Oratório São José

Sexta-Feira da II semana depois da Páscoa

Ano Litúrgico - Dom Próspero Gueranger

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SEXTA-FEIRA
DA
II SEMANA DEPOIS DA PÁSCOA

AÇÃO DE GRAÇAS PARA COM A IGREJA. — Igreja de Jesus, prometida por Ele à terra nos dias de sua vida mortal, saída de seu lado aberto pela lança sobre a Cruz, ordenada e aperfeiçoada por Ele nas últimas horas de sua permanência na terra, saudamo-vos com amor como nossa Mãe comum. Sois a Esposa de nosso Redentor, e vós nos gerastes n’Ele. Sois vós quem nos destes a vida no Batismo; sois vós quem nos iluminais com a Palavra que produz em nós a luz; sois vós quem nos administrai os socorros pelos quais nossa peregrinação terrena deve conduzir-nos ao Céu; sois vós, enfim, quem nos governa para a salvação com vossos santos mandamentos.

Em vosso seio maternal, ó Igreja, estamos seguros, nada temos a temer. Que pode contra nós o erro? “Sois a coluna e o sustentáculo da verdade sobre a terra” (I Tim., III, 15). Que nos podem fazer as perseguições da pátria terrena? Sabemos que, ainda que tudo falte, vós não podeis faltar. Nestes mesmos dias, Jesus disse a seus Apóstolos e neles a seus sucessores: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (S. Matth., XXVIII, 20). Que penhor de duração, ó Igreja! Toda a história da humanidade é testemunha de se alguma vez Ele vos faltou em dezenove séculos. Mil vezes rugiram as portas do inferno; mas não prevaleceram contra vós nem por uma só hora.

Ó Igreja, estando fundada em Cristo vosso Esposo, fazeis-nos participar da divina imutabilidade que recebestes. Estando apoiados em vós, não existe para nós verdade alguma que nosso olhar, purificado pela fé, não possa penetrar, nem bem algum que, apesar de nossa fraqueza, não possamos realizar, nem esperança, por infinita que seja, cujo objeto não sejamos capazes de possuir.

Tendes-nos em vossos braços, e da altura a que nos elevais descobrimos os mistérios do tempo e os segredos da eternidade. Nosso olhar vos segue com admiração, quer vos considere militante sobre a terra, quer vos encontre padecente em vossos membros queridos, na morada temporária da expiação, quer enfim vos descubra triunfante nos Céus: contemporânea nossa no tempo, sois, por uma parte de vós mesma, herdeira da eternidade. Mãe nossa, guardai-nos convosco, guardai-nos sempre em vós, que sois a amada do Esposo! A quem iríamos senão a vós, a quem Ele confiou as palavras da vida eterna?

INGRATIDÃO PARA COM A IGREJA. — Quão dignos de compaixão são os que não vos conhecem, ó Igreja! Sabemos, contudo, que, se buscam a Deus no fundo do coração, um dia vos conhecerão. Quão dignos de compaixão são os que vos conheceram e vos negam por seu orgulho e por sua ingratidão! Mas tal desgraça não sucede a ninguém, a não ser que tenha extinguido voluntariamente em si a luz. Quão dignos de compaixão são os que vos conhecem e vivem de vossa substância maternal, e, apesar disso, se unem a vossos inimigos para vos insultar e trair! Levianos de cabeça, confiantes em si mesmos, arrastados pela audácia de seu século, dir-se-ia que já vos consideram como instituição humana, e ousam julgar-vos, para vos absolver ou condenar, conforme pareça conveniente à sua sabedoria.

Em vez de reverenciar, ó Igreja, tudo o que ensinastes acerca de vós mesma e de vossos direitos, tudo o que ordenastes, regulastes e praticastes, sucede que, sem querer romper o vínculo que os une a vós, atrevem-se a confrontar vossa palavra e vossos atos com as ideias de um suposto progresso. Neste mundo que vos foi dado por herança, estes filhos insolentes permitem-se assinalar-vos a vossa parte.

Doravante estareis sob sua tutela, Mãe do gênero humano regenerado. Deles aprendereis, de agora em diante, o que convém a vosso ministério aqui embaixo. Homens sem Deus e adoradores daquilo que chamam os direitos do homem ousaram, há mais de um século, expulsar-vos da sociedade política, que vós tínheis até então mantido em relação com seu divino Autor. Para satisfazer hoje a seus imprudentes discípulos, cumpre-vos negar todos os monumentos de vossos direitos públicos e resignar-vos ao papel de estrangeira. Até aqui exercíeis os direitos que recebestes do Filho de Deus sobre as almas e sobre os corpos; agora cumpre-vos aceitar, em lugar de vossa realeza, a liberdade comum que uma lei de progresso assegura tanto ao erro quanto à verdade.

A ADESÃO À IGREJA. — Ó Igreja, não procuramos disfarçar-vos, mas confessar-vos. Sois um dos artigos de nosso Símbolo: “Creio na Santa Igreja católica”. Há vinte séculos que os cristãos vos conhecem; sabem que não andais ao capricho dos homens. A eles compete aceitar-vos tal como Jesus vos fez: sinal de contradição; a eles compete instruir-se por vossas reclamações, vossos protestos, e não reformar-vos segundo um novo modelo. Só uma mão divina pode operar tal prodígio.

Como é bom, ó Igreja, partilhar vossa sorte! Num século que deixou de ser cristão, tornastes-vos impopular. Já o fostes por longo tempo nos séculos passados; e vossos filhos não eram dignos de pertencer-vos senão com a condição de não temer comprometer-se por vós. Esses tempos chegaram de novo. Não queremos separar nossa causa da vossa; sempre vos confessaremos como nossa Mãe imutável, superior a tudo o que passa, e prosseguindo vossos destinos através de séculos de glória e de perseguição, até que tenha soado a hora em que esta terra, que foi criada para ser vosso domínio, vos veja subir aos Céus e fugir de um mundo condenado a perecer sem remédio por vos ter desconhecido e posto fora da lei.

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