Oratório São José

Quinta-Feira da IV semana depois da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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QUINTA-FEIRA

DA IV SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA

A EXTREMA-UNÇÃO. — Jesus proveu, nos quatro primeiros Sacramentos, às diversas necessidades espirituais do homem durante a sua vida. O Batismo é o nascimento do fiel; a Confirmação o arma para o combate; a Eucaristia é seu alimento; a Penitência, seu remédio. Mas o último momento da vida, o mais grave e o mais transcendental de todos, aquele que decide a eternidade para cada um de nós, não parece exigir um socorro sacramental de gênero novo? A passagem desta existência para aquela que a há de seguir, esta hora de angústias e de esperanças, obrigar-nos-ia porventura a lamentar que o Redentor não pensou em assisti-lo com sua proteção pela instituição de um rito destinado a produzir o socorro especial de que necessita o moribundo nesse extremo momento? Jesus tudo proveu, e a graça da Redenção revestiu nova forma para visitar-nos e fortalecer-nos nesta crise final.

Antes de sua Paixão, mostrou um indício do que meditava para o futuro. Ao enviar seus discípulos à frente d’Ele para prepararem os povos para a sua pregação, recomendou-lhes que ungissem os enfermos com óleo; e os discípulos, fiéis à ordem do Mestre, mandavam aos enfermos, depois de empregar esse remédio misterioso, levantar-se de seus leitos, curados e consolados. Mas, quando, depois de sua Ressurreição, o nosso divino Redentor se ocupa em dotar a sua Igreja, então, para aliviar as futuras dores desta mãe comum, assegura a seus filhos moribundos a doce consolação do Sacramento estabelecido unicamente para eles.

O azeite é o símbolo da força; o atleta que queria lutar na arena ungia os seus membros para torná-los mais ágeis e flexíveis. Por isso Jesus o escolheu como elemento sacramental, quando quer assegurar à nossa alma regenerada pelo Batismo o vigor de que necessita na luta pela salvação. A hora da morte é também um combate, e este combate é o mais temível de todos. Nesse momento, Satanás, vendo-lhe escapar a presa cobiçada durante toda uma vida, redobra os esforços para arrebatá-la. O homem, à beira dos abismos da eternidade, está continuamente cercado pelos ataques de uma confiança presunçosa e de um desalento contra a esperança. Dentro de poucos instantes, há de encontrar-se aos pés do Juiz cuja sentença é inapelável, e as sequelas do pecado ainda retêm os movimentos de sua alma. Qual será sua força nesta última luta, que há de decidir o resultado final de todas as que a precederam durante a vida? Não é tempo de que Jesus venha em seu socorro com um Sacramento capaz de comunicar a seu atleta forças proporcionadas ao transe? Ele vem, e sua mão preparou o óleo da última Unção, não menos poderoso que o da primeira; aplicação suprema do Sangue redentor, “que corre tão abundantemente com este precioso líquido”.

EFEITOS DO SACRAMENTO. — E vede os efeitos desta unção, que o Apóstolo São Tiago, instruído pelo próprio Salvador, nos descreve em sua Epístola. É “a própria remissão dos pecados”; desses pecados que a consciência, ainda a mais delicada, não havia considerado, e que, contudo, pesam sobre a alma; dessas sequelas do pecado perdoado quanto à culpa, mas cujas cicatrizes ainda não estão completamente fechadas e exercem influência maligna. O óleo santo percorre misericordiosamente cada um dos sentidos, que por sua vez se proclamam pecadores e recebem sucessivamente a purificação que lhes convém. Essas portas tão perigosamente abertas para o lado do mundo vão-se fechando uma após outra, e a alma volta-se com plena atenção para a eternidade. Agora vem o inimigo; seus ataques não arrebatarão a presa. Contava com um adversário totalmente terreno, ferido já em cem combates, e encontra-se diante de um atleta do Senhor, cheio de vigor e preparado para a defesa. O divino Sacramento operou esta transformação.

Mas tão ampla é a eficácia desta unção sacramental, que, tendo sido instituída principalmente para a renovação das forças da alma, recebeu também a virtude de restabelecer as forças do corpo e de devolver a saúde aos enfermos. É o que nos ensina o mesmo Apóstolo São Tiago. “O Senhor — nos diz — dará alívio ao enfermo, que encontrará a sua cura na eficácia da oração da fé.” A fórmula que acompanha cada unção neste Sacramento possui, pois, a virtude de restaurar as forças físicas do homem, ao mesmo tempo que destrói os restos do pecado, causa principal das misérias do homem tanto no corpo quanto na alma. Tal é o sentido das palavras de Tiago, interpretadas pela Igreja; e a experiência também nos mostra, com bastante frequência, que o divino Autor deste Sacramento não esqueceu a dupla promessa com que se dignou enriquecer este rito.

Por isso, com esta confiança, o sacerdote, depois de fazer as unções nos membros do enfermo, dirige-se em seguida a Deus, para pedir-Lhe que restitua as forças corporais àquele cuja alma acaba de experimentar o poder do remédio celeste; e a Santa Igreja considera tão fundado na palavra de Cristo o efeito sacramental da Extrema-Unção quanto ao alívio do corpo, que não conta entre os milagres propriamente ditos as curas operadas por este Sacramento.

Ofereçamos, pois, ao vencedor da morte a homenagem de nossa gratidão por este novo benefício de sua compaixão para com seus irmãos. Ele dignou-se passar por todas as nossas misérias; nem da própria morte — como vimos — se exceptuou, e as angústias da agonia não foram poupadas. Quando, sobre o madeiro da cruz, era presa de todas as angústias do pecador moribundo — ainda que fosse a própria santidade —, dignou-se pensar no último combate e, em sua bondade, dirigiu o seu preciosíssimo Sangue aos cristãos agonizantes. Tal é a origem do Sacramento da Extrema-Unção, que Ele promulga nestes dias e pelo qual hoje Lhe apresentamos as nossas humildes ações de graças.

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