e os homens. Sim, é justo que agora “volteis para Aquele que Vos enviou”.² Ouvimos a voz de vossa Igreja, que aceita o seu desterro e só pensa em vossa glória: “Fugi, pois, meu Amado — ela Vos diz —; fugi com a rapidez da gazela e do cervatinho para esses montes onde as flores do Céu exalam seus perfumes.”³ Poderemos nós, pecadores como somos, imitar a resignação d’Aquela que é ao mesmo tempo vossa Esposa e nossa mãe?


