Terça-Feira da IV semana depois da Páscoa
TERÇA-FEIRA
DA IV SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA
A SAGRADA EUCARISTIA. — O terceiro Sacramento — o da Eucaristia — tem relação muito íntima com a Paixão do Salvador, embora a sua instituição tenha sido reservada para depois da ressurreição. Honramos, na Quinta-Feira Santa, o ato pelo qual Jesus preludiou o Sacrifício sangrento do dia seguinte, inaugurando o mistério de seu Corpo e de seu Sangue, verdadeiramente imolados na Ceia Eucarística. Não somente vimos os Apóstolos admitidos a participar, em nome de todas as gerações que se seguirão até o fim dos séculos, do alimento celeste “que dá a vida ao mundo”, mas também ouvimos o Sacerdote eterno conferir-lhes o poder de fazer doravante o que Ele mesmo acabava de fazer. O mistério está estabelecido para sempre, o novo sacerdócio instituído; e Jesus ressuscitado nada mais faz senão instruir os seus Apóstolos sobre a natureza e a importância do dom que se dignou conceder aos homens nessa ocasião, e sobre o modo de exercer o poder que lhes conferiu, quando o Espírito Santo, descido do céu, der à Igreja o sinal de usar de todas as suas prerrogativas.
Na Última Ceia, os Apóstolos, ainda grosseiros, preocupados com o acontecimento que se ia revelar, inquietos com as palavras do Mestre, que lhes havia advertido que aquela Páscoa seria a última que celebraria com eles, não podiam compreender tudo o que Jesus havia feito por eles quando lhes disse: “Tomai e comei; isto é o meu Corpo; bebei todos dele; isto é o meu Sangue”. Menos ainda podiam avaliar a extensão do poder que haviam recebido para renovar o mistério que acabava de operar-se diante dos seus olhos. Competia a Jesus ressuscitado revelar essas maravilhas, e Ele o faz nos dias em que nos encontramos. O Sacramento da Eucaristia não é agora instituído, mas é declarado, exposto, glorificado pela própria boca do seu divino Instituidor; e esta circunstância contribui para tornar ainda mais sagrado o tempo que atualmente percorremos.
Entre todos os Sacramentos, não há nenhum que se lhe possa comparar em dignidade; os outros nos transmitem a graça, mas este contém o próprio autor da graça; os outros são somente Sacramentos, e este é, ao mesmo tempo, Sacramento e Sacrifício. Procuraremos desenvolver todas as suas magnificências na festa do Santíssimo Sacramento. Hoje devemos somente render o tributo de nossas adorações e de nosso amor a Jesus, “o pão vivo que dá a vida ao mundo”, e proclamar a solicitude que tem por suas ovelhas; Ele parece abandoná-las para voltar ao Pai, mas o seu amor o retém no meio delas sob este mistério, no qual a sua presença, embora invisível, não é menos real.
Nós vos bendizemos, pois, ó Filho eterno do Pai, que já nos tínheis revelado, nos oráculos divinos da antiga aliança, que “vossas delícias são estar com os filhos dos homens”. Vós no-lo mostrais hoje por este Sacramento, que concilia a vossa ausência anunciada e a vossa permanência constante no meio de nós.
Nós vos bendizemos por terdes querido alimentar as nossas almas, assim como alimentais os nossos corpos. No tempo do Natal, vimos-vos nascer em Belém, que significa casa do pão. Éreis então um Salvador que nascia por nós e, ao mesmo tempo, um alimento que descia do céu para as nossas almas.
Nós vos bendizemos, a Vós, que, não contente de haver operado na Última Ceia o mais admirável dos prodígios, convertendo o pão em vosso Corpo e o vinho em vosso Sangue, quereis ainda que esta maravilha se renove em todos os lugares e até o fim dos tempos, para sustentar e consolar as nossas almas. Nós vos bendizemos por não terdes posto nenhum limite ao nosso desejo de recorrer a este Pão de vida; pelo contrário, por nos terdes animado a fazer d’Ele o nosso alimento habitual, para que não desfaleçamos no caminho desta vida.
Nós vos bendizemos pela generosidade com que expusestes até a vossa honra para vos comunicardes às nossas almas, resignando-vos às blasfêmias dos hereges, às profanações dos maus cristãos, à indiferença dos tibios.
Nós vos bendizemos, ó Cordeiro divino, que selais a nova Páscoa pela efusão do vosso Sangue e convocais o novo Israel a sentar-se à mesa onde se oferece o vosso sagrado Corpo em alimento dos vossos fiéis, que vêm beber a vida em sua própria fonte e tomar parte nas alegrias inefáveis da vossa Ressurreição.
Nós vos bendizemos, ó Jesus, por haver instituído, na Eucaristia, não somente o mais nobre dos Sacramentos, mas também o mais augusto de todos os Sacrifícios: aquele pelo qual podemos oferecer à eterna majestade a única homenagem digna dela, apresentar-lhe uma ação de graças proporcionada aos seus benefícios, oferecer uma reparação superabundante pelos nossos pecados e, enfim, pedir e obter todas as graças de que necessitamos nesta vida.
Nós vos bendizemos, ó Emanuel, que, nos dias de vossa vida mortal, prometestes dar-nos este pão e esta bebida; que, na véspera em que havíeis de padecer, vos dignastes deixar este divino Sacramento como o Testamento de vosso amor; e que, nas últimas horas de vossa permanência visível aqui embaixo, manifestastes as suas excelências aos Apóstolos, para que a nossa fé se elevasse à altura do dom que nos fazíeis.
Nós vos oferecemos esta homenagem da fé à vossa palavra, ó divino Ressuscitado! Nós vos confessamos que, neste mistério, o pão se converte em vosso Corpo e o vinho em vosso Sangue; e assim o cremos porque vós o dissestes e porque ninguém está acima do vosso poder.


